Crônica da Cidade

O impacto de Clarice

Severino Francisco
postado em 09/12/2020 22:56

Entrevistei a professora carioca Teresa Montero, autora de Eu sou uma pergunta — Uma biografia de Clarice Lispector (Ed. Rocco) e O Rio de Janeiro de Clarice — Passeio afetivo pela cidade (Ed. Autêntica), que organizou várias antologias e concebeu inúmeros outros projetos inspirados na escritora ucraniana-pernambucana-carioca. Fiquei impressionado com a conexão que Teresa estabeleceu com Brasília. E tudo graças à leitura dos textos de Clarice.

Teresa tinha 15 anos quando leu o primeiro livro da autora de A paixão segundo G.H. Era o conto Laços de família. A vida dela nunca mais seria a mesma. Clarice se tornou um destino para Teresa: “Se Clarice abriu meu caminho, ela pode abrir os caminhos de qualquer um”.

Teresa desenvolve no Rio de Janeiro o projeto de turismo cultural O Rio de Clarice — Passeio Afetivo pela cidade. Faz questão de enfatizar que considera um projeto de cidadania. Clarice a ensinou a amar o Rio de Janeiro. E a Brasília também. Clarice visitou Brasília três vezes. E, em todas, ficou impressionada com a cidade, a reconheceu no sonho mais fundo.

Na primeira, em 1962, acompanhou a cidade nascente, pouco habitada, desértica, varrida por nuvens de poeira. Vaticina que uma nova civilização ainda ocupará a cidade. Em 1974, ela volta e escreve o texto Brasília — Visão do esplendor. Em 1976, ele retorna para receber o Prêmio Brasília, concedido pela Fundação Cultural.

Os textos sobre Brasília são cifrados e enigmáticos. Clarice não usava nenhuma droga, mas dizia que era lisérgica pela própria natureza. No entanto, Teresa esclarece que as metáforas intrigantes eram um recurso para falar da atmosfera opressiva do regime militar: “Brasília nua me deixa beatificada. E doida. Em Brasília tenho que pensar entre parênteses. Me prendem por viver? É isso mesmo”.

Clarice foi até a Catedral Metropolitana de Brasília para agradecer o prêmio recebido e ficou impressionada com a beleza do prédio-escultura de Niemeyer: “A catedral pede a Deus. São duas mãos abertas para receber.” Também ficou extasiada com a música azul dos vitrais do Santuário Dom Bosco: “Meu Deus, mas que riqueza. Os vitrais tem luz de música de órgão. Essa igreja tão assim iluminada é, no entanto, acolhedora. O único defeito é o inusitado lustre redondo que parece coisa de novo rico. A igreja ficaria pura sem o lustre. Mas que é que se há de fazer? Ir de noite, bem no escuro, roubá-lo?”

Teresa reconhece que o olhar de Clarice interferiu na visão sobre Brasília: “Nós que somos de fora só conhecemos o que sai no Jornal Nacional, que é o Congresso Nacional. Mas o olhar de Clarice aguçou a minha curiosidade e me fez amar Brasília”.

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