MARCA DA CAPITAL

Conheça oito prédios do Plano Piloto que são destaques da arquitetura moderna

Os prédios chamam atenção pela preservação, manutenção de materiais, acessibilidade, dentre outros tópicos

Ana Maria da Silva*
postado em 03/12/2020 06:00
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

Moderna e futurista, Brasília conseguiu alcançar um nível arquitetônico tão alto quanto o de cidades igualmente importantes como Canberra, na Austrália, e Washington, nos Estados Unidos, ou até superá-las, na opinião de alguns. Mas, muito além de obras como a Catedral Metropolitana ou o Palácio do Planalto, a cidade abriga edificações não monumentais que também fazem parte da história da arquitetura local.

É o caso de oito edifícios do Plano Piloto que recebem, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal, o Selo CAU/DF — Arquitetura de Brasília 2020. Lançado em agosto deste ano pelo conselho, por meio de sua Comissão Temporária de Patrimônio, o selo tem o objetivo de reconhecer o valor histórico das edificações não monumentais de Brasília, bem como divulgar as boas práticas de conservação e manutenção predial que preservaram a linguagem arquitetônica do movimento moderno.

A solenidade de entrega do selo aos primeiros dois edifícios contemplados teve início ontem e segue até o dia 11 de dezembro, com a presença dos (co)autores dos projetos arquitetônicos e de seus familiares, de síndicos, autoridades locais, moradores e representantes do CAU/DF. A intenção desse selo foi reconhecer os trabalhos de intervenção de arquitetos que modernizaram e reformaram esses edifícios, mas mantiveram as características originais da edificação, além de reconhecer aqueles projetos que apenas passaram por manutenção e que são exemplos da arquitetura moderna, das décadas de 1960 e 1970, que estão em ótima conservação, ressalta o presidente do conselho, Daniel Mangabeira da Vinha.

De acordo com o presidente, essas obras precisam ser reconhecidas como característica da nossa cultura, como representação da nossa história. “A importância deste selo é essa, de reconhecer, fomentar e divulgar a arquitetura não monumental como sendo de excelente qualidade”, afirma. Para a escolha, Daniel diz que 30 tópicos foram avaliados a partir de três categorias, sendo elas fachadas, pilotis e urbanismo — entorno do edifício. “Esses 30 tópicos avaliaram conservação, manutenção de materiais, acessibilidade, reformas que tenham sido feitas para melhorias, e assim por diante. Nesse primeiro momento, foram selecionados 30 edifícios de um total de 1.500 edificações no Plano Piloto, ou seja, 2% foram selecionados, e destes, oito receberam o selo”, explicou.

Para Mangabeira, a ação é de extrema importância. “Isso serve para mostrar para a sociedade a importância da preservação arquitetônica. Não é algo coloquial. É mostrar que preservar é valorizar, não apenas como patrimônio cultural e arquitetônico, mas também como valorização financeira. Os mais preservados são aqueles mais desejados. Isso, com certeza, valoriza imóveis não apenas no sentido cultural, mas também no material. Eu fico muito contente com a receptividade e espero que isso possa se refletir em uma memória para nossa cidade, não apenas no Plano Piloto, mas também nas satélites”, reforça Daniel.

Edifícios premiados e seus autores originais

1º - SQS 210 bloco C — Marcílio Mendes Ferreira e Takudoo Takada

2º - SQS 309 bloco E — Arnaldo Mascarenhas Braga e Adalberto Mascarenhas

3º - SQS 314 bloco K — Eduardo Negri

4º - SQN 108 bloco D — Manoel Hermano

5º - SQN 206 bloco I — Marcílio Mendes Ferreira e Takudoo Takada

6º - SQN 416 bloco H — Aleixo Furtado e Gerson Malty

7º - SQS 204 bloco K — Samir Kury

8º - SQS 203 bloco C — Milton Ramos e Aleixo Furtado (co-autor)

Prédios
Prédios (foto: Joana França/Divulgação - Joana França/Divulgação - Joana França/Divulgação - Victor Machado/Divulgação - Victor Machado/Divulgação - Victor Machado/Divulgação - Marina Lira/Divulgação - Joana França/Divulgação)

Reconhecimento

Ganhar o selo de 1º lugar entre os oito edifícios mais bem avaliados de 2020 é motivo de orgulho. Foi o caso do bloco C, da SQS 210, que se destacou pela qualidade arquitetônica, boa conservação e contribuição para a história da arquitetura moderna brasileira. Para o síndico do prédio, o aposentado Fernando de Aquino Pavie, 59 anos, o selo é uma forma de reconhecimento do trabalho e cuidado dos moradores do bloco. “É uma forma de compensar todo o trabalho que temos de preservar, que na verdade nem é trabalho, mas sim um prazer. Fazemos a pesquisa de procura de material, o investimento para tentar recuperar, restaurar. É trabalhoso, mas vale a pena”, diz.

O bloco, que possui 24 unidades residenciais, conta com a participação de todos os moradores no incentivo à preservação. “Houve uma época em que pretendíamos dar uma modernizada no bloco. Mas um morador virou e disse que o local tinha charme, estilo, e que seria legal preservarmos. E assim foi, trabalhamos em cima disso”, lembra o síndico. Após a restauração de um dos painéis do bloco, Fernando lembra que todos ficaram felizes com a ideia de manter o que já tinham. “Naquele momento, as pessoas perceberam que era possível mantermos, que era mais barato, bonito e charmoso”, recorda.

A construção de 1976, orquestrada pelos arquitetos Marcílio Mendes Ferreira e Takudoo Takada, mantém-se atemporal, conforme explica o síndico. “O nosso prédio é estiloso, atípico, com características marcantes, de um arquiteto que, sem dúvidas, é o hors concours, excepcional, entre os arquitetos de Brasília. Quem entende de arquitetura sabe disso. São os detalhes, a funcionalidade, inteligência, e interação com a natureza que fizeram com que o prédio fosse reconhecido. É algo que precisa, realmente, estar registrado na história”, acredita Fernando.

Identidade marcante

O bloco K, da SQS 204, também foi selecionado para a homenagem. A qualidade arquitetônica foi o principal motivo que levou o prédio a ocupar o 7º lugar entre os oito edifícios. O projeto, de autoria do arquiteto Samir Kury, é da década de 1960, e possui características marcantes. Segundo o síndico Sérgio Rodrigues Pimentel, 52, entre elas está o pilotis elevado e os cobogós. “Sempre digo que, principalmente, pela idade do prédio e pela localização, em frente ao Eixo, temos responsabilidade urbanística com o DF”, reforça.

De acordo com Sérgio, anualmente, os moradores discutem em assembleia quais melhorias serão executadas para manter o padrão do bloco. “As manutenções anuais são feitas com a preocupação de manter o prédio atualizado, limpo, agradável de morar, sem perder as características originais”, diz. Sérgio explica que, frequentemente, são contratados profissionais de arquitetura e engenharia de Brasília para auxílio técnico. “O resultado tem agradado muito aos moradores”, diz. O esforço e comprometimento rendeu bons resultados. “Recebemos a notícia com muita alegria. Muitas mensagens de felicitações pelo reconhecimento do CAU/DF com o nosso esforço. Nos sentimos mais motivados no trabalho contínuo de manutenção do prédio, que na verdade não acaba nunca”, afirma.

*Estagiária sob a supervisão de Adson Boaventura

  • Síndico do bloco C, da SQS 210, Fernando Pavie comemora o 1º lugar
    Síndico do bloco C, da SQS 210, Fernando Pavie comemora o 1º lugar Foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press
  • Prédios
    Prédios Foto: Joana França/Divulgação - Joana França/Divulgação - Joana França/Divulgação - Victor Machado/Divulgação - Victor Machado/Divulgação - Victor Machado/Divulgação - Marina Lira/Divulgação - Joana França/Divulgação
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