Crônica da Cidade

Uma foto do Athos

Fui até a lojinha da Fundação Athos Bulcão, na 404 Sul, para pegar o calendário de 2021. Vários amigos me dizem que, com as engenhocas virtuais, esse marcador do tempo se tornou arcaico, basta dar um clique no celular. Mas, de minha parte, não consigo me orientar sem o calendário do Athos. Gosto de marcar os compromissos, as datas de consulta ou os acontecimentos. Sem isso, fico perdido no tempo.
Pois bem, logo ao chegar na lojinha me deparei com o painel de uma foto clássica do Athos, tirada por Mila Petrillo. Conheço a imagem há muito tempo, mas ela sempre me comove. A composição é muito feliz. Em vez de colocar o artista, à frente, e a Igrejinha da 307 Sul, ao fundo, Mila pediu que Athos ficasse em um vão de madeira branca, ao centro, entre as pombas que representam o Espírito Santo no painel azul e branco. Então, a impressão não é a de que o mural é um cenário, mas, sim, a de que Athos emerge de dentro da sua obra.
Se o artista integra arte e arquitetura, Mila integra Athos à sua obra com intenso efeito lírico. Mas, além da composição primorosa, impregnada de sugestões poéticas, um outro aspecto chama a atenção: a postura do Athos. Ele sempre foi um integrante da raça dos tímidos, um habitante do silêncio, que ficava em casa à espera que alguma coisa boa lhe caísse na cabeça como um raio.
Se divertia ao contar a história da tentativa frustrada de ser ator na companhia Os comediantes, no Rio de Janeiro: “Você está com uma cara de pedra. Procure dar uma expressão humana”, lhe dizia o diretor Adauto Botelho. Athos não falava; sussurrava de tanta timidez, uma timidez que chegava a lhe travar o corpo. Felizmente, sempre foi salvo pelos amigos.
Mila é uma mestra da fugacidade. Ela adestrou o olhar ao assistir os filmes dos grandes mestres do cinema. Mira o enquadramento e o movimento. Fica de tocaia com a máquina na mão e o olho atento à espera de captar a luz precisa que lhe permitirá registrar o átimo fugidio do instante. A beleza que Mila cultiva não é a bonitinha, mas ordinária. Ela exercita a beleza bruta germinada pela arte, que nasce de cada ser ou personagem.
Athos fez uma pose de cruzar os braços que é, na verdade, uma antipose. No entanto, em vez de ignorar, Mila teve a sensibilidade de capturar a cena. É uma imagem pungente, reveladora da alma de Athos. Parece um plano de filme do neorrealismo italiano ou um poema de Manuel Bandeira, pela simplicidade, o despojamento e o lirismo extremos.
Enquadrado pela parede branca, ladeado pelo painel das pombas do Espírito Santo, com os braços cruzados desajeitadamente, Athos aparece na foto como um personagem gauche, um pierrô contido e um anjo torno do modernismo. É desconcertante que esse tímido, que esse habitante do silêncio, tenha sido um dos mais importantes artistas públicos brasileiros.
Que sorte a de Athos e a nossa de termos alguém com o talento e os radares de sensibilidade poderosos de Mila Petrillo para eternizar esse instante em uma foto.