Coronavírus

Quando a pandemia passar... Brasilienses contam o que mais desejam em 2021

A covid-19 obrigou moradores da capital a mudarem as metas. Com a virada do ano e a vacinação no horizonte, brasilienses começam a fazer planos e a correr atrás dos sonhos em 2021

Darcianne Diogo
Jéssica Moura
postado em 01/01/2021 06:00
Lidiane e família, na Esplanada dos Ministérios no último da do ano: desejo de saúde para todos -  (crédito: MINERVINO JUNIOR                    )
Lidiane e família, na Esplanada dos Ministérios no último da do ano: desejo de saúde para todos - (crédito: MINERVINO JUNIOR )

Começa um novo ano e raras vezes o espírito de renovação que esta época emana teve significado tão profundo para toda a humanidade. A virada para 2021 é mais uma oportunidade de planejar metas e objetivos que nos últimos dez meses de uma longa crise sanitária mudaram para muitos. Agora, a lista de desejos é bem diferente daquela planejada no ano que passou. Além de planos mais ambiciosos, como formar-se em uma carreira de destaque, os sonhos dos brasilienses incluem a campanha de vacinação contra a covid-19, voltar a abraçar os familiares, ir à escola, passar férias na praia e festejar conquistas com a casa cheia.

Os publicitários Sandra Araújo, 41 anos, e Rogério Santana, 51, vieram de Osasco (SP) para passar a virada do ano na capital da República e, em clima de festa, se dizem esperançosos quanto à chegada de 2021. “Esse período de pandemia foi muito difícil para todos nós. Somos autônomos e sofremos com a queda das vendas. Tivemos que nos desdobrar e diminuir as despesas para conseguir lidar com a situação. Almejamos melhor qualidade de vida, que as coisas voltem ao normal e que as empresas comecem a gerar emprego para quem sofreu nesse tempo”, conta Rogério.

Os dois estão casados há um ano e escolheram Brasília para passar a virada pois Sandra morou na capital por mais de 10 anos. Em 2018, mudou-se para São Paulo, período em que começou a namorar com Rogério. “Aqui é um lugar lindo, bem organizado e planejado. Nada melhor que comemorar essa virada no DF”, diz ela.

A dona de casa Lidiane Monteiro, 30, e as irmãs de consideração Fernanda Ribeiro, 14, e Letícia Souza, 15, decidiram, no último dia do ano, visitar a Esplanada dos Ministérios e deixar registrado, por meio de fotos, o sentimento para o próximo ano: saúde. “Queremos que as coisas melhorem e que toda essa turbulência passe. Foi um tempo de muita dor e sofrimento”, desabafa Lidiane.

Para a estudante Fernanda, a volta às aulas presenciais é a expectativa para 2021. “Quero muito poder voltar à escola. Foi o que dificultou mais para mim. Nas aulas on-line, perdemos muito tempo e não aprendemos com tanta qualidade. Pretendo rever meus amigos”, relata.

O sonho de ser neurocirurgiã

 (crédito: Jessica Moura/CB/D.A.Press)
crédito: Jessica Moura/CB/D.A.Press

A emergência da pandemia do novo coronavírus alterou os planos da estudante Samantha Santos Melo, 21 anos. “Desde o ano passado, tinha planejado viajar para o Rio Grande do Sul, já pesquisei muito sobre e tenho amigos que moram.” A tão sonhada viagem ficou para 2021, ainda sem data marcada. Samantha, que é asmática, tem evitado os deslocamentos.

Por isso, ela diz que também não vê a hora de ser vacinada para retomar o contato com os amigos e parentes. “Quero voltar a visitar meus avós e meus tios, que só a videochamada não é a mesma coisa. Sinto falta daquele contato mais próximo”, afirma. Enquanto isso, ela se dedica a outro sonho: cursar medicina. Mas mesmo os estudos tiveram de ser adaptados. A estudante tenta manter uma rotina regrada. De segunda a sábado, acorda cedo, pega carona com a tia, enfrenta mais de uma hora de viagem partindo de Águas Lindas para se instalar em uma esquina de Águas Claras. Ali, tem quatro horas para vender cerca de 40 marmitas.

Entre um cliente e outro, Samantha entrega as refeições, que acompanham um suco, calcula o troco e higieniza as mãos com álcool em gel a cada transação. Quando o movimento está mais calmo, saca o caderno e o celular da mochila e os apoia sobre o isopor, cronometrando os minutos de estudo. Nesses intervalos, debruça-se sobre contas mais complexas. Costuma estudar matemática e física, além de acompanhar as aulas do cursinho preparatório do vestibular a distância, mas nem sempre o pacote de dados da internet móvel é suficiente. “Não sinto tanto o resultado como quando era no presencial”, reclama.

A jovem quer ser neurocirurgiã, mas sabe dos obstáculos para alcançar o objetivo. “Eu queria muito a USP (Universidade de São Paulo), a melhor do Brasil. Mas como vou me sustentar lá? Não é muito viável para mim”, reflete. Este ano, tentará uma vaga na Universidade de Brasília (UnB) ou na Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs). Enquanto isso, com os R$ 400 que consegue juntar por mês, ajuda a pagar as contas da casa que divide com outros três irmãos, a sobrinha e a mãe.

Samantha não teme ser contagiada pelo coronavírus, mas restringiu as idas à igreja, à casa da avó, em Vicente Pires, e os encontros com os amigos. É o que mais sente falta. “Hojé é só trabalho e casa”. Se a vacinação e o fim das restrições à aglomerações ainda estão em um futuro incerto, Samantha está em contagem regressiva para outro evento, este com data certa: prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em janeiro.

Férias na praia em 2021

 (crédito: Jessica Moura/CB/D.A.Press)
crédito: Jessica Moura/CB/D.A.Press

Miraci Moraes, 40 anos, também teve de atrasar os planos de ingressar na carreira de saúde por causa da pandemia. Ela se formou no curso de técnica de enfermagem em 2019, queria mudar de vida. “Já trabalhei de operadora de caixa, atendente, balconista”, elenca. Ao longo de dois anos, frequentava as aulas à noite, depois do expediente. Mas, diante das restrições, continuou com o emprego de babá.

“A carteirinha, não pude tirar, era uma oportunidade de ingressar na área, porque tem muita vaga”, relata. “Para mim, foi um pouco frustrante, porque praticamente perdi um ano devido a isso”, diz Miraci. Agora, a esperança é começar a trabalhar na enfermagem em 2021.

Moradora de Ceilândia, ela reclama que, nos últimos meses, os ônibus estão bem mais cheios, sendo impossível manter o distanciamento, apesar de sair mais cedo do trabalho para evitar o coletivo lotado. “Na volta para casa, aumentou muito o número de pessoas, fica muito próximo, não podem faltar máscara e álcool em gel dentro da bolsa”, conta Miraci.

Além disso, a rotina ficou mais cansativa, pois os dois filhos adolescentes tiveram as aulas presenciais suspensas. “Eles não fazem nenhuma atividade fora, apenas em casa, alterou tudo, a rotina de acordar e de dormir.” Ela conta que sem a escola é mais difícil fazer com que tenham disciplina para acordar cedo e estudar, o que a sobrecarrega durante a noite. “Vai ser um alívio quando tudo isso mudar”, diz.

Miraci também gostaria de retomar as próprias atividades fora de casa, como as caminhadas no Centro Olímpico de Ceilândia e as compras em shoppings e feiras. “Voltar a fazer atividades normais, passear, ir aos lugares que ficam as pessoas aglomeradas, sem perigo, ter as festas de fim de ano”, enumera. Passeios em Caldas Novas (GO) e nas praias de Porto Seguro (BA) estão no topo da lista de desejos para este ano. “Mas quando voltar ao normal, quero ir para uma (praia) menos movimentada, tem que ir devagarinho, aos poucos”, pondera.

Recuperar o tempo perdido

 (crédito: Jessica Moura/CB/D.A.Press)
crédito: Jessica Moura/CB/D.A.Press

“Falam que o nono é o melhor. Eu já perdi o melhor ano, então vou aproveitar nos próximos”, planeja Diego Sampaio, 15 anos. A pandemia chegou justamente quando ele cursava o 9º ano do ensino fundamental. Com a suspensão das aulas presenciais, o rapaz passou a acompanhar as atividades a distância. “Esse eu considero quase que um ano perdido. Consegui entender a matéria, mas não foi a mesma coisa como se tivesse na sala de aula.”

Ele conta que o vai e vem de decretos e decisões judiciais que culminaram com a definição de que as aulas só voltariam em 2021, causaram grande preocupação. “Deixava a gente ansioso, e no fim era meio frustrante, porque não voltava. A gente ficava naquela falsa esperança de poder reencontrar os amigos”, relata.

Além disso, Diego costuma passar muito tempo sozinho, já que a mãe retornou ao trabalho presencial. Ele não gosta de se relacionar pelas redes sociais, por isso, sente a distância dos amigos. “Nunca pensei que ia falar isso, mas realmente senti falta da escola, e até de pegar metrô lotado, andar pela rua”, enumera.

Ele não tem esperanças de ser vacinado em breve, mas, uma vez que os familiares sejam imunizados, já pretende fazer algumas concessões. “Saber que as coisas vão voltar ao normal, isso me animou, saber que vai ter aquele contato de novo com os amigos, foi uma luzinha no fim do túnel”, observa. E já se planeja para o fim da pandemia: “O que mais vou ter vontade de fazer é voltar a ter aquela rotina normal que eu tinha: não ter medo de pegar o metrô, de entrar no ônibus, de beijar alguém, não precisar mais usar máscara ou passar álcool em gel nas mãos a toda hora”.

Pandemia no DF

Antes de a situação se normalizar, o DF ainda deve enfrentar períodos críticos de enfrentamento da covid-19. A Secretaria de Saúde se prepara para uma segunda onda da doença e, por isso, lançou um plano de mobilização de leitos que aumentará em 230 o número de vagas em unidades de terapia intensiva (UTIs) destinadas ao tratamento desses pacientes. No fim de 2020, a ocupação dos leitos chegou à casa dos 70%.

A capital federal ultrapassou as 251 mil infecções em dezembro de 2020 e, sem uma campanha de vacinação em curso e recrudescimento dos contágios, o grupo de pesquisadores que integra o observatório PrEpidemia, da Universidade de Brasília (UnB), recomenda “a intensificação da vigilância epidemiológica, pelo governo, e da atenção às medidas de controle, por parte da população, a fim de se evitar aumento de casos”. O Governo do Distrito Federal divulgou o plano distrital de vacinação, que vai priorizar os idosos acima de 75 anos e profissionais de saúde e aguardará a definição das vacinas adquiridas pelo governo federal.

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