Saúde dos olhos

Olhos secos: saiba como amenizar o impacto do clima desta época do ano

Junho é mês de alerta do ceratocone, uma doença que causa aumento da curvatura da córnea e pode levar a cegueira

Jonatas Martins*
postado em 12/06/2021 07:00

Com a chegada do período da seca, a população do DF sofre com a baixa umidade e é comum o aparecimento de problemas nos olhos. Isso pode ser ainda pior com a exposição contínua às telas de celulares e computadores, o que se tornou habitual com a pandemia e o home office. As principais complicações estão relacionadas à coceira e a falta de umidade nos olhos. Saiba como amenizar esses impactos na sua visão.

Síndrome do olho seco

De acordo com Renata Magalhães, especialista em córnea e cirurgia refrativa do Hospital dos Olhos INOB, a síndrome do olho seco acontece "quando há evaporação excessiva das lágrimas e/ou sua produção é insuficiente". E fatores como a falta de chuvas e a baixa umidade relativa do ar podem "acelerar a perda de lágrimas e causar sintomas mesmo em olhos normais".

A médica explica sobre a importância das lágrimas: "O filme lacrimal é essencial para a nutrição, lubrificação e proteção das estruturas oculares, além de exercer importante papel nas propriedades óticas do olho".

Os principais sintomas da síndrome são ressecamento da superfície do olho, visão embaçada, ardência, coceira, vermelhidão, maior sensibilidade à luz, cansaço na vista e sensação de corpo estranho (como cisco e areia).

"Normalmente, eles são progressivos ao longo do dia e pioram em determinadas condições como, por exemplo, ambientes com ar-condicionado ou quando se trabalha muitas horas diante de um computador", afirmou Renata.

Algumas medidas podem ser adotadas para minimizar esses sintomas como o uso de umidificadores de ambiente, evitar que o ar-condicionado ou ventilador fiquem direcionados ao rosto, programar pequenos intervalos durante o uso de telas. A especialista relata que em alguns casos, também se tornam necessários a utilização de colírios ou até mesmo anti-inflamatórios e antibióticos. Em situações mais específicas é possível fechar pontos lacrimais, diminuindo a drenagem da lágrima para que permaneça mais tempo no olho, mas somente um oftalmologista pode fazer definir o que é mais indicado para cada caso, segundo a especialista .

A oftalmologista conta que o uso contínuo e prolongado das telas pode reduzir a frequência das piscadas, atrapalhando a distribuição das lágrimas no olho e comprometendo a lubrificação da superfície ocular.

A médica avisa que "usuários de lentes de contato estão particularmente sujeitos a desconforto, especialmente durante o período de seca já que a maior evaporação da lágrima vai aumentar o atrito das lentes com a superfície ocular podendo provocar irritação e até mesmo lesões corneanas".

De acordo com a Associação Brasileira de Portadores de Síndrome do Olho Seco (APOS), estima-se que de 13 a 24% da população brasileira apresenta o problema. Entretanto, para a oftalmologista, esse número deve se elevar por conta da pandemia, "já que o novo estilo de vida da população aumentou significativamente a utilização de computadores, tablets e celulares".

Segundo Renata Magalhães, "os casos mais graves da síndrome do olho seco podem levar à alterações permanentes da superfície ocular como aderências e cicatrizes podendo, inclusive, causar baixa significativa da visão".

Ceratocone e alergias

Rodrigo Santos, especialista em ceratocone e coordenador do Setor de Lentes de Contato do Hospital Oftalmológico de Brasília, explica que é uma doença ocular que causa um aumento da curvatura da córnea e da irregularidade do astigmatismo, gerando alterações na visão. Com a doença, a córnea apresenta uma saliência, em um formato semelhante a um cone.

“É uma doença que tem mecanismos genéticos associados, mas que depende da associação principal da alergia nos olhos, que pode ser relacionada com a rinite alérgica e também com a alergia na pele (dermatite atópica). Portanto, há a tendência genética do paciente e há o fator externo, que leva à manifestação e progressão da doença. Embora seja genético, fatores comportamentais podem agravar o ceratocone, como esfregar ou coçar o olho com frequência”, explicou o médico.

Ele ainda conta que a baixa umidade permite que a poeira e poluição fiquem mais tempo suspensos no ar, gerando aumento dos casos de alergia. A preocupação existe porque os “alérgicos integram o principal grupo de risco de portadores de ceratocone, doença ocular genética que danifica a estrutura da córnea, parte do olho responsável por cerca de 60% da nossa visão”.

No mês de junho é feita a campanha de conscientização e prevenção à doença, que tem como principais sintomas o embaçamento e a baixa visão. De acordo com Rodrigo Santos, o perfil é de pacientes jovens, “adolescentes e adultos jovens até os 30 anos, com associação de alguma alergia ou coceira nos olhos” e “pessoas com Síndrome de Down também apresentam maior predisposição”. A melhor forma de prevenção à doença é, justamente, evitar coçar os olhos e fazer consultas regulares com seu médico especializado.

O oftalmologista relata: "O que nos chama atenção, além desse perfil de paciente, é a questão de a pessoa ter um astigmatismo alto que, mesmo corrigido, não ocorre a melhora da visão. O desenvolvimento da doença é gradual e a velocidade da progressão depende muito de cada indivíduo e da associação à alergia. Quando o paciente tem o aparecimento do astigmatismo, continua coçando os olhos e não procura o oftalmologista, a tendência é que a condição piore".

Ceratocone não tem cura, mas há vários tratamentos disponíveis para o paciente conforme o grau da doença. De acordo com o especialista, o primeiro aspecto da abordagem é evitar a piora, sem coçar os olhos e tratar a possível alergia ocular. O segundo aspecto são os tratamentos para a reabilitação visual.

Dependendo da condição do paciente, ele pode usar óculos de variados graus. Em casos mais graves, há o transplante de córnea. Porém o médico ressalta que “o transplante é a última opção, quando o paciente já tem uma córnea com uma curvatura muito extrema, um afinamento grande ou alguma cicatriz na córnea”. A intervenção só é usada em casos que outros procedimentos não tenham resolvido satisfatoriamente os problemas.

Rodrigo Santos recomenda procurar um especialista capacitado para dar a melhor abordagem para o problema e até sugerir as práticas necessárias. “Faça consulta e exames de rotina com seu médico oftalmologista, se necessário vá a um especialista em córnea e ceratocone, porque há vários tratamentos para ajudar a melhorar a visão e a qualidade de vida, evitando a progressão da doença. E lembrem-se de não coçar os olhos. Esse é um hábito para se levar para o resto da vida”, concluiu o médico.

* Estagiário sobre a supervisão de Roberto Fonseca

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