Entrevista Joana D’arc, médica infectologista do Hran

"Vacina é o maior bem público que temos", diz infectologista do Hran

Ao CB.Saúde, a médica do Hospital Regional da Asa Norte Joana D’arc fala sobre a eficácia dos testes de imunização, o riscos de transmissão que a aplicação presencial da prova do Enem provoca e afirma que a pandemia não termina este ano

Caroline Cintra
postado em 15/01/2021 06:00
 (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A eficácia das vacinas contra o novo coronavírus tem sido discutida em todo o país. Esta semana, a CoronaVac — imunizante produzido pelo Instituto Butantan —, apresentou proteção de 50,38%. A taxa gerou debate entre os brasileiros. Em entrevista ao CB.Saúde, uma parceria do Correio Braziliense e a TV Brasília, ontem, a infectologista do Hospital Regional da Asa Norte (Hran) e professora do Ceub Joana D’arc Gonçalves afirmou à jornalista Carmen Souza que o resultado é “um êxito enorme”.

De acordo com a especialista, o anúncio de vacinas produzidas em outros países, com eficácia de 95%, pode fazer 50% parecerem pouco, mas ela explica que foram usadas tecnologias novas “que não temos acesso, por questões estruturais, logística e compra”. Embora os sinais da vacina estejam mais próximos, o Distrito Federal ainda apresenta números altos da covid-19. Enquanto a imunização não ficar disponível, a infectologista ressalta que o isolamento social continua sendo a melhor forma de evitar a transmissão e infecção da doença.

Joana D’arc avalia que o comportamento da população precisa mudar para que haja uma diminuição nos casos da doença. No entanto, uma preocupação é a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 17 e 24 de janeiro. A médica destaca que, apesar de a taxa de letalidade entre os jovens — que são público da prova — ser menor, o risco é grande para quem mora com eles.

O que são os superespalhadores do novo coronavírus?

Temos algumas pessoas que, dependendo do ambiente em que elas estão, das atividades que desenvolvem e da carga viral que receberam, elas vão transmitir mais a doença do que outras. Por exemplo, as pessoas que cantam, que vão a estádios de futebol e gritam, dependendo do ambiente onde estão, fechado, com um número elevado de pessoas, às vezes, uma pessoa é capaz de transmitir a doença para mais de 100. Dependendo do vírus, isso se espalha rapidamente. Temos supertransmissores, também, em doenças como o sarampo.

Ou seja, a pessoa não precisa estar necessariamente tossindo ou espirrando para espalhar o vírus?

Não, de forma alguma. Inclusive, tem relatos de festas em que uma pessoa infectou mais de mil. Agora, com as variações virais, com a capacidade maior de infectividade do vírus, existem pessoas em que isso se torna mais fácil pelo potencial de infectividade viral. Então, o vírus torna-se mais fácil de espalhar, por causa do comportamento da pessoa e pelas características e mutações virais. Por isso, insistimos tanto nas medidas de segurança, no comportamento para tentar conter o número de infectados.

Qual é o padrão da infecção do vírus, aparecimento dos sintomas e até quanto tempo uma pessoa passa o vírus para outra? Conseguimos falar em tempo médio?

Geralmente, quando a pessoa se infecta, é pelas vias respiratórias, da mucosa, ou ela tocou boca, nariz e olho; ou ela teve contato próximo com alguém, e essa gotícula acabou penetrando através da mucosa, via oral. Pode ficar assintomático ou iniciar, depois de alguns dias, com sintomas ou não. O vírus tem um período de replicação na mucosa nasal e, depois, vai para a circulação sanguínea. Nesse período, para ter um teste positivo, você tem dois, três dias para a positivação, até sete dias para identificar o vírus na mucosa. Depois que o vírus penetrou e fez essa circulação, a principal transmissão, se a pessoa não tem sintoma nenhum, ela transmite por até 10 dias, isso o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês) diz. Se a pessoa é sintomática, transmite um pouco mais. Por isso, frisamos o período de isolamento.

A senhora disse que tem casos em que uma pessoa acaba passando o vírus para mais de mil. Existe uma taxa normal esperada?

Existe. É o que a gente chama de R0, R1. As taxas que temos visto no Brasil, com relação à transmissão, em doenças virais, como sarampo, um (infectado) pode passar para 14 (pessoas). No caso do novo coronavírus, isso vai variando, dependendo do número de exposição. Quanto mais expostos, maior será esse R. A ideia é diminuir.

Saiu um estudo da Universidade de Stanford mostrando que o ambiente universitário pode ser considerado um ambiente superespalhador da covid-19. Eles analisaram 30 universidades. Nas primeiras semanas, em metade dessas universidades, foram registrados 10 novos casos para cada grupo de mil pessoas. Na primeira onda, no ano passado, esse número era menos de um. Esses dados nos servem de alerta com relação ao retorno das atividades no ambiente universitário?

Com certeza. Algumas universidades têm um cronograma para esse ano, e até parte do próximo ano, totalmente virtual, porque, na sala de aula, no modelo tradicional que temos, com proximidade entre os estudantes, a questão da ventilação, e as pessoas falando, além da parte respiratória, tem o toque, e nós, brasileiros, somos afetuosos. Nas universidades, com certeza, teremos aglomeração maior. Em alguns países, mais para os adolescentes, tiveram que fixar as carteiras, colocaram parafuso para as crianças e os adolescentes não moverem. A gente tende a aglomerar. Onde tem um número maior de pessoas, a gente tende ao toque. Tudo isso pode ser replicado para o Brasil. Para ter um ambiente seguro, tem que ter sistema de biossegurança. O mundo está se adaptando para retornarmos. Estamos nos reinventando. A pandemia, além de todo esse caos, é um momento de inúmeras oportunidades, tanto científicas quanto de tecnologia.

Considerando que as pessoas que vão prestar a prova do Enem têm um perfil parecido com o universitário, podemos dizer que é um risco a aplicação do exame presencial?

Com certeza. Infelizmente, deveríamos evitar todo comportamento que gera aglomeração. Tem um estudo americano que demonstra uma atividade social entre jovens, que se expuseram, e, depois, contabilizaram mais de mil pessoas em uma reunião, posteriormente, tiveram 20 óbitos e não era ninguém que estava na reunião, era de quem estava por trás dessas pessoas. De certa forma, para o jovem, a letalidade é menor, adoece menos. Mas, quem está em casa depois dessa prova do Enem? Quem esse jovem vai chegar e encontrar? Quem é o vulnerável que estará ali? É um risco enorme.

A vacinação é uma forma de evitar que uma pessoa contamine mil?

É o maior bem público que temos. Por meio da vacina, evitamos catástrofes no mundo. Com vacina, a gente salva, evita deficiências. Vacinação é o nosso sonho de consumo.

A CoronaVac com 50% de proteção é uma boa notícia?

Com certeza. O único problema é que temos um viés. Como anunciaram duas vacinas com tecnologia nova e 95% de eficácia, fez com que as pessoas pensassem que 50% não fossem úteis. A tecnologia delas é nova, não temos acesso, por questões estruturais, logística e compra. Nem todos os países ricos vão utilizar esse tipo de vacina. Quando falamos de 50% de eficácia, estamos falando de um risco relativo de 50% de que você vai ter de chances de não adoecer, 50% de que vai reduzir o risco de infecção de coronavírus. Quando partimos para a questão da gravidade, ela foi eficaz para 100% deste grupo. Todas as vacinas, não só a CoronVac, mas da AstraZeneca, entre outras, não tivemos acesso a todos os dados. Essas vacinas são similares. Alguns dados da AstraZeneca são de 60% de eficácia, parecido com os da CoronaVac. Não posso comparar as populações, porque cada uma delas que foi imunizada tem uma característica diferente. Por exemplo, os testes da CoronaVac foram mais em profissionais de saúde. Em cada população, a análise é diferente, e, com os estudos, eles vão sendo incrementados, e a eficácia vai sendo avaliada à medida que vai se fazendo a imunização. Os 50% são um êxito enorme. Quando falamos de instituições brasileiras sérias, como Fiocruz, Buntantan, se tiver que confiar em uma vacina, claro que vou confiar nessas parcerias, porque é o que temos de referência científica de pessoas sérias.

Nas redes, as pessoas têm comentado “que a vacina foi feita em pouco tempo, como confiar em algo feito em seis meses?”. As pessoas têm que confiar?

Tem. A pandemia serviu, também, para o avanço. Essas novas tecnologias de desenvolvimento de vacina são algo espetacular. Quando você pensa que, por meio da pandemia, descobrimos alguns métodos que vão ser utilizados para inúmeros tratamentos, foi um avanço espetacular.

A pandemia não acaba este ano?

Não. Talvez se torne até uma doença endêmica. Todo esse aprendizado que tivemos com relação à pandemia não é só para este ano, mas para a vida. Nosso comportamento como brasileiro, para se prevenir com relação às transformações no nosso ambiente, porque as mutações ocorrem, os vírus migram, bactérias surgem e, assim, estaremos o tempo todo rodeados de doenças.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE