Crônica da Cidade

Evocação de Nelson

Severino Francisco
postado em 22/12/2020 22:13

Este 21 de dezembro de 2020 marcou a passagem dos 40 anos da morte de Nelson Rodrigues, nosso mestre da crônica e do teatro, nosso profeta do óbvio. Durante a era de ouro do futebol brasileiro, ele dizia que era preciso um Shakespeare para narrar a saga. No entanto, o próprio Nelson foi o nosso Shakesperare de chuteiras, primeiro a sagrar a majestade de Pelé e a eternizar os dribles de Garrincha, em que só faltava Chopin como fundo musical.

A última crônica que escreveu não poderia ser mais dramática, épica e comovente. Nelson estava muito doente, debilitado desde os anos 1930, quando sobreviveu a uma tuberculose. Naquele tempo não havia vacina. A doença no pulmão se irradiou pelo corpo e fragilizou, especialmente, o coração.

Estávamos no início de dezembro de 1980. Disputavam a final do campeonato carioca o Vasco da Gama e o Fluminense, time do coração de Nelson há 60 mil anos antes do paraíso. O médico e amigo do cronista, doutor Stand Murad, recomendou expressamente evitar qualquer emoção mais forte.

Nelsinho Filho proibiu que o pai ligasse o radinho de pilha e prometeu relatar todos os lances com detalhes. Ambos estavam com 200 megavolts de tensão. E se o Vasco fizesse um gol? E se o gol fosse do Flu? E se o Flu empatasse e virasse o jogo? E se o Vasco revertesse o resultado? Não importava, qualquer placar era perigoso.

Nelsinho tremia de emoção, mas desconversava: “O Flu está bem”. A partida virou 0x0. E logo no início do segundo tempo, o zagueiro Edinho cobrou uma falta e fez o gol que daria o título ao Fluminense. Nelsinho chorou lágrimas de esguicho, mas segurou a notícia. E se o Vasco virasse? Ufa, finalmente, o drama acabou. Contudo, havia ainda o mais difícil: como contar a Nelson sem desencadear uma violenta emoção.

Com habilidade, Nelsinho declarou de maneira contida: o Fluminense era campeão. Nelson não tinha forças, mas arrancou um grito: “Preciso escrever”. Não conseguia ordenar as palavras. Resolveu ditar para Nelsinho a última crônica: “Amigos, em futebol, nunca houve uma vitória improvisada. Tem sido assim através dos tempos. Tudo começou há 6 mil anos. Vocês compreenderam?”.

E, notem, Nelson não havia acompanhado o jogo sequer pelo rádio. A crônica foi publicada em 2 de dezembro e, 18 dias depois, em 21 de dezembro, Nelson morreria: “A maior dignidade da morte é física. Nunca o homem é tão belo como quando está morto”, escreveu Nelson. “´Porque então tem assegurada a eternidade. É na morte que o homem tem o seu rosto verdadeiro. Na vida, usamos máscaras sucessivas e contraditórias. Só a morte revela a nossa verdadeira face”.

Em uma entrevista a Otto Lara Resende, ao ser perguntado sobre quais seriam as suas últimas palavras no leito de morte, Nelson respondeu: “O Marx é uma besta. Que boa besta é o Marx!”. Nelson ficava indignado com o fato de o filósofo alemão nunca ter escrito nenhuma linha sobre o tema essencial.

Mas Nelson partiu feliz, no êxtase do campeonato levantado pelo Fluminense: “A morte é um grande despertar”, intuiu o nosso profeta do óbvio.

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