HISTÓRIA

Reforma em casas de 1957 vai restaurar patrimônio tombado de Brasília

A Fazendinha da Vila Planalto, tombada em 1988, sai do esquecimento e começa a receber os primeiros retoques para revitalização. O espaço é patrimônio cultural e resgata a história da construção de Brasília

» Ricardo Daehn
» CIBELE MOREIRA
postado em 12/04/2021 06:00
 (crédito: Marina Gadelha/Divulgação)
(crédito: Marina Gadelha/Divulgação)

A Fazendinha Pacheco Fernandes, na Vila Planalto, revive após anos esquecida. As casas de madeira, construídas em 1957, deterioraram-se com o passar do tempo. Mas, agora, elas ganham um novo ar graças ao projeto de recuperação do espaço, patrimônio cultural. O local, tombado em 1988, é referência quando o assunto é resgate da história da capital do país. A área tem pouco mais de 33 mil metros quadrados e é composta por cinco casas de madeira, erguidas para servir de moradia a autoridades, engenheiros e técnicos no período da construção de Brasília.


Com o tempo, as edificações se tornaram pontos de atendimento à comunidade. No entanto, ao longo dos últimos 15 anos, três casas ficaram abandonadas e foram consumidas pelo tempo. O comprometimento da estrutura alertava para o fim das poucas construções originais da época de inauguração da capital federal. Para preservar esse patrimônio histórico e evitar mais danos às casas, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa iniciou ações emergenciais na região, em 29 de março.


O trabalho envolve retirada de madeiras soltas ou podres, escoramento de estruturas, limpeza da área externa, além da poda e da retirada de uma árvore que compromete as casas. O período para concluir essa etapa é de 30 dias, segundo a pasta. Depois, terá início um processo licitatório para contratação de uma empresa especializada na revitalização de construções antigas em madeira. Após a finalização, o espaço será devolvido à comunidade local.


Para o secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues, a Fazendinha da Vila Planalto poderá servir como polo turístico e cultural. “A recuperação dela é mais do que uma necessidade. Ela é um sítio histórico importante de Brasília”, ressaltou o chefe da pasta, que acompanha de perto as obras no local. “Estamos fazendo o trabalho de limpeza. Até enxame de abelhas e ninho de escorpião havia lá. Tivemos de parar um momento para fazer a dedetização e proteger a equipe que trabalha lá”, completou.

Futuro

Arquiteto da Secretaria de Cultura, Antônio Menezes Júnior afirma que essa etapa visa conter a deterioração das casas. “Três das edificações estavam em situação de pré-ruína. Estamos focando na eliminação dos fatores de risco”, pontua. Além da limpeza e do escoramento das estruturas danificadas, a Casa Lar Ampare — que não apresenta riscos estruturais — receberá serviços de revisão da parte elétrica e instalação de sistema para prevenção de descargas atmosféricas. “Com essa iniciativa, o governo cria vários meios para tornar essa área útil e recuperar um patrimônio tombado que faz parte da história de Brasília”, afirma.


O grupo de trabalho — formado pelas secretarias de Cultura e Economia Criativa, de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh), de Governo e pela Administração Regional do Plano Piloto — tem se reunido para definir o futuro das edificações recuperadas. “Vamos discutir com a comunidade da Vila Planalto, que é muito ativa, qual o melhor uso desses espaços. Mas, provavelmente, teremos um centro de cultura”, ressalta Bartolomeu Rodrigues. Ele acrescenta que toda a ação faz parte de um projeto maior, para melhora da Vila Planalto como um todo. “Nossa expectativa é de que, até o fim do ano, a cidade esteja de cara nova”, completa.

» Para saber mais

Legado

O nome da Fazendinha homenageia Pacheco Fernandes Dantas, engenheiro sócio de uma empreiteira com trabalhos-chave na construção da capital federal. A firma é responsável pela estrutura do Brasília Palace Hotel, inaugurado em 1958 — à época, conhecido como Hotel de Turismo. A Pacheco Fernandes deixou Brasília em 1963, com legado de obras no Palácio do Planalto e na edificação do Hotel Nacional. Em 1959, o acampamento de operários da empresa passou por um nebuloso episódio, que terminou com mortos e feridos após um tiroteio no local. Um grupo de policiais da Guarda Especial de Brasília (GEB) foi destacado para atuar no acampamento e tentar controlar a confusão. Após o ocorrido, porém, eles acabaram expulsos da corporação.

» Três perguntas para

Bartolomeu Rodrigues, secretário de Cultura e Economia Criativa

Qual a importância do complexo Fazendinha para a história candanga?
Embora Brasília tenha 60 anos, muita lembrança foi consumida pela modernidade da cidade. A Vila Mauri foi submersa pelo Lago Paranoá, e muitas das edificações da época da construção de Brasília foram se modernizando. A Vila Planalto sobreviveu a essas mudanças. Então, é preciso tratar com muito zelo essa região, porque ela é uma lembrança viva de Brasília, assim como o Catetinho e o Museu Vivo da Memória Candanga, que era um hospital. Se não cuidarmos dos patrimônios históricos, corremos o risco de perder o passado da cidade. É preciso ter um carinho muito especial, como se estivéssemos visitando os pioneiros. E a Vila Planalto tem grande potencial para o turismo. Brasília é muito mais que turismo cívico.

O Museu da Arte de Brasília (MAB), mesmo na pandemia, está finalizado. Quando será a abertura?
A expectativa de entrega é para 21 de abril. Um presente para o aniversário de Brasília. O MAB está ligado à história da arte de Brasília, e queremos evidenciar a produção artística da capital federal com um espaço totalmente modernizado por dentro. Mantivemos a arquitetura do museu, mas o equipamos com tudo o que há de moderno na questão museológica, além de adotar um conceito ecológico. Temos, ainda, a ideia de reinaugurar, com o MAB, a Concha Acústica, bem próxima ao museu. Existe um grupo de trabalho para criar um complexo cultural entre os dois pontos, e isso vai dar um novo visual àquele espaço na beira do Lago Paranoá. A região vai ficar muito valorizada.

Quais as prioridades do senhor para este ano, apesar das dificuldades provocadas pela covid-19?
O ano passado foi de reinvenção, em razão da pandemia. Para 2021, contamos com um pacote de entregas, uma delas é a Sala Martins Pena do Teatro Nacional, além do MAB, do projeto de revitalização na Vila Planalto, entre outros. Em abril, vamos lançar o maior edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Serão mais de R$ 50 milhões contemplando todas as linhas de manifestação cultural possíveis. Entre eles haverá a categoria Meu Primeiro FAC, com o intuito de descentralizar os recursos.

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