ARTE

Artista radicada em Brasília faz da capital do Brasil sua musa inspiradora

Há 30 anos em Brasília, a roraimense e artista plástica Carmen San Thiago desenha monumentos da capital. Os traços presentes em suas obras representam o pulsar da cidade e já encantaram muitos brasilienses. Agora, o acervo faz parte do leilão virtual

Ana Maria da Silva
postado em 14/03/2021 06:00
 (crédito: Acervo pessoal)
(crédito: Acervo pessoal)

O encontro de vidas entre uma carioca e um catarinense resultou no nascimento de uma roraimense apaixonada por aquarela. Nascida em Porto Velho (RO), Carmen San Thiago, 44 anos, carrega em seu DNA o olhar de quem gosta de interagir com o ambiente onde está inserida, sempre à procura da essência do local. Graduada em artes plásticas e especializada em design gráfico, a artista registra o encanto por Brasília nos quadros, pincéis e tintas. Os registros, que começaram com rascunho inspirados nas histórias do quadradinho, transformaram-se em belos quadros que decoram as casas de quem compartilha o mesmo amor pela capital federal.

A história com as artes começou faz tanto tempo, que a paixão foi como enredo de cinema: chegou e ficou. Hoje, ela já não sabe mais se é sangue ou tinta que sai do seu coração e pulsa em suas veias. “É só contar uma história que já quero ilustrar. Eu vou longe. Sempre pintei e sempre me entendi como pintora, desde que vi a areia e comecei a fazer traços. O desenho sempre esteve muito presente na minha realidade, em qualquer suporte que pudesse receber e ser desenhado”, conta a artista.

Ao se mudar para Brasília, em 1991, um ano antes do impeachment do ex-presidente da República Fernando Collor, a artista recorda que uma das primeiras fugas de casa foi para participar de uma manifestação com uma amiga. “Meu pai não queria que eu fosse para esses eventos, mas fomos para a Esplanada e aquilo foi deslumbrante pra mim”, recorda. “Até então, Brasília era muito secreta pra mim. Aqui, descobri que podia conhecer pessoas e coisas interessantes. Acho que esse foi o momento que descobri que eu queria fazer arte”, pondera.

Aos 18 anos, Carmen engravidou e o plano de estudar artes tornou-se uma meta a longo prazo. Quando completou 24 anos, a artista se matriculou na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Os ventos mudaram. Assim que concluiu o curso, Carmem foi convidada para ser professora de pintura na instituição. Ao todo, ela viveu o universo central de Brasília por oito anos. “Quantas vezes eu não fiquei parada na parte superior da rodoviária, olhando aquele ballet coreografado pelas pessoas em uma espontaneidade e rotina. A vida da gente não deixa de ser essa rotina e ensaio que já sabemos dar todos os dias. Aqui, eu descobri o movimento das pessoas”, recorda.

Inspiração

Apaixonada por pessoas, Carmen explica que passou por processos de reconstrução pessoal. A artista lembra que ficou um tempo sem trabalhar ou estudar. Nesse período, ela mudou-se para São Paulo onde viveu por alguns anos e teve a oportunidade de experimentar novas vivências pessoais e artísticas. “Já me vesti de travesti na Augusta, andando sozinha pelas ruas da cidade. Isso não deixa de ser uma pesquisa, uma performance. Eu gosto muito de viver a vida real. Como professora, sempre defendi a ideia de que só conseguimos nos expressar a partir do momento que conseguimos observar”, ressalta. “A minha inspiração são as pessoas, como ocupam os espaços, como se comportam”, explica a artista.

Carmen diz que possui como referência de vida, o livro A Poética do Espaço, do artista Gaston Bachelard. “Eu tenho pintado Brasília por ter observado muito. Pinto porque todos os dias, quando consigo passear, volto pra casa muito inspirada, com uma necessidade muito grande de pintar esses traços. Quando vejo um ambulante sentado na parada de ônibus vendendo marmitex, aquilo me toca de uma forma especial. Esse tipo de imagem é uma tela, um quadro, uma pintura”, defende.

Uma das inspirações favoritas da artista é o Foguetinho do Parque da Cidade Sarah Kubitschek. “Esse cenário tem mais de mil histórias. Aquilo é uma representação muito forte para mim, porque quando eu era criança subir naquele brinquedo, passar pela passagem que ele tem até chegar às escadas, era uma conquista”, diz. Para ela, existem milhões de histórias em cada uma aquarela do brinquedo. “Nunca pintei a mesma história", afirma.

Encanto

Nas ilustrações, uma única musa inspiradora: Brasília. Na visão da artista, porém, a capital modernista não se restringe aos monumentos imponentes. “Quando eu pinto a cidade, sinto uma emoção muito forte em cada quadro que faço. Já fiz quadros em que manifesto questões políticas, desconfortos em relação a cidade”, diz. “Brasília é uma grande galeria a céu aberto, temos isso no mundo”, completa.

Brincar com a arte é uma verdadeira diversão para Carmen compor seu acervo. “Eu gosto de colocar as intervenções artísticas de outros artistas”, conta. “Aqui, temos lambes -lambes do pessoal do andaime. A minha frase favorita é: 'O que eu não fiz, vira sonho'. Colocar imagens encontradas na cidade, é trazer a arte do outro pra minha pintura”, acredita. Através da tela, a artista registra a história que pode ser destruída ao longo dos anos. “Eu peço pra minha filha observar, porque um dia alguém vai passar uma pintura por cima. Encontrar arte e personagens nesse teatro cotidiano que temos é especial. Eu andei muito a pé por esses locais e essa experiência que tive faz a gente observar o outro como poesia”, inspira-se.

  • Os monumentos, os traços e a vida pulsante da capital são as melhores inspirações para a artista nascida em Roraima
    Os monumentos, os traços e a vida pulsante da capital são as melhores inspirações para a artista nascida em Roraima Foto: Acervo pessoal
  • Raimundo Sampaio/Divulgação
    Raimundo Sampaio/Divulgação Foto: Raimundo Sampaio/Divulgação
  • Os monumentos, os traços e a vida pulsante da capital são as melhores inspirações para a artista nascida em Roraima
    Os monumentos, os traços e a vida pulsante da capital são as melhores inspirações para a artista nascida em Roraima Foto: Acervo pessoal
  • Raimundo Sampaio/Divulgação
    Raimundo Sampaio/Divulgação Foto: Raimundo Sampaio/Divulgação
  • Acervo pessoal
    Acervo pessoal Foto: Acervo pessoal
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