Pandemia

Serviços essenciais pedem inclusão no plano de vacinação contra a covid

Fora dos grupos prioritários do plano inicial da Secretaria de Saúde do DF, trabalhadores de serviços essenciais que atuam em contato direto com a população pedem a inclusão nas primeiras etapas de imunização contra a covid-19

Cibele Moreira
postado em 22/02/2021 06:35
 (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

Trabalhadores que atuam em serviços essenciais, com contato direto com a população, reivindicam inclusão nos grupos prioritários de imunização contra a covid-19. Representantes de categorias, como a dos rodoviários e dos garis, estão em constante diálogo com o Executivo local para a inserção no plano de vacinação distrital. Servidores da assistência social também pleiteiam o direito a receber o imunizante nas primeiras etapas da campanha, no entanto o pedido não foi acatado. Com isso, cerca de 70% dos assistentes sociais pararam por uma semana no início deste mês.

O presidente do Sindicato dos Servidores da Assistência Social e Cultural do Distrito Federal (Sindsasc), Clayton Avelar, ressaltou que a categoria está mais vulnerável ao vírus e presta serviço essencial de amparo à população. “A gente não está querendo privilégio, pedimos que nos coloquem após os servidores da saúde. Estamos lidando diretamente com o público”, destacou Avelar. Para a assistente social Leany Mendes, 40, o volume de atendimento durante a pandemia aumentou, e com isso os servidores ficaram mais expostos. “Desde de março, a gente vem se expondo mais. Houve uma restrição nos atendimentos, com 50% remoto, mas, mesmo assim, a procura é alta. A gente quer dar nossa visibilidade para a inclusão no plano de vacinação. Nos vemos excluídos desse processo”, afirma. “Se nós não recebemos cuidado, não somos capazes de cuidar do outro”, pontua a servidora.

Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Social do DF (Sedes) definiu a greve dos trabalhadores da assistência social como desarrazoada. “Pressionar pela vacinação, tentando alterar os critérios de prioridades que foram elaborados pelos técnicos do Ministério da Saúde, em conjunto com a Secretaria de Saúde do DF, demonstra a falta de sensibilidade e empatia por parte do sindicato, com aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade”, afirma a pasta. Segundo a secretaria, foram tomadas todas as providências para reduzir os riscos de transmissão do novo coronavírus entre os servidores. “Cumprindo com as diretrizes estabelecidas e preocupados com a saúde dos servidores, foram disponibilizados para as 83 unidades da secretaria os kits de equipamentos de proteção individual (EPIs) contra a covid-19, contendo: máscara de proteção facial, álcool em gel, termômetros digitais, barreiras físicas de acrílico e marcações para o distanciamento social. Além disso, o GDF nomeou 258 novos servidores concursados, medida que busca a reestruturação da pasta”, destacou em nota.

A Secretaria de Desenvolvimento Social ressaltou que, em 18 de janeiro, foi encaminhado para a Secretaria de Saúde um plano específico de imunização contra o novo coronavírus, dividido em etapas, considerando a natureza do trabalho desenvolvido pelos profissionais do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) no DF. De acordo com a pasta, até 6 de fevereiro, 1.276 pessoas, entre profissionais e usuários da rede socioassistencial, já tinham sido vacinadas. No grupo dos imunizados estão: idosos, pessoas com deficiência, cuidadores, agentes sociais e técnicos administrativos, as equipes do núcleo de serviço funerário, além dos assistentes sociais que atuam em hospitais. “O momento exige, além de todo cuidado, serenidade e paciência. Todas as categorias de servidores públicos são importantes e merecem atenção”, pontuou a nota. A Secretaria de Justiça e Cidadania informou que está adotando medidas cabíveis para a manutenção dos serviços, para que a população não fique prejudicada com a decisão de greve da categoria.

Rodoviários

Outro grupo de trabalhadores que reivindica o direito de imunização no plano prioritário de vacinação é o dos rodoviários. O vice-presidente do sindicato da categoria, João Jesus de Oliveira, afirma que participou de uma reunião com o secretário de Transporte e Mobilidade (Semob) para tratar sobre o assunto. “Já perdemos 14 trabalhadores pela doença. Mesmo com a máscara, corremos o risco diário de infecção, com os ônibus com lotação acima da normalidade”, pondera João. Em relação à quantidade de contaminados, não há um número certo, porém ele afirma que é bastante elevado. “A gente não tem como saber onde o trabalhador se contaminou, mas sabemos dos riscos”, destaca.

Para o cobrador Luis Cláudio Martins Gomes, 45, a preocupação é grande em relação a pandemia. “A categoria nunca parou. Já perdemos vários amigos para a doença. Eu mesmo tive covid em agosto do ano passado. Graças a Deus foi leve, mas tive sequelas respiratórias. Então, ser incluído no plano de vacinação é um grande feito para nós”, ressalta Luis Cláudio. Ele conta que já aconteceu de um coletivo não sair da garagem porque o funcionário estava afastado pela doença. “Então, o ônibus seguinte foi lotado, e o controle de proteção ao vírus fica difícil nesses casos. A gente não pode deixar de trabalhar; sem os rodoviários a cidade não circula”, conta o cobrador, que tem medo da chegada de uma segunda onda de infecção. A Semob informou que está em tratativas com a Secretaria de Saúde para a inclusão dos rodoviários no cronograma de vacinação dos grupos prioritários que realizam serviços essenciais. Segundo levantamento do sindicato, cerca de 13 mil trabalhadores atuam no serviço rodoviário da capital.

Limpeza urbana

Uma profissional da limpeza urbana do DF, que preferiu não se identificar, contou ao Correio os receios que os profissionais desta categoria enfrentam diariamente. “A gente está de frente com a realidade, e os riscos são muitos. Diariamente, a gente tem contato com máscaras que são descartadas incorretamente no chão, e nós, garis, temos que ensacar”, ressalta. Para ela, a vacina é fundamental. “Não podemos ficar sem trabalhar, temos filhos, família para criar. A imunização trará uma segurança maior”, destaca a gari, que tem cinco crianças e uma mãe idosa para cuidar. De acordo com a servidora, da equipe que ela trabalha, cinco pessoas já se contaminaram com o vírus.

“Desde o início da pandemia, a nossa categoria está na linha de frente. É uma injustiça não colocar o servidor da limpeza
urbana nos grupos prioritários. Imagina um dia sem que os garis coletarem o lixo infectado pela covid-19?”, pondera o presidente do Sindicato de Limpeza Urbana do Distrito Federal (Sindlurb-DF), José Cláudio de Oliveira. Segundo ele, já foram encaminhados ofícios para o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) e para a Secretaria de Saúde solicitando a inclusão dos trabalhadores. “O que foi nos repassado é que, caso chegue novas doses, o cronograma poderá ser mudado. Mas até o momento, não recebemos nenhuma movimentação nesse sentido”, explica José Cláudio. Segundo o sindicato, atualmente existem 4 mil trabalhadores na ativa com serviço externo pelas ruas do Distrito Federal, e cerca de 400 na estação de transbordo.

Reavaliação

Na avaliação do médico infectologista do Hospital das Forças Armadas (HFA) Hemerson Luz, o plano de vacinação adotado pelo Distrito Federal tem uma peculiaridade que permite a reavaliação e redefinição dos grupos prioritários de acordo com a realidade do momento. “Seria interessante repensar quem são as pessoas que estão mais vulneráveis ao vírus. Os motoristas de transporte coletivo, por exemplo, é uma categoria que pode ser incluída nesse grupo”, afirma.

Para Andrea Maranhão, professora de imunologia do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília (UnB), a quantidade pequena de doses que tem chegado é uma das maiores preocupações, em se tratando de prioridades na imunização. “Dividir a riqueza é fácil, agora dividir a miséria que fica é um pouco mais complicado”, pontua. De acordo com ela, uma saída é escalonar prioridades dentro das prioridades para atender as demandas. “Tem de pensar quem está mais exposto à doença, e também o risco de evoluir a forma mais grave da infecção. Tudo tem de ser analisado”, destaca.

CONTINUE LENDO SOBRE