Crônica da Cidade

Severino Francisco
postado em 05/04/2021 21:27 / atualizado em 05/04/2021 21:27

Pronome possessivo

Singular

O meu Exército, a minha Aeronáutica, a minha Marinha e a minha PF.

O meu Centrão, o meu Congresso, os meus desembargadores, a minha Procuradoria da República e o meu ministro do STF.

A minha AGU, o meu Ministério da Justiça e os meus apoiadores fanáticos.

O meu ministro das Relações Exteriores, o meu ministro do Meio Ambiente, o meu ministro da Educação e o meu ministro da Defesa.

O meu desmatamento de florestas, o meu garimpo em terras indígenas e o meu aquecimento global. Minha cloroquina.

O meu negacionismo, a minha rede de fake news e o meu gabinete de verdades alternativas.

A minha apropriação da bandeira do Brasil, o meu ídolo Trump e os meus Unaites Esteit.

A minha família, a minha mulher, os meus filhos, o meu cartão corporativo, as minhas férias de 2 milhões e o meu auxílio emergencial de R$ 150.

A minha indiferença pela morte de 330 mil brasileiros, o meu desdém pela dor das famílias que perderam os entes queridos por falta de leitos de UTI e a minha negligência em comprar vacinas. Chega de mi-mi-mi!

A minha antipolítica, o meu antiestatismo e as minhas mamatas estatais. O meu repúdio ao uso de máscara. Os meus desmandos. Em nome de Jesus.

A minha aglomeração, a minha campanha anticiência e o meu sigilo de vacinação a ser quebrado apenas daqui a 50 anos.

Os meus decretos, as minhas verdades absolutas, a minha Constituição e os meus remédios amargos.

Plural

A nossa dor, a nossa solidariedade, o nosso choro, o nosso luto e a nossa indignação pela morte de 330 mil brasileiros, que poderiam ser evitadas.

O nosso Ministério da Justiça, o nosso Ministério das Relações Exteriores, o nosso Congresso e o nosso STF.

O nosso Exército, a nossa Aeronáutica, a nossa Marinha e a nossa Polícia Federal.

Os nossos artistas geniais, o nosso Caetano Veloso, o nosso Gilberto Gil, o nosso Machado de Assis, a nossa Clarice Lispector, o nosso Villa-Lobos, o nosso Darcy Ribeiro, o nosso Euclides da Cunha, o nosso Rubem Braga, o nosso Glauber Rocha e a nossa Cecília Meirelles.

A nossa comoção ao ver as nossas escolas, as nossas crianças, os nossos cientistas, os nossos professores, o nosso Instituto Butatan, a nossa Fiocruz, os nossos profissionais da saúde, os nossos hospitais e o nosso SUS.

A nossa solidariedade, o nosso cuidado com o outro, o nosso desejo de que o Brasil seja novamente Brasil.

As nossas florestas, os nossos índios, a nossa ancestralidade, o nosso futuro, a nossa responsabilidade com o aquecimento global e o nosso legado para as próximas gerações.

O nosso desafio de reduzir as desigualdades socais, as nossas dúvidas de consciência, o nosso desejo de aprender com os erros e o nosso empenho em revelar o que temos de melhor neste momento tão dramático.

A nossa fé capaz de mover montanhas de adversidades. A nossa alegria em ver cada brasileiro ser vacinado, usando com máscara. A nossa luta para defender e salvar o que temos de mais sagrado: a vida.

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