Crônica da Cidade

por Severino Francisco
postado em 10/06/2021 23:25

Lina Bo Bardi

Na semana passada, ao ser indagado sobre Lina Bo Bardi, que acabara de ser distinguida com o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza de 2021, prêmio mais importante da arquitetura, o secretário especial de Cultura, Mario Frias, respondeu que desconhecia a arquiteta. Vivemos tempos de ignorância-ostentação.

Ao anunciar o prêmio, o curador do evento, Hashim Sarkis, afirmou: “Se há alguém que representa melhor que qualquer outro o tema da Bienal deste ano, Como viveremos juntos, essa arquiteta é Lina Bo Bardi”. E mais: “A sua carreira de projetista, editora, curadora e ativista nos lembra do papel do arquiteto como coordenador, bem como, aspecto importante, criador de visões coletivas”.

Lina pertence à linhagem dos italianos que se converteram em ítalo-brasilianos pelo amor à cultura brasileira. Li a excelente biografia O que eu queria era ter história, escrita por Zeuler R. Lima (Cia das Letras), resultado de mais de 20 anos de pesquisa. Um dos aspectos que me impressionou foi a conexão entre a designer, a ilustradora, a editora, a curadora e a cenógrafa, todas convergindo para a arquitetura.

Nascida em Roma, em 1914, chegou ao Brasil com Pietro Bardi em 1946, com uma bagagem de inquietações suscitadas pelo intenso debate sobre a função social da arquitetura na reconstrução da Itália depois da Segunda Guerra Mundial.

O período mais feliz para ela foi o que viveu em Salvador, onde experimentou a conjunção da cultura popular e da vanguarda deflagrada pela Universidade da Bahia, comandada pelo reitor Edgar dos Santos. Lá, modernizou o meio cultural de Salvador e se tornou uma artista brasileira, convivendo com Glauber Rocha, Mário Cravo Jr. e Martim Gonçalves.

Ao fazer a cenografia do espetáculo Ópera dos vinténs, de Brecht, sob a direção de Martim, decidiu montar o espetáculo em cima dos escombros do Teatro Castro Alves, atingido por um incêndio, naquele período.

Os projetos dela se distinguem pela interação com a natureza, a capacidade de incorporar as circunstâncias ambientais e o desejo de comunhão coletiva. Gostaria de morar em uma casa semelhante à Casa de Vidro, que ela projetou em uma colina no bairro do Morumbi, em 1951. É vazada de luz, perpassada pelos jardins e permite aos habitantes vivenciar as tempestades ou o sol a pino, abrigados.

O prédio do Museu de Arte de São Paulo, erguido com concreto e vidro, está aberto para a cidade. Com olhar de artista, ela empreendeu a inovadora reforma do Solar do Unhão, em Salvador, velho conjunto colonial degradado que se revitalizou em núcleo cultural. É linda a escada de madeira que criou, inspirada nos carros-de-boi, parece uma escultura incrustada no meio do prédio.

O engenho para projetar uma obra a partir das circunstâncias chega ao ápice no Sesc Pompéia, em São Paulo, criado em cima de uma antiga fábrica. Lina não pertenceu a nenhum grupo dominante da arquitetura brasileira. Traçou um caminho árduo de estrela solitária.

Em um primeiro momento, Lina criticou o formalismo da arquitetura de Lucio Costa e Oscar Niemeyer em Brasília. Mas, no fim da vida, reviu a opinião em uma conferência: “Eu acho Brasília maravilhosa e costumo dizer que, sem Brasília (…), o Brasil seria ainda uma republiqueta sul-americana”.

Como bem disse Cartola, quem gosta de homenagem póstuma é estátua. Mas a homenagem da Bienal de Veneza fica para o nosso país. E chama a atenção para o legado que ela deixou. Nós precisamos conhecer melhor a obra dessa artista extraordinária, que tanto amava o Brasil.

 

 

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