Corona vírus

Pesquisa revela segunda onda

Levantamento de universidades mostra que Distrito Federal apresenta aumento na taxa de reprodução do novo coronavírus. Para especialistas, mudança indica nova fase da pandemia. Secretaria de Saúde afirma que ocupação de leitos para covid-19 está em queda

Alan Rios
JESSICA CARDOSO
postado em 23/11/2020 22:35
 (crédito:  Arquivo Pessoal)
(crédito: Arquivo Pessoal)

Após uma queda dos casos da covid-19 no Distrito Federal, novas análises de pesquisadores mostram taxas em crescimento. Um dos indicadores mais importantes para entender o contexto atual, a taxa de reprodução do vírus tem crescido nas últimas três semanas. Para especialistas, isso pode indicar que o DF entrou em uma nova fase da pandemia. Nota técnica divulgada, ontem, por especialistas de diferentes instituições (leia Para saber mais) revela que “a situação no Brasil se deteriorou fortemente nas últimas duas semanas” e que “uma segunda onda de crescimento de casos é evidente em quase todos os estados”.

Ao Correio, Tarcísio Rocha Filho, do Núcleo de Altos Estudos Estratégicos para o Desenvolvimento e doutor do Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB), foi enfático: “Começamos agora a segunda onda, e a tendência é (de ela) subir”. O pesquisador participou da produção científica da nota técnica e detalhou o que significa a alta verificada no índice de reprodução. “Essa taxa mostra para quantas pessoas, em média, um contaminado passa o vírus. Se cada infectado passar para menos de uma pessoa, os casos caem. Mas, se a (taxa de) reprodução for maior do que 1, significa que vai crescendo o número de contaminados. Inicialmente, percebemos um aumento pequeno no DF, mas as projeções mostram que a tendência é crescer, e rápido”, alerta.

O especialista tem observado os dados e feito cálculos que indicam esse crescimento de diversas formas. Ele comenta que há explicações para os resultados: “Os números foram caindo, e a população começou a se sentir mais segura, frequentando mais bares, restaurantes, locais que facilitam a transmissão. Por isso, de duas semanas para cá, estamos observando uma piora no país todo”, afirma Tarcísio.

Para ele, as consequências da segunda onda podem ser mais graves. “A situação será mais difícil de controlar, porque as pessoas estão mais cansadas, os empresários e comerciantes acumularam perdas e dependem desse trabalho. Então, as hospitalizações podem ser maiores. Essa é a hora para intervir, mas com apoio econômico”, recomenda o pesquisador.

Para Ana Helena Germoglio, infectologista do Hospital Águas Claras, é preciso lembrar que não há definição formal sobre o que é a segunda onda. No entanto, a médica considera que, pelas projeções e experiências de outros países, a fase é “inevitável”. “Há essa briga entre quem diz que estamos na primeira onda, que não saímos, e quem acredita que começamos a segunda. Mas, na Europa, tiveram grandes picos, controlaram essas quantidades e, agora, veio o crescimento. Assim, fica mais simples observar a segunda onda. No DF, a quantidade de casos vem aumentando em algumas localidades, mas está aquém quando comparada com vários estados do Brasil, que têm apresentado aumento expressivo dos casos e de pacientes internados”, analisa a infectologista.

Sociedade

A nota técnica mostra que o DF é a unidade da Federação que apresenta o maior índice de mortes proporcionais à população: são 1.282 óbitos por cada milhão de habitantes. Em países que enfrentam a segunda onda, a taxa é menor. Nos Estados Unidos, é de 791; na França, de 746; e, na Espanha, de 911, segundo a pesquisa. O levantamento aponta, ainda, que 23% da população do Distrito Federal teve contato com o novo coronavírus.

Apesar de os dados sobre o distanciamento social mostrarem que grande parte dos brasilienses passaram a sair mais de casa para atividades não essenciais, há quem defenda e obedeça as recomendações de isolamento. Para Elis Rodrigues, 20 anos, essa iniciativa tem grande importância na prevenção da segunda onda. “Para quem pode ficar em casa, é a medida mais fácil e barata. Estou em quarentena desde que começou (a pandemia), em Brasília. Em casa, não vamos nem ao mercado, porque temos condição de pedir as compras por telefone. Trabalho e assisto as aulas da UnB pelo computador. Minha mãe está em home office, e meus irmãos estão no ensino a distância”, relata a estudante de letras.

Quando permanecer em casa não é uma alternativa viável, a situação fica mais complexa. Para Angélica Nogueira dos Santos, 57, dona do Trofí Buffet e Doceria, é difícil ser contra a possibilidade de um novo fechamento do comércio se isso for necessário para preservar a saúde da população. No entanto, ela considera que representantes de pequenos empreendimentos podem não conseguir manter o negócio. “Foi difícil suportar essa primeira onda. Se houver um fechamento, muita empresa não vai sobreviver. Para mim, que tenho um pequeno restaurante, traria muito prejuízo”, avalia.

Mauro Gonçalves Souza, 40, dono do restaurante Aquela Parmê, em Águas Claras, diz que os estabelecimentos comerciais têm protocolos bem definidos. “Há um controle rígido dos funcionários quanto ao uso de máscaras e ao distanciamento social. Podemos punir, de acordo com o previsto em lei, com advertência oral, escrita e até mesmo com a suspensão do funcionário. A questão é a aglomeração. Não é fechando (o local) em horários específicos que se resolve. É deixando aberto o dia inteiro, para que não se criem filas e gargalos”, opina Mauro.

Em nota, a Secretaria de Saúde informou que trabalha com indicadores internos, estabelecidos no Plano Estratégico de Combate ao Coronavírus no Distrito Federal — Ações de Enfrentamento 2020—2021. “A taxa de transmissão do agente infeccioso, no Distrito Federal, está abaixo de 1. Nesta segunda-feira, em 0,99. A média móvel de óbitos nos últimos sete dias está em estabilidade, e a taxa de ocupação de leitos de covid-19 em UTI (unidade de terapia intensiva), UCI (unidade de cuidado intermediário) e em enfermaria está em queda, com índice atual em torno de 41%”, detalhou a pasta.

O órgão acrescentou que iniciará um inquérito epidemiológico que prevê a aplicação de 10 mil testes rápidos até 20 de dezembro. “Ao mesmo tempo, continuamos orientando a população para que evite aglomerações, mantenha o uso de máscaras e faça a higiene das mãos com água e sabão ou álcool em gel”, conclui a nota.

Para saber mais

 (crédito: Arquivo Pessoal)
crédito: Arquivo Pessoal

Número de infectados

A nota técnica contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). O estudo explica que o estágio da pandemia costuma ser caracterizado pelo número de reprodução básico do vírus. A variação no tempo (Rt) define a quantidade média de pessoas infectadas por um indivíduo. Caso seja menor que 1, a pandemia está contida, e o número de contaminados, além dos óbitos, diminui com o tempo. Por outro lado, se Rt for maior que 1, a pandemia está em expansão. Atualmente, essa taxa, no DF, está em 1,05, segundo o grupo de pesquisadores. No entanto, no boletim epidemiológico de ontem da Secretaria de Saúde, o indicador estava em 0,99.

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