Crônica da Cidade

por Luiz Calcagno luizcalcagno.df@dabr.com.br (cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)

Correio Braziliense
postado em 04/04/2021 22:49

 

O relógio de Godot

Aristóteles define o tempo como movimento. Mas o movimento é como ir daqui até ali. Leva tempo, mas não é o tempo. Para Santo Agostinho, se ninguém o pergunta o que é o tempo, ele sabe o que o tempo é, mas quando lhe perguntam, ele não o conhece mais. O tempo é um mistério. Difícil compreendê-lo, impossível capturá-lo. Uma hora é, de fato, uma hora, ou apenas o tempo que leva o ponteiro dos minutos a dar uma volta completa no relógio? As engrenagens movem-se delicadas em tique-taque. Um semáforo fecha na Asa Sul. Pedestres atravessam apressados.

Civilizações antigas construíram monumentos para medir o movimento do Sol e das demais estrelas, marcando a mudança das estações. Assim, sabiam o que e quando plantar, a época de colher, que animais caçar. A natureza ditava o tempo. Mas quem o dita agora? O dia não tem 24 horas exatas, o ano não tem exatamente 365 dias, o movimento de rotação da Terra é muito mais velho que o nosso conceito de segundos e minutos, e a EPTG engarrafada não se importa com a impaciência do passageiro no ônibus.

Quando ocupamos nossos cérebros a pensar no tempo, nos submetemos a um processo neural que consome energia, oxigênio, e precisa ocorrer dentro de um tempo próprio. É o tempo pensando no tempo. Se estamos com quem gostamos, o tempo voa, mas, os últimos minutos do expediente de sexta-feira antes do convescote podem durar uma eternidade. Na escola, a última aula é a mais longa. As férias parecem demoradas, mas se resumem a quase nada quando, finalmente, batemos o ponto para marcar o início do expediente. E na quarentena, o trabalho se derrama no lar, na família, no amor, enquanto o cenário permanece constante: caos, medo e tédio. Como será que passa o tempo dos que estão sós nas UTIs, porque outros decidiram aproveitar o próprio tempo?

A arte também pensa o tempo. Em sua última entrevista, aos 66 anos, o cronista Nelson Rodrigues deu um recado aos jovens: “envelheçam rapidamente”. O poeta Casimiro de Abreu recorda a aurora da vida, a “infância querida que os anos não trazem mais”. “Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais!” Caetano Veloso ora ao tempo, “compositor de destinos”, “tambor de todos os ritmos”, tão inventivo e, ainda assim, contínuo.

No Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, o acendedor de lampiões não tem sossego. Acende o lampião, o planetinha gira, apaga o lampião, o ciclo se repete. Já o pequeno herói, em casa, no Asteróide B-612, prefere deslocar a cadeira um pouco mais para trás para prolongar o pôr do sol. Vi uma criança de uns 6 anos brigar com os pais. “Vocês estão sempre me apressando!” Esqueceram-se, aqueles adultos, que as crianças têm um tempo próprio. Não o tempo da internet, do relógio de ponto. Não o tempo que é dinheiro, esse tão mais importante. Mas tempo em que se caminha para trás por mais um pouco de entardecer.

O tempo, hoje, atropela. É impossível atender às demandas desse terrível deus. Duvidamos da própria capacidade quando o desafio que temos à frente é irrealizável, e nos afundamos em um mar de insegurança. Ninguém acompanha o relógio da era da informação. É nesses moldes que ele dita o tempo, para que se faça um pouco mais, sem nunca alcançá-lo. Os segundos são mais rápidos, e fazemos as vezes de acendedores de lampião. Mas quem sabe quanto tempo tem de vida enquanto o tempo nos consome? E se nos restar muito pouco dessa areia, quanto valerá o grão? O que fazer? Quem encontrar? Dará tempo? Você aí, quantas horas são? Godot manda dizer que não virá.

 

 

 

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