Crônica da Cidade

Severino Francisco
postado em 30/12/2020 22:52

Futebol pela vida

Tornei-me corinthiano por causa do craque Roberto Rivellino, revelado nos times da base do Coringão e apelidado de Reizinho do Parque. Eu tinha acabado de me mudar de Brasília para São Paulo, aos 12 anos, pois meu pai era pastor presbiteriano e fora designado para dirigir uma igreja no bairro Jabaquara.

Durante mais de 10 anos, o Corinthians não ganhou nenhum título. No entanto, misteriosamente, a torcida não parou de crescer. A situação de seca das taças era tão grave que nas mercearias, os donos afixavam tabuletas com os seguintes dizeres: “Fiado, só quando o Corinthians for campeão”.

Mas a nossa fé, capaz de mover montanhas de adversidades, virou o jogo, no final da década de 1970, com a geração da democracia corinthiana de Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon. Dava gosto torcer para o Corinthians. Como disse o Casagrande: “A gente tinha de ganhar pelo Corinthians e pela democracia”.

Ganhamos tantos títulos que os pragmáticos donos das mercearias e dos botecos tiveram de mudar, desesperadamente, a frase das tabuletas para: “Fiado, só quando o Corinthians não for campeão”. Era uma dupla alegria: torcer para o Timão e para a democracia. Porque os jogadores tomavam partido em relação às grandes questões do país. O futebol não era mais o ópio do povo; o futebol era a consciência do povo. E notem que Sócrates e Casagrande nunca foram politicamente corretos.

Casão continua mandando bronca, agora como comentarista. No entanto, enquanto as estrelas da NBA se mobilizam contra o racismo ou para defender a democracia nos Estados Unidos, a maioria dos jogadores de futebol e de vólei no Brasil mergulhou em uma alienação monstruosa. Uma das poucas exceções é Richarlison, centro-avante da Seleção Brasileira.

No mais, eles só se manifestam nas redes sociais para exibir o relógio de ouro ou para apoiar líderes tolos ou causas estúpidas. Não peço engajamento partidário. Mas não é possível que ídolos com capacidade de influenciar milhares de pessoas permaneçam omissos ante questões tão urgentes quanto a ameaça à democracia, o respeito à vida, o negacionismo das vacinas, o racismo, a apologia das armas, a devastação das florestas e o desinvestimento na educação.

Como disse Glauber Rocha, parece que os jogadores brasileiros têm uma bola de capotão número 5 em lugar da cabeça: se der um furo, só sai ar. Durante a pandemia, a maioria se portou novamente mal. Neymar está promovendo uma coronafest para 500 pessoas, durante uma semana, chamada pela imprensa internacional de “festa macabra”. Olha, cada vez mais, cresce em mim a convicção de que aquele 7 x 1 que o Brasil tomou da Alemanha foi um castigo divino. E, cá para nós, muito merecido.

Enquanto o Flamengo entrou na onda negacionista, o São Paulo é um dos poucos clubes que assumiu uma postura de defender a vida durante a pandemia. Graças a Raí, irmão do doutor Sócrates e dirigente do São Paulo. Resultado: o Flamengo teve muitos casos da covid-19 e se desestruturou. Já o São Paulo sofreu pouco com a doença, está jogando bem e subiu para o topo da tabela.

Bem sei que a justiça do futebol é misteriosa e escrita por linhas tortas. De qualquer maneira, já que o Corinthians está fora da disputa do título do Brasileirão, peço licença para torcer pelo São Paulo. Seria bonito se ele levantasse a taça, seria uma vitória de quem defende a vida.

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