Jornal Correio Braziliense

Obituário

George Lopes Leite, 70 anos

Desembargador morreu ontem, vítima da covid-19. O magistrado e familiares contraíram a doença há três semanas: um filho e a nora se recuperam, mas a mulher, Jacira, segue internada. Colegas e autoridades lamentam perda

A covid-19 levou um respeitado integrante da comunidade jurídica de Brasília. O desembargador George Lopes Leite, 70 anos, morreu ontem em decorrência da infecção pelo novo coronavírus. Ele estava internado no Hospital DF Star, e seu quadro se complicou. A família foi informada da morte encefálica no começo da tarde. Depois de todos os protocolos médicos, o óbito foi confirmado.

O magistrado e familiares se contaminaram há cerca de três semanas. Um filho e a nora se recuperaram, mas a esposa do desembargador, Jacira, continua internada. Eles passaram mal na mesma época. Tiveram febre, dor de cabeça e falta de ar. O desembargador e a mulher foram intubados no Hospital Santa Helena, na Asa Norte, e seguiram o tratamento. Como o estado de saúde não evoluiu, eles foram transferidos pela família para o DF Star.

Natural de Mossoró (RN), George Lopes Leite ingressou na magistratura em agosto de 1988. Em outubro de 2006, foi promovido por antiguidade a desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). Antes de virar juiz, ele foi procurador do Distrito Federal.

No TJDFT, ele era integrante da 1 ª Turma Criminal. Como juiz, atuou na Vara de Execuções Criminais, atual Vara de Execuções Penais. Em novembro de 1997, foi removido para a 2ª Vara de Delitos de Trânsito de Brasília, transformada em Vara do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.

Foi presidente da Associação dos Magistrados do DF (Amagis-DF), membro e ouvidor-geral do TRE-DF, além de ter integrado a Comissão Apuradora no Referendo Sobre Comércio de Armas em 2005.

Sessões suspensas

Os colegas e amigos estão abalados pela morte em meio à pandemia. O presidente do TJDFT, Romeu Gonzaga Neiva, suspendeu todas as sessões marcadas para ontem. Na sessão do Pleno, haveria uma homenagem ao desembargador Mário Machado, que está se aposentando. Mas a solenidade foi remarcada para a próxima terça-feira.

O desembargador Roberval Belinati disse que George era um amigo e um juiz digno. “O Desembargador George Lopes Leite entra nos anais da história como um dos grandes magistrados da República. Cumpriu com dignidade, seriedade e honradez a missão que recebeu de Deus. Sempre foi solidário e generoso. Na área criminal, aplicava as menores penas possíveis aos infratores. Serviu ao país até os últimos momentos de sua vida. Honrou a toga. Deixa saudade”, lamentou.

O governador Ibaneis Rocha (MDB) lamentou a morte do magistrado. “Perdi um grande amigo, o Judiciário e a sociedade um grande magistrado, a família um marido e pai carinhoso e dedicado”, afirmou.

Ele também tinha o respeito de integrantes do Ministério Público do DF. O ex-procurador-geral de Justiça do DF Leonardo Bessa afirmou: “O TJDFT perde um magistrado exemplar, um humanista. Perda irreparável para familiares, amigos, para o Poder Judiciário e para Brasília”.

A procuradora-geral de Justiça do DF, Fabiana Costa, disse que George Lopes Leite era um grande defensor dos direitos humanos e individuais. “Conheci o desembargador George Lopes no começo de minha carreira, ainda como promotora de Justiça adjunta. À época, como juiz na área de execução penal, tornou-se amplamente reconhecido pelo respeito aos direitos individuais e humanos no sistema prisional. Tive muito seu apoio quando ainda estudava a central de alternativas penais e, desde então, nos tornamos parceiros” contou Fabiana. “A notícia de seu falecimento traz grande tristeza para todas as pessoas que tiveram o privilégio de sua convivência. Uma perda irreparável para os amigos, familiares e para o sistema de Justiça”, acrescentou.

O procurador de Justiça Chico Leite, ex-deputado distrital, também lamentou a perda de um magistrado comprometido: “Fazia do trabalho com o direito uma maneira de cuidar das pessoas. Perdemos uma grande alma, um profissional comprometido com a causa”.

O criminalista Cleber Lopes foi aluno de George Lopes Leite e depois colega no Uniceub, onde ambos davam aula. Ele conta que aprendeu muito com o magistrado nas aulas, na faculdade e no tribunal. “O desembargador George foi advogado exitoso, professor de tantas gerações, um juiz de elevado saber jurídico e dotado de um humanismo que sempre equilibrava os julgamentos no Tribunal. Todos tinham nele a esperança de uma palavra de conforto, de uma solução humana, sem perder de vista a ciência jurídica. Perdemos todos”, disse Cleber Lopes.