Crônica da Cidade

Crime sem castigo

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 14/01/2021 22:30

Se estou batucando estas letras agora, é, em grande parte, graças às vacinas que tomei. Algumas vezes, este debate medieval sobre as vacinas me causa calafrios ao imaginar o sofrimento que provocaria nas crianças caso não fossem imunizadas. Minha mãe era enfermeira e tinha um cuidado paranoico com as cadernetas de vacinação.

A desinformação sobre as vacinas é um crime sem castigo, que não pode continuar. É uma tolice que afeta, gravemente, a vida das pessoas. Só acreditarei que as instituições funcionam quando esse delito contra a saúde pública for severamente punido.

Eu gostaria de entrevistar as mães dos governantes e autoridades para saber se eles não tomaram vacinas nos tempos em que eram crianças. Com certeza, muitos não estariam vivos para fazer campanhas negacionistas.

Seria desejável que as grandes corporações virtuais barrassem a campanha negacionista da ciência no Brasil com o mesmo critério que adotaram para bloquear a incitação à violência de Trump nos Estados Unidos.

Afinal, nos EUA, para além do dano simbólico à democracia, morreram cinco pessoas, enquanto, no Brasil, morreram mais de 200 mil, muitas delas vítimas da ofensiva obscurantista anticiência nas redes sociais.

Como se não bastassem todas as perdas, no momento em que chega a vacina, as campanhas negacionistas ameaçam a única alternativa que temos em face da covid-19. Morreram 200 mil e muito mais sucumbirão se toda a população não se vacinar. Enquanto isso, o governador de Goiás, médico e supostamente defensor da ciência, assina decreto em que estabelece a não obrigatoriedade da vacina no estado.

Existe vacina suficiente. Pelo menos para tirar a primeira foto. Se não existe para todos, a culpa é da falta de planejamento e do descaso. Mas, já que isso ocorreu, seria interessante que o governo ao menos não atrapalhasse o processo, desqualificando a vacina CoronaVac, a única que temos até o momento para enfrentar a pandemia.

É saudável que o debate científico sobre a eficácia das vacinas seja democratizado e se torne acessível nos meios de comunicação. Mas o que interessa a nós, cidadãos mortais, é que a CoronaVac protege das formas mais graves da covid e alivia o sistema de saúde, evitando o acúmulo de internações. Ainda bem que temos esse trunfo nas mãos.

Vacinei-me e vacinei meus filhos sem saber qual era o índice de efetividade. Todas as excelências negacionistas também tomaram imunizantes na infância. Que eu saiba, ninguém virou jacaré. E, por falar nisso, qual é o nível de eficácia geral da cloroquina?

 

 

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