Religião

São Jorge: Igreja em Taguatinga faz celebração adaptada à pandemia

Pelo segundo ano consecutivo, igrejas adaptaram as celebrações do dia do santo guerreiro. Na Paróquia dos Milagres, em Taguatinga, a longa procissão e a quermesse foram substituídas por missas mais vazias e venda de marmitas. Fiéis compareceram para professar a fé e a gratidão ao santo das causas urgentes

Jéssica Moura
postado em 24/04/2021 06:00
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Mais uma vez, a necessidade de distanciamento social alterou a festa para celebrar o dia de São Jorge. A aglomeração de fiéis, em outros anos, na Paróquia dos Milagres, em Taguatinga Norte, deu lugar a um cenário diferente em 2021. Diante do avanço da pandemia da covid-19, poucas pessoas puderam ficar dentro da igreja, e muitos bancos estavam vazios.

Na entrada, um termômetro media a temperatura dos que chegavam e, desta vez, não houve transmissões virtuais da missa. Em vez do encontro de centenas de fiéis na saída da igreja, os shows com cantores e a confraternização na quermesse, ontem, marmitas de galinhada e feijoada eram vendidas na lanchonete da igreja depois da missa das 9h e antes da celebração das 19h.

“A gente teve de se readaptar”, explica o padre Dario Brasil, que celebrou a missa em homenagem ao santo padroeiro da igreja. “Mudou muito. Tinha festa, cantor, muitas barraquinhas, muito encontro, aquele abraço quando a gente se via na igreja. Tinha muita alegria”, lembra a vendedora Maria Auxiliadora Silva, 52 anos.

Com o surgimento da crise sanitária, no ano passado, que coincidiu com a data da festa, a comemoração já tinha sofrido impactos. Em 2020, o grande evento foi cancelado com a edição do decreto do governador Ibaneis Rocha (MDB) que proibiu o funcionamento de igrejas e templos religiosos. Por isso, no ano passado, a paróquia fechou as portas, e poucos fiéis foram para frente do templo para não deixar a data passar em branco e fazer uma oração. Em 2021, com a flexibilização de restrições, templos religiosos voltaram a funcionar com público reduzido, já que foram considerados essenciais.

“Não dá para negar que tem um baque. A gente celebrava e fazia transmissões ao vivo. Pelo WhatsApp da igreja, as pessoas pediam oração. É também um incentivo para as pessoas não deixarem de acreditar”, ressalta o padre Brasil. O seminarista local João Vieira, 21, tem esperança no futuro. “Uma hora a gente estará com o evento enorme novamente”, diz.

Graças alcançadas

“A gente não pode parar, tem que continuar homenageando, porque é uma devoção”, explica o seminarista Charbel Gomes, 18 anos. Ele é devoto de São Jorge desde os 8, quando sofreu um traumatismo craniano depois de uma queda. Preocupada, a mãe dele se voltou ao santo guerreiro em busca de apoio e cura para o filho. “Ia ficar de cadeira de rodas. Até hoje, nem os médicos entenderam. Mas fui salvo, e estou aqui”, relata o jovem.

Foi com essa tônica que a vendedora Maria Auxiliadora participou da comemoração, apesar da pandemia. “É gratidão com os pedidos que a gente faz e ele recebe”, diz. Quando as vendas caíram e o dinheiro apertou, foi a São Jorge que ela recorreu. “Eu pedia: meu São Jorge, aparece aqui, agora, com sua espada, para que essas vendas sejam abertas. Imediatamente, uma pessoa me chamava para comprar uma mercadoria. É assim, urgente mesmo. Sempre na hora que você pede, não demora muito tempo. Mas tem de pedir com muita fé, que ele resolve. São Jorge é muito forte”.

Auxiliadora passou a frequentar a paróquia em 2005, e, desde então, não perde uma festa do santo guerreiro. “Mesmo assim (na pandemia), dá para celebrar. O que nos move é a fé, e a fé não costuma falhar”. Em casa, ela sempre acende uma vela e reza um terço para São Jorge. “É muito importante para o dia começar feliz, cheio de bênçãos e de graças”.

O padre Brasil defende que, nesse contexto de crise, se voltar para a espiritualidade é uma ferramenta para atravessar o momento atual. ”Essa pandemia pode despertar a fé adormecida. As pessoas precisam se voltar para Deus”, afirma. “Agora, a gente tem de usar máscara e sente falta de ver o sorriso da pessoa. Mas, em compensação, a gente pode olhar nos olhos. O dragão que está sendo combatido é o da pandemia, e também o da incredulidade”.

História

O dia de São Jorge é celebrado em 23 de abril porque, nesta data, no ano 303, o militar foi morto pelos romanos por defender os cristãos. Nascido na Capadócia, na Turquia, São Jorge teria integrado o exército de Roma sob o comando do imperador Diocleciano. Convertido ao cristianismo, ele se opôs à perseguição dos seguidores da religião, e foi morto na Palestina.

O relato religioso dá conta de que ele derrotou o dragão que oprimia o povo. As estátuas do santo representam o triunfo dele sobre o mal. A mitologia em torno de São Jorge ganhou ainda mais força durante as cruzadas, na Idade Média. Por isso, é o padroeiro dos militares.

Religiões

São Jorge é uma das principais referências da Igreja Ortodoxa. “É exemplo de fé, força e de coragem. Eu morei na Síria para fazer parte dos meus estudos do seminário. Em todas as igrejas que visitei lá, sempre tem São Jorge”, lembra o padre Brasil. “Vim para essa paróquia por causa da devoção”, complementa.

O santo guerreiro também é um ícone para os católicos romanos e as congregações anglicanas. Por isso, é padroeiro da Inglaterra, de Portugal, da Catalunha e do Rio de Janeiro. Na cidade carioca, a data é feriado local. O culto a São Jorge desembarcou no Brasil junto com os portugueses. Foi por ordem de Dom João I, em 1387, que a imagem do santo passou a integrar as procissões de Corpus Christi em Portugal.

Na umbanda, religião de matriz africana em que se cultuam os orixás, São Jorge é Ogum, guerreiro e senhor da guerra, que se sobrepõe às adversidades. É com a espada que ele afugenta os inimigos e amplia os caminhos dos fiéis. Nessa concepção, é tido como o protetor dos metais. Os filhos de Ogum são reconhecidos por sua energia para lutar pelo que desejam.

  • Padre Dario Brasil, da Paróquia dos Milagres, em Taguatinga, celebrou ontem
 missa em homenagem ao santo das causas urgentes
    Padre Dario Brasil, da Paróquia dos Milagres, em Taguatinga, celebrou ontem missa em homenagem ao santo das causas urgentes Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
  • A vendedora Maria Auxiliadora é adoradora de São Jorge desde 2005
    A vendedora Maria Auxiliadora é adoradora de São Jorge desde 2005 Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
  • Seminaristas Charbel Gomes (E) e João Vieira também são devotos do santo
    Seminaristas Charbel Gomes (E) e João Vieira também são devotos do santo Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
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