ENTREVISTA

Imunologista da UNB avalia e comenta a eficácia da vacina Pfizer

Andréa Maranhão comenta a quarta fase de estudos da vacina da Pfizer, feita com mais de 1 milhão de pessoas. Imunizante é o primeiro a possuir registro definitivo na Anvisa, e governo federal assinou intenção de compra, mas logística é barreira

Ana Maria da Silva
postado em 15/03/2021 06:00 / atualizado em 15/03/2021 10:04
 (crédito: AFP / AHMAD GHARABLI)
(crédito: AFP / AHMAD GHARABLI)

Após meses de negociação, o governo federal decidiu comprar a vacina contra covid-19 produzida pela Pfizer/BioNTech. O imunizante foi o primeiro a possuir registro definitivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A professora de imunologia do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília (UnB) Andréa Maranhão destaca que o produto poderá ser usado até mesmo no público que não é considerado de risco. De acordo com pesquisa feita em Israel — que já imunizou quase 50% da população, fornecendo uma rica fonte de dados — a vacina da Pfizer reduz os casos sintomáticos de covid-19 em 94%, em todas as faixas etárias, uma semana após a aplicação da segunda dose.

O estudo de fase quatro, conhecido como “estudo do mundo real” contou com cerca de 1,2 milhão de pessoas. Uma única dose foi 57% eficaz na proteção contra infecções sintomáticas após duas semanas, de acordo com dados publicados e revisados por pares no New England Journal of Medicine. Até agora, a maioria dos dados sobre a eficácia das vacinas contra a covid-19 vem de ensaios clínicos em condições controladas, deixando incertezas sobre como os resultados se traduziriam no mundo real com outras variáveis imprevisíveis.

Ao Correio, Andréa Maranhão explicou o que é a quarta fase de estudo. “Normalmente, a vacina demora anos com estudo clínico. Então, quando se faz uma vacinação em massa como essa, em que se confirma os dados, comprovamos que o desenvolvimento das fases anteriores foi bem-feito”, destaca.

De acordo com a docente, não restam dúvidas sobre a eficácia do imunizante. “As pessoas se sentem muito mais seguras. Ainda mais que essa vacina é a primeira feita com a molécula de RNA do vírus. Então ainda havia dúvidas quanto ao funcionamento, mas eles conseguiram fazer uma tecnologia eficaz”, afirma.

O estudo foi baseado nos dados de uma das agências de saúde de Israel. Para o levantamento, foram verificadas as informações dos beneficiários que tinham ou não sido vacinados, e que apresentavam ou não sintomas da doença. Andréa explica que, ao longo da pesquisa, diferentes perfis de pessoas foram comparadas. “Os grupos, vacinados e não vacinados, eram pareados por características como classe social, residência, hábitos. No final, eles acabaram com 596 mil pessoas vacinadas e 596 mil pessoas não vacinadas, ou seja, mais de um milhão de pessoas foram comparadas”, detalha.

Andréa explica que os imunizantes que têm atuado no Brasil ainda não chegaram na quarta fase. “Ainda não temos dados publicados da quarta fase para a CoronaVac e para a da Astrazeneca, mas certamente teremos. É uma questão de tempo. O resultado de Israel deu-se por ser o país que mais vacinou no mundo. No Brasil, não há possibilidade de fazer, uma vez que vacinamos poucas pessoas”, reforça.

Para fazer o estudo do mundo real no país, é necessário que haja coleta de informações. “Eu não sei até que ponto isso está sendo feito no Brasil. Vamos supor que, daqui dois meses, eu queira fazer um estudo como esse. Para isso, precisarei acessar os dados do Ministério ou Secretaria da Saúde e vou analisar informações de cada pessoa. Será que na hora de vacinar a Secretaria de Saúde faz esse tipo de questionário? Isso é fundamental”, pondera a professora.

Em Serrana, no interior de São Paulo, um estudo de vacinação em massa do Instituto Butantan avalia a eficácia da Coronavac na redução da transmissão da covid-19. A pesquisa, que se assemelha à de Israel, trará novos dados dos imunizantes, segundo a professora. “Eles vão, inclusive, tentar analisar a transmissão, algo que não foi estudado nesta pesquisa.”

Na iniciativa, iniciada em 17 de fevereiro, a cidade foi dividida em quatro regiões. Com o objetivo de imunizar 28.380 voluntários em quatro etapas, o ‘Projeto S’ vacinou um total de 19.020 pessoas com a primeira dose da vacina contra o coronavírus. Nesta fase, definindo o grupo alvo com a cor cinza — 3 a 7 de março —, 5.847 moradores da cidade foram imunizados, o que corresponde a 92,5% da expectativa inicial. Na semana do dia 15, moradores da região verde poderão iniciar o recebimento da segunda dose da vacina e, portanto, estarão imunizados após o período de 21 a 30 dias da primeira dose e do início do projeto.

Desafios

Para o uso da vacina da Pfizer no Brasil, o grande desafio será contornar a necessidade de manter o imunizante em uma temperatura inferior a -70° C durante o transporte, para que ele não perca sua eficácia. “De fato, é uma vacina mais complexa nesse sentido, entre a fabricação e o transporte para ela chegar no braço das pessoas. É um imunizante muito mais sensível à variação de temperatura, enquanto produto, não enquanto a vacina e eficácia”, explica Andréa.

De acordo com a imunologista, apesar da aprovação de registro definitivo no Brasil, a vacina terá grandes dificuldades para chegar em locais distantes de grandes centros urbanos. “Não é uma vacina que vamos levar para o interior do país, porque não vamos conseguir manter a estabilidade. Ela precisa estar em ultrafreezer para durar mais tempo. Agora estão dizendo que pode ser armazenada em freezer convencional, desde que usada em 14 dias. É o tipo de coisa que você não vai colocar em um barco para levar para a Amazônia ou em um caminhão pra caatinga no Nordeste, porque o risco é muito grande”, arremata.

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