Prestes a completar 65 anos de existência, a Churrascaria Paranoá, localizado ao lado da Barragem do Paranoá, ganhou um toque de modernidade. Mas não se deixem enganar, a estrutura de madeira e o espaço simples construídos na década de 1950 continuam os mesmo, assim como as receitas icônicas servidas para os operários que ajudaram na construção da capital e que ganharam prestígio do presidente Juscelino Kubitschek. O que mudou foi o acesso aos pratos, que carregam a história de Brasília. Agora, quem quiser saborear iguarias feitas com tanto esmero pode pedir com um simples comando no celular, pelos aplicativos de delivery.
A mudança para o digital foi necessária diante da pandemia do novo coronavírus. O chef Fábio Martins Santos, 46 anos, que assumiu a gestão do restaurante fundado pelo pai, Gomes Calixto dos Santos, conta que a venda por aplicativo deu muito certo. “Atualmente, a nossa principal fonte de renda é o delivery. Temos espaço para receber os clientes, com o distanciamento das mesas e todos os cuidados de prevenção, mas notamos que as pessoas têm preferido fazer o pedido para entrega”, afirma Fábio. “O cliente não vem a mim, eu vou até ele”, ressalta.
No cardápio, a tradicional carne de cordeiro preparada com vinho ou leite de coco, a galinha caipira criada no próprio terreno, além da rã e do jacaré, que são servidas seguindo a receita da família. Porém, o que tem mais saída e preferência entre os clientes é a picanha, grelhada ou na brasa, servida com ovos caipiras ou acebolada. São cerca de 50 pratos oferecidos pela Churrascaria Paranoá, entre refeições e petiscos. Devido à pandemia, apenas na sexta, sábado e domingo o restaurante atende pedidos nos dois turnos, dia e noite. De segunda a quinta, é servido apenas o almoço.
“Chegamos a entregar cerca de 50 pedidos, em média, em um dia de bom movimento”, destaca o chef. “Se eu soubesse que minhas vendas iam melhorar tanto assim, teria colocado em aplicativo antes”, comenta ele, que deve manter a opção mesmo após a pandemia da covid-19.
Legado
Inaugurada em fevereiro de 1956, a Churrascaria Paranoá funcionava como refeitório para os candangos que encontravam ali, um cantinho para uma boa refeição em meio ao trabalho durante a construção de Brasília. Na cozinha, Gomes Calixto dos Santos preparava receitas que se destacavam pelo sabor. Todo esse zelo foi mantido pelo filho Fábio Santos e pela esposa dele, Luciene Ferreira. Eles fazem questão de preservar o legado criado por Calixto. “Cada prato que eu preparo traz lembrança do meu pai. Cada cliente que saí com um sorriso no rosto, eu sei que eu cumpri o meu dever. É uma satisfação extrema. A gente trabalha de domingo a domingo para entregar o melhor para o cliente, ele é a razão no negócio”, relata Fábio.
E essa dedicação é reconhecida por quem experimenta as iguarias preparadas às margens da Barragem do Lago Paranoá. Na parede, cartas e recados de pessoas que fizeram questão de colocar no papel a experiência vivenciada na churrascaria. Palavras que enchem de emoção Fábio toda vez que as lê. São recados deixados por famosos ou anônimos, que ressaltam o sabor da comida, do atendimento e do espaço que tem na simplicidade um acolhimento de quem entra na própria casa. “É um lugar simples, mas que traz muita história. Brasília começou aqui”, afirma Fábio.
Um dos diferenciais da Churrascaria Paranoá era que ali, todos eram tratados como iguais, do operário ao presidente. “Nada de separação de classe. A mesma comida servida para os trabalhadores era servida ao presidente. E segue assim até hoje”, pontua o filho do fundador do estabelecimento. O amor pelo que faz e pela história familiar é nítido. Fábio conta que foi criado dentro do restaurante e é ali que ele quer morrer, seguindo os passos do pai, até o último suspiro. Gomes Calixto Santos morreu em 2011, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).
Estrutura original
Assim como todo espaço histórico, a preservação da estrutura original é um desafio. A construção em madeira seca requer um cuidado mais atento, tanto contra as intempéries como aos cupins, que podem se tornar uma grande dor de cabeça. Fábio conta que sempre mantém o espaço dedetizado com uma empresa parceira. “São 64 anos, e a madeira permanece intacta, da mesma forma como o meu pai colocou”, destaca. No entanto, o telhado e a cozinha precisaram de reforma com o tempo. Para as vigas do teto, Fábio utilizou o mesmo tipo de madeira colocada durante a construção original do restaurante. “Não é fácil preservar, a madeira é cara. Mas é um orgulho manter a história do meu pai em um prédio que, mesmo não sendo tombado oficialmente, faz parte do marco de Brasília”, ressalta.
Na cozinha, as mudanças foram necessárias para atender às especificações da Vigilância Sanitária. O piso de concreto queimado nas cores vermelha e verde foi substituído por uma cerâmica clara, a churrasqueira foi reformada seguindo os traços originais e as janelas foram ampliadas para dar mais claridade ao local. O bar, que teve a reforma iniciada, precisou de uma pausa pelo alto custo para reconstruir os dois balcões frigoríficos com as características da época. No entanto, o desejo de finalizar os restauros continua. Um dos grandes sonhos de Fábio é que o espaço seja tombado, oficialmente, como patrimônio histórico e cultural da cidade, e ele continue como guardião do restaurante.
