Recordação

Paixão renovada: máquina de escrever tem conquistado espaço nas casas do DF

O isolamento social despertou novos hábitos em muitos brasilienses. Alguns trouxeram de volta costumes de outras décadas para aliviar as tensões geradas pela pandemia

Caroline Cintra
postado em 15/02/2021 06:05
 (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Ao errar digitação de texto no computador ou notebook, não tem outra, o atalho Ctrl+Z é acionado na hora. Essa é uma das milhares de facilidades que a modernidade nos apresenta para o dia a dia. Porém, tem pessoas que não abrem mão de artigos antigos e analógicos. Quem nasceu nos anos 2000 provavelmente nunca viu uma máquina de escrever. Nascidos na era da tecnologia, já deram de cara com o mundo digital. Mas, no Distrito Federal, há quem ame o objeto, seja para colecionar, escrever cartas e poesias, seja como uma peça de decoração (e recordação).

Desde o início da pandemia do coronavírus, várias pessoas encontraram em novos hobbies uma forma de aliviar a tensão causada pelo isolamento social. Outras, olharam de volta para si mesmas e resgataram paixões. Dono de uma loja de objetos antigos, o bibliotecário Marcelo Scarabuci, 35 anos, coleciona máquinas de escrever. Ao todo, o acervo pessoal reúne oito peças de cores e histórias diferentes. Antes da chegada da covid-19 à capital, ele vendia os objetos e alugava para produções audiovisuais. Uma delas é a minissérie Mil dias — A saga da construção de Brasília.

Em junho do ano passado, em meio à pandemia, Marcelo decidiu fazer manutenção nas próprias máquinas de escrever e anunciar o serviço nas redes sociais. “Apareceram várias pessoas querendo arrumar as máquinas. Passaram mais de 20 nas minhas mãos, além das que vendi nesse período”, contou. Em trabalho remoto, o bibliotecário afirmou que estar mais tempo sozinho o fez olhar para si mesmo. “Fazer essas manutenções me ajudou a aliviar a pressão. Foi uma válvula de escape mesmo, para ficar mais tranquilo e bem”, completou.

Apaixonado por artigos antigos, Marcelo tem uma loja virtual (@scaravelho_objetos.em.cena), onde, além de vender máquinas de escrever e fazer manutenção, aceita encomendas. “A coleção e manutenção começou porque, há anos, começaram a aparecer máquinas para mim e eu não tinha muito conhecimento e acabei pegando porque as acho bonitas”, contou. Ao procurar pessoas que prestassem o serviço de conserto das peças com preço acessível, não encontrou e começou a trabalhar por conta própria. “Autodidata, fui aprendendo. Hoje, faço procedimentos avançados em máquinas e pretendo me especializar mais ainda”, afirmou.

Moradora da Asa Sul, a professora universitária Núbia Cardoso, 39, ousa dizer que nasceu na década errada. Para ela, os anos 1950 e 1960 têm histórias e memórias apaixonantes. Uma das atrações que a encanta são as máquinas de escrever. Durante a quarentena, ela está fazendo a tese para um doutorado em educação na Universidade Católica de Brasília (UCB), porém, percebeu que o computador tira o foco com facilidade. “Estou com cinco abas abertas, uma delas se movimenta e eu já me distraio. A máquina de escrever não faz isso”, disse.

Embora o mundo atual seja engolido pela tecnologia, a professora gosta de viver uma vida bastante analógica. Nas paredes do cantinho onde estuda deixa diversos bilhetes com as principais anotações feitas na máquina. Ela tem o artigo há muitos anos, mas não a usava. Quando encontrou fornecedor para as fitas, começou usá-la com frequência. “Meus vizinhos não gostam tanto do barulho, mas tenho muito mais foco quando estudo com ela, que me leva para um lugar que não é de imediatismo, de urgência e emergência que o computador traz”, declarou Núbia.

A paixão pela máquina de escrever passa de geração para geração. O filho da professora, de 17 anos, também criou um apego. “Ele adora. Tenho amigos que não conheciam uma. Adoro objetos antigos, são feitos com carinho. Hoje, os objetos não têm personalidade, tudo muito igual. Cada máquina tem seu estilo e é algo que vamos fazendo ajustes. O computador acaba sendo descartável. A gente cria uma relação com o objeto, um vínculo mesmo”, completou.

De família

Objetos antigos não atraem apenas quem já teve contato com eles nas décadas passadas, mas os mais jovens também criam esse apreço. É o caso da estudante de biologia Tatiana Maia. Aos 24 anos, ela fez do seu quarto um canto de memórias. Alguns artigos foram comprados em lojas de antiguidades. A máquina de escrever carrega uma história familiar. Ela contou que achou a máquina na casa da avó, no interior de São Paulo.

As recordações são da infância. Ela lembra que brincava fingindo que estava escrevendo. Como ninguém a usava, era apenas uma peça decorativa, tornou-se uma brincadeira. “Eu já achava incrível quando criança. Fui crescendo e tendo interesse por coisas antigas no geral. Tenho vitrola, discos. Gosto de ir a bazar procurar antiguidades”, contou.

Um dia, na casa da avó, decidiu pegar a máquina para ela. Embora fosse uma peça familiar, os pais não aprovavam tanto as aquisições. “Falam que fico trazendo coisa velha para casa. Meu quarto parece um antiquário”, brincou. A partir da nova aquisição, começou a escrever e a apreciar o formato das letras da máquina. “Tudo fica mais bonito nela. Como não tive a prática, achei diferente, principalmente a relação com o erro quando estava escrevendo. Ou começava do zero ou pulava uma linha”, explicou.

Até antes da pandemia, como a máquina estava desregulada, a peça tornou-se artigo decorativo. Agora, após passar por manutenção, é usada com frequência. “Gosto de escrever cartas. Como tenho um brechó no Instagram, faço as etiquetas nela. Quando as pessoas veem, surpreendem-se, porque é algo que não é fácil de encontrar. Vejo que antes as pessoas tinham uma relação melhor com as coisas, sem tecnologia, mas com muita estética. No meu caso, ainda tem memória familiar”, completou Tatiana.

Reconexão

Para a professora Daniela de Oliveira, 50, sentar-se em frente à máquina de escrever para transcrever os poemas preferidos é uma forma de reconectar-se consigo mesma. Ela comprou o artigo em uma loja em Buenos Aires, na Argentina. Até antes da pandemia, não tinha colocado para funcionar. Com o isolamento social, encontrou tempo para desenvolver atividades novas. Daí surgiu a ideia de passar para o papel as poesias de que mais gosta. Na cor laranja, o artigo dos anos 1980 ganhou destaque na casa da docente. “Na UnB (Universidade de Brasília), participo de um projeto de fabricação de papéis artesanais. Passei os poemas para esses papéis. Tenho algumas amostras e quis juntar tudo para que fosse mais lúdico”, contou.

Essa foi uma forma que Daniela encontrou para desviar a atenção da pandemia e olhar mais para si. “Para quem tem esse privilégio de ter uma casa para estar nela e se conectar com o seu meio, que antes era um lugar transitório, onde as pessoas só chegavam para dormir, é muito especial. Se no meio desse caos teve algum benefício foi esse: a reconexão. Meu processo foi longe da internet, das redes sociais”, disse.

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