Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br (cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)

Correio Braziliense
postado em 08/04/2021 21:59 / atualizado em 08/04/2021 21:59

Onde está Ana Maria?

Comecei a trabalhar em jornal em 1978 e, desde esse tempo, fiz muitos amigos culturais. Não frequento a casa deles, eles não frequentam a minha, raramente sentamos em um boteco ou tomamos um vinho. No entanto, nos consideramos amigos, o que nos une são laços de afinidade cultural. Nos encontramos na entrada dos teatros, em uma livraria, em algum parque, no hall do Cine Brasília durante o festival de cinema ou nas páginas dos jornais.

Ao escrever crônicas, sinto-me na situação daquele personagem exilado em uma ilha deserta que atira mensagens ao oceano em uma garrafa. Nunca sei se elas serão lidas ou se, se lidas, atingirão algum misterioso leitor. Por isso, é sempre uma alegria receber uma resposta ou um sinal de reconhecimento verdadeiro.

Certo dia, eu fazia compras em um mercado quando fui abordado por uma senhora elegante, distinta e simpática. Ela me perguntou: “Por acaso, você é cronista do Correio?” Respondi que sim, ela ficou feliz e, com um brilho intenso nos olhos, disse que lia os meus textos todos os dias. E, para confirmar, lembrou de diversas histórias da Aurora, minha neta, personagem de muitas crônicas: “Adoro framboesa, mas eu nunca comi framboesa. Você podia comprar para eu experimentar?”

A sintonia foi instantânea. Como escreveu Vinicius de Moraes, a gente não faz amigos; reconhece-os. A amizade com Ana Maria é tecida pelas relações fugazes e fortuitas de encontros nos supermercados.

Ana é instintiva, intuitiva, sensível, assertiva e veloz. Ela não tem preâmbulos nem prolegômenos, vai direto ao assunto. Fica aterrada com a notícia de agressões a uma criança ou animada com alguma notícia boa.

Sempre miro as pessoas para saber quem elas são. Observei os olhos de Ana Maria e senti a irradiação de uma intensa luz de bondade. Perguntei o que fazia da vida e ela me respondeu, com senso de humor, que era psicanalista, mas lascada, porque só cuidava de pessoas que não podiam pagar. É uma pessoa generosa, inteligente e bem-humorada.Sabe dizer coisas agradáveis e verdadeiras.

Desde a pandemia, nunca mais tínhamos avistado Ana Maria. Pensamos em perguntar como estava, mas perdemos o contato dela e começamos a traçar hipóteses mirabolantes e angustiantes. Será que a nossa amiga se mudou? Ou, quem sabe, adoeceu? Será que está viva? Pensei em escrever uma crônica com o título: Onde está Ana Maria?

Enfim, ela virou um ponto de interrogação angustiante e perturbador. No entanto, na semana passada, eu e minha mulher estávamos na fila do caixa, quando aparece uma senhora com olhos de brilho intenso. Depois de alguns segundos de hesitação, reconheci: era Ana Maria.

Ficamos muito felizes. Nelson Rodrigues dizia: algumas vezes, eu passo dias, meses e anos, sem avistar um ser humano. É muito bom encontrar um ser humano verdadeiro, que nos engrandece com a sua autenticidade e sua sensibilidade. Só saber que Ana Maria está viva é algo que melhora o dia.

Ela disse que estava difícil vislumbrar saídas para o Brasil. Sim, a situação é dramática, precisamos agir e cobrar ações das autoridades, com urgência. Mas, calma, Ana Maria, façamos a nossa parte, porque os deuses sempre jogam seus dados.

 

 

 

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