ENTREVISTA

DF tem a menor taxa de homicídios desde 1980, diz secretário de Segurança

Ao CB.Poder, Anderson Torres apresentou o balanço dos casos de violência na capital em 2020. Tiveram baixa os números de feminicídios e os de crimes contra o patrimônio. No entanto, golpes pela internet aumentaram durante a pandemia

Caroline Cintra
postado em 12/01/2021 06:00
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A.Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A.Press)

Em 2020, o Distrito Federal teve a menor taxa de homicídio em 41 anos, desde o início da série histórica, em 1980. O dado foi apresentado pelo secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres, ao jornalista Alexandre de Paula em entrevista ao CB.Poder, uma parceria do Correio Braziliense e a TV Brasília, ontem. A capital registrou queda em outros índices. Os crimes contra o patrimônio diminuíram 30%, e o feminicídio caiu quase 50%. Para o chefe da pasta, diversos fatores contribuíram para as baixas, a principal delas é a integração entre as forças de segurança.

Embora os números sejam positivos para a população, Anderson destacou que há um deficit grande de policiais no DF, principalmente, entre os civis. Para reforçar a equipe, o intuito da Secretaria de Segurança Pública (SSP) é retomar o processo do concurso para escrivães e agentes em maio, mês em que o secretário espera haver vacina e número suficiente de imunes à covid-19. As provas estavam marcadas para o ano passado, no entanto, devido a pandemia, estão suspensas e sem nova data.

Quais são os principais destaques do balanço de 2020?

Os crimes contra o patrimônio diminuíram, aproximadamente, 30%; o furto ou assalto diminuiu 30%; e tivemos uma grande redução em um crime que tem chamado muito a atenção da sociedade, que é o feminicídio, o qual teve queda de 50%, em relação a 2019, que já havia sido um ano de recordes, de diminuição dos números dos crimes. Então, 2020 acabou sendo um ano de muito trabalho e dedicação para nós, da Segurança Pública, e os resultados, graças a Deus vieram.

Quais os principais fatores que contribuíram para essa mudança?

Acho que é o trabalho sério, feito com metas, análise de resultados e reorganização, praticamente, semanal da nossa atuação. Ressalto, como fundamental, a integração das forças de segurança. Isso tem sido um avanço muito grande para nós.

A queda de homicídios é um dado muito expressivo, não é?

Buscamos nos arquivos e começamos a divulgar uns números mais corretos e confiáveis a partir de 1980. De lá para cá, fizemos a menor taxa de homicídio de todos esses anos. Isso são muitas vidas salvas. Esse é o crime mãe, que toma nosso principal bem, que é nossa vida, e conseguimos baixar isso. É um paradoxo que vivemos hoje. A população aumentando, o efetivo da polícia diminuindo, e os crimes também diminuindo. Temos conseguido fazer mais com muito menos.

Caiu quanto de 2019 para 2020?

Em 2019, batemos o recorde dos últimos 35 anos. Agora, foi 41 anos. Estamos com uma média de 11,4 homicídios para cada 100 mil habitantes. Essa média é extremamente baixa e supera, inclusive, nossas metas para 2022. Quando assumimos, tínhamos metas para os quatro anos do primeiro mandato do governador Ibaneis Rocha (MDB), e conseguimos superar com folga.

O início de ano é muito movimentado. Existe alguma explicação para que aconteça esse tipo de coisa? Existe uma preocupação maior nesse período?

Existe. Começa no Natal. Ao fim do ano, os crimes contra o patrimônio aumentam, há muito dinheiro circulando pela cidade o comércio aberto mais tempo. Apesar dos sete homicídios no final de semana, temos três a menos do que no ano passado, no mesmo período. Continuamos no caminho de baixar a criminalidade. Todos os homicídios e feminicídios são estudados. Analisamos as causas. Garanto que as maiores causas de homicídio no DF são problemas entre as gangues — 78% dos assassinos têm ficha criminal. Óbvio que toda vida é importante. Temos procurado manter isso em níveis extremamente aceitáveis no DF.

Houve um crime de feminicídio na última semana. O que falta para diminuirmos isso mais ainda?

Acho que é uma questão cultural. A Segurança Pública, geralmente, chega, infelizmente, para buscar o corpo. Há um medo de denunciar, chamo até de conivência das pessoas que sabem que está acontecendo uma violência contra a mulher. O feminicídio não é um crime que nasce maduro, ele vem amadurecendo. É um tapa, uma surra, um cárcere privado. Ele vai acontecendo até o desfecho final, que é o feminicídio. Ao longo desses intercrimes, precisamos de informação. A sociedade brasileira precisa entender que isso não é normal. Ou isso muda, ou a gente não consegue diminuir essa barbaridade.

A pandemia influenciou no número de crimes?

Não temos um estudo que diga se diminuiu ou se aumentou. Acho difícil criminosos respeitarem alguma coisa, quem dirá uma pandemia. Acho que houve uma readaptação do crime: outras modalidades, outros meios de criminalidade. Ressalto o trabalho das forças de segurança. É um momento difícil para a humanidade. As polícias Militar, Civil, o Corpo de Bombeiros, o Detran, ninguém parou. Pelo contrário, no auge da pandemia, nosso trabalho estava dobrado. Infelizmente, perdemos algumas pessoas da Segurança Pública em razão da covid-19, mas, em momento algum, as instituições falharam com a população.

O que dá para prever para 2021?

Agora, depois da eleição municipal, saiu um dado dizendo que temos 1,8 milhão de pessoas no Entorno, somados com os 3 milhões do DF, temos quase 5 milhões de pessoas envolvidas nisso. O crime do Entorno funciona muito em razão do DF. Estamos com uma parceria com o Estado de Goiás, firmando um convênio para aumentar uma série de trabalhos conjunto nessa região.

Quais os principais gargalos da Segurança no DF?

São, praticamente, os da segurança nacional. A sociedade como um todo precisa olhar com mais atenção para a Segurança Pública. Se não houver uma mudança nacional, as coisas não mudam. Hoje, é tudo muito rápido, as pessoas se comunicam muito rápido e os criminosos são da mesma forma. Vejo umas questões basilares que precisam ser resolvidas. Primeiro, o sistema carcerário. O que fazer com nossos presos, como ressocializar essas pessoas? Temos meio milhão de pessoas encarceradas no país e não temos uma política de ressocialização. E, aí vêm os outros problemas, como o crime organizado, que, a duras penas, temos mantido fora do DF. O Entorno é outro gargalo. Vejo esses como nossos principais desafios.

Tem alguma coisa prevista sobre os concursos públicos?

O concurso da Polícia Civil foi suspenso em razão da pandemia, e estamos aguardando o melhor momento para que seja realizado. A Polícia Civil tem um deficit muito grande de policiais, isso impacta no nosso trabalho. Temos um concurso do Corpo de Bombeiro e um da Polícia Militar em andamento. Desde o início da nossa gestão, nomeamos mais de 3 mil policiais. Temos feito o possível, dentro de uma realidade de pandemia e crise financeira no Distrito Federal. Há um compromisso do governador em nomear todos eles, mas atendendo aos critérios da pandemia. Já era para estar bem adiantado.

E o concurso da Polícia Civil, que estava prestes a ser feito, dá para se ter uma ideia de quando vai ser seguro?

Acho que estamos próximos de uma vacina. Mas uma segurança, só a partir de maio. Estava lendo especialistas da saúde falando que não é porque está vacinando todo mundo que, imediatamente, vamos ter imunização. No mínimo, no mês de maio. Todos esses fatores serão analisados. O maior interessado sou eu em colocar mais policiais nas ruas.

Como está sendo o olhar para os crimes cibernéticos?

Estamos nos adaptando. Temos uma delegacia de repressão aos crimes cibernéticos aqui, no DF, que tem funcionado muito bem. Percebo que é muito rápida a apuração dos crimes. Um crime que incomoda, que é o furto e o roubo de celular, a Polícia Civil tem conseguido recuperar e entregar para os proprietários esses objetos e é uma vitória. Temos feito um trabalho muito forte. Esse crime, realmente, aumentou. Na pandemia, cresceu muito a oportunidade que eles têm de cometer esse tipo de crime, mas estamos muito atentos.

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