Crônica da Cidade

Severino Francisco
postado em 05/01/2021 21:50

Presente de Maria

Estava pensando em Maria Duarte, que nos deixou na última semana, quando lembrei de uma história. Quando eu preparava um livro-catálogo sobre o Memorial dos Povos Indígenas, eu a procurei para obter informações, já que a doação do acervo de artefatos indígenas de Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro, cobiçado por vários museus do mundo, foi negociado por Maria no tempo em que ela ocupou o cargo de secretária de Cultura do DF, durante o governo de Cristovam Buarque.

Um dos traços distintivos de Maria era a generosidade. Ela me brindou com um presente precioso: uma entrevista inédita de Darcy Ribeiro, sobre o Memorial dos Povos Indígenas, concedida a ela em 16 de fevereiro de 1995, enquanto se recuperava de uma pneumonia no Hospital Sarah, em Brasília.

Talvez seja importante evocar essa fala no momento em que os índios são tão oprimidos pela ignorância reinante. Como bem diz a antropóloga Maria Manuela Carneiro: “Hoje se sabe que as sociedades indígenas são parte de nosso futuro e não apenas do nosso passado”.

Na verdade, o Memorial foi idealizado pelo próprio Darcy. No projeto arquitetônico, Oscar Niemeyer buscou inspiração na taba dos índios Yanomani e desenhou um prédio de forma circular, uma espécie de maloca moderna. O projeto teve apoio do então governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira. No entanto, ao se deparar com o esplendor da obra construída, Aparecido resolveu dar uma outra destinação ao prédio: Museu de Arte Moderna de Brasília.

Mas, insolitamente, todas as tentativas de surrupiar o monumento dos índios fracassaram. A ocupação do prédio só ocorreu depois que o pajé Sapaim foi convocado para mandar embora Mamaé Catuité, o espírito mau convocado para vigiar o espaço que os brancos queriam roubar dos índios.

Ao ser indagado sobre a importância do Memorial, Darcy argumenta na entrevista: “Ver o que é mais original para o Brasil, que é a criatividade indígena. Na entrada, haverá uma maloca autêntica, e lá o melhor dos artefatos que existem em todos os museus brasileiros. Atrás dos olhos, uma imagem do mundo indígena. Uma imagem sem preconceito, uma imagem mostrando a beleza dos índios. Quantas plantas eles domesticaram e nos deram? O esforço dos índios para querer uma civilização tropical, que é a base de nossa civilização”.

Na conversa, Darcy comenta a intenção de transformar o Memorial dos Povos Indígenas em Museu de Arte Moderna. Os turistas chegam para visitar o Memorial JK e, a 100 metros ao lado, se deparam com o Memorial dos Povos Indígenas: “O mesmo visitante, um estrangeiro, não veria sentido em conhecer um museu de artes, porque lá fora eles têm museus de artes muito melhores. Se em vez de Memorial dos Povos Indígenas o espaço fosse transformado em museu de arte, seria um museu de artes bem vagabundo”.

Em vez disso, esse turista estrangeiro teria todo o interesse em ver os povos brasileiros originais. Chega a Brasília e vê uma babel de povos, mil línguas diferentes eles falavam. Darcy imaginava uma parede com 40 plantas domesticadas pelos índios: milho, mandioca, feijões, aipim selvagem, entre outras: “Batata, chamada inglesa, é indígena. É importante educar esse pessoal para perceberem que estão diante de uma civilização original.”

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