Entrevista / Rosa Maria de Matos, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia

Queda de cabelo é comum no pós-covid

Segundo a especialista, os pacientes mais acometidos são mulheres. A médica destaca outras implicações na pele ligadas à doença

Samara Schwingel
postado em 01/07/2021 22:38
 (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Queda de cabelo exagerada é comum entre pacientes que se recuperaram da covid-19. De acordo com Rosa Maria de Matos, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, esse problema atinge de 8% a 50% dos recuperados e precisa ser tratado com medicamentos e acompanhamento médico. Em entrevista, ontem, ao CB.Saúde — parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília — a especialista explicou como a mucormicose, o conhecido fungo negro, atinge os pacientes com covid-19. “E, na verdade, é um fungo que temos no pão com bolor, mas o desenvolvimento dessa doença precisa que a imunidade desse indivíduo esteja bastante comprometida”, disse à jornalista Carmen Souza.

Alguns estudos apontam que, pelo menos, 25% dos infectados enfrentam queda de cabelo. É isso que a senhora tem visto nos consultórios?
O quadro inflamatório é tão intenso e, às vezes, nem tem correlação com a gravidade da manifestação da doença (covid-19). O que temos visto é que ela (covid) gera um processo inflamatório no folículo, e o paciente pode evoluir, geralmente em 90 dias após a infecção, em sua maioria em mulheres, e é um quadro que impressiona. É muito aguda a queda de cabelo. Os estudos mostram que isso pode variar de 8% a 50% dos pacientes acometidos pela covid. É muito comum.

Quando perceber que a queda de cabelo está passando do ponto?
O ciclo capilar tem uma fase de nascer, crescer e um período de queda. E, no frio, costumamos ter um pouco mais de queda. Mas, se habitualmente você tem 100 ou 150 fios caindo, você nota muito mais e espontaneamente. Não só ao lavar, mas na mesa, no chão, no travesseiro. Então, isso chama a atenção. E se nota uma grande rarefação da área, ou seja, menos pelo por área. Todo o couro cabeludo pode estar acometido.

E isso pode surgir depois de três meses da cura da covid-19?
Exatamente. No caso da covid, ele é extremamente agressivo. E esse intervalo de 90 dias é o mais comum.

E como é feito o tratamento?
O tratamento precisa de diagnóstico. Vamos fazer o exame do couro cabeludo. Vamos fazer o teste do puxão, que chama a atenção porque são muitos fios que se soltam facilmente. Alguns casos têm a necessidade de fazer exames laboratoriais, checar o estado de saúde do paciente após a covid. O tratamento pode ser medicamentoso. Uma coisa comum é o paciente chegar dizendo que está tomando vitamina. Vitamina, na verdade, não é tratamento de queda de cabelo. Então, pode haver a necessidade de se aplicar substâncias para estimular o crescimento do pelo e tomar medicamentos que deem uma freada na queda e, posteriormente, ajudar na recuperação dos pelos.

Há a possibilidade da não recuperação do cabelo?
Os estudos mostram que não é uma doença que destrói o folículo de maneira definitiva. Então, ele costuma ser transitório. O tempo de recuperação é variável na maioria dos pacientes, em um prazo de 90 dias, a gente tem interrupção da queda e se nota novos pelos crescendo.

E sobre as manifestações cutâneas ligadas à covid, o que a senhora tem percebido mais?
Existem algumas manifestações da pele que chamam a atenção. Por exemplo, o exantema é comum. A urticária também, aquelas placas elevadas, avermelhadas e que aparecem e somem, podem estar relacionadas com a covid. Manifestações vasculares, inchaços, placas avermelhadas nas extremidades são outras características da covid. São manifestações, mas inespecíficas. Então, é preciso pensar para dar o diagnóstico.

Sobre o fungo, a mucormicose. É raro, mas preocupante, certo?
Esses pacientes que estão graves em UTIs começaram a desenvolver áreas de necroses na região central da face. É um quadro extremamente agressivo e é uma infecção oportunista. Então, acomete um indivíduo que está com a imunidade comprometida, dentro de um ambiente hospitalar. E, na verdade, é um fungo que temos no pão com bolor, mas o desenvolvimento dessa doença precisa que a imunidade desse indivíduo esteja bastante comprometida. E há a necessidade de uma ação urgente para tratá-lo. O tratamento é cirúrgico. Ele tem que ser removido e, juntamente a isso, usar uma medicação hospitalar.

Agora, sobre prevenção. O uso de máscara e álcool em gel tem gerado reclamações mais estéticas, certo?
Certo. O uso da máscara acaba criando um ambiente um pouco mais úmido e oleoso na face. Porém o uso da máscara é indispensável. Então, vamos evitar cremes, hidratação exagerada, maquiagem. É melhor o uso da máscara do que ficar exposto ao vírus. Já o álcool em gel é mais fácil. Ele acaba ressecando as mãos, mas água e sabão também resolvem muito bem o problema.

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