Entrevista

Terceira onda no Distrito Federal está próxima, alerta infectologista

Ao programa CB.Saúde — parceria do Correio com a TV Brasília —, infectologista Ana Helena Germoglio falou sobre como Distrito Federal precisa se preparar para uma iminente alta de casos e mortes

Rafaela Martins
postado em 30/07/2021 06:00
Médica conversou com a jornalista Carmen Souza nessa quinta-feira (29/7) -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Médica conversou com a jornalista Carmen Souza nessa quinta-feira (29/7) - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A especialista em infectologia Ana Helena Germoglio alertou, nessa quinta-feira (29/7), que os brasilienses estão perto de enfrentar a terceira onda da covid-19. Com a chegada da variante Delta, o poder de transmissibilidade dessa cepa do novo coronavírus preocupa profissionais de saúde. A médica comentou, também, sobre as condições das pessoas afetadas pela forma mais grave da doença atualmente. “Antes, eles (os pacientes) chegavam com 10, 15 dias após o início dos sintomas. Agora, chegam com cinco ou seis. Assim, temos pouco tempo para nos preparar”, explicou, em entrevista à jornalista Carmen Souza, no programa CB.Saúde — parceria do Correio com a TV Brasília.

Teremos uma terceira onda? O DF está preparado para ela?
Que teremos a terceira onda, isso é fato. Talvez tenhamos muita coisa para melhorar, principalmente na quantidade de leitos. Eu posso, muito bem, criar vagas em UTI, mas não se faz RH (recursos humanos) de uma hora para outra. Uma UTI se faz com profissionais, e capacitá-los é difícil. Sabemos que esses pacientes (com covid-19) precisam de insumos. Desde que começou a pandemia, vários hospitais relataram essa dificuldade. Nenhum paciente deve morrer por falta de remédio ou leito. Morrer pela gravidade da doença é uma coisa, mas morrer por desassistência é algo criminoso, que não podemos deixar acontecer.

O infectado pela variante Delta fica mais grave?
Em tese, sim. Se compararmos a Delta com a variante inicial, de dezembro de 2019, lá na China, ela é 100% mais infecciosa. Se compararmos com a P1, que já causou muito estrago aqui em Brasília no início do ano, ela é de 30% a 35% mais infecciosa. Então, nossa perspectiva é de que esse paciente chegue mais precocemente ao hospital. Antes, eles chegavam com 10, 15 dias após o início dos sintomas. Agora, Esses pacientes chegam com cinco ou seis. Assim, temos pouco tempo para nos preparar. Vamos ver a curva de casos aumentar e, obviamente, em pouco tempo, a demanda hospitalar vai aumentar também.

O perfil dos pacientes mudou muito ao longo da vacinação?
Desde que as vacinas começaram a ser aplicadas, no começo do ano, é visível, principalmente para nós que trabalhamos no serviço de saúde, que o público mudou muito. Vemos que os pacientes que recebemos e estão com confirmação ou suspeita de ter a variante Delta têm um comportamento diferente. Eles têm um tempo menor de adoecimento, e isso preocupa. Houve uma redução de óbitos. Não temos mais idosos, pessoas com comorbidades, e, sim, um público novo que não se vacinou ou recusou se vacinar. Agora mesmo, tenho pacientes em UTI que não quiseram se vacinar. E eles podem contaminar outros que se vacinaram, infelizmente. A imunização não é um ato individual, e, sim, coletivo. Quando eu me vacino, também protejo outras pessoas.

Vamos ter um aumento significativo no número de mortes?
Na Europa e nos Estados Unidos, estamos vendo um aumento absurdo de casos, mas não acompanhado do aumento de mortes. Isso nos mostra que a vacina funciona. A diferença é que a Europa e os Estados Unidos têm mais de 50% da população vacinada, e nós não temos nem 20%. Então, muito provavelmente, teremos aumento de casos seguido do aumento de óbitos. Mas, em contrapartida, como temos quase 100% da população idosa vacinada e das pessoas com comorbidades (também), talvez, a demanda hospitalar não seja tão grande como vimos no começo do ano. Mas que teremos um aumento de casos, isso, sim, será inevitável.

Repensar práticas é necessário?
Repensar práticas e flexibilizações. Todo mundo está cansado, mas, se não estimularmos a população a manter as medidas não farmacológicas e se vacinar, vamos ver o mesmo filme do começo do ano: de superlotação, de pessoas morrendo sem vaga de UTI. É uma questão de aprendizado. Percebemos uma redução de óbitos, mas, principalmente, percebemos a mudança de público. Não temos mais os idosos com comorbidades. Temos tido um público novo que não se vacinou, e temos pessoas que se recusaram a vacinar.

Após seis meses de vacinação, no que erramos e acertamos?
Se tivemos um acerto, foi de colocar dentistas, enfermeiros e técnicos de enfermagem na linha de frente da vacinação, porque só eles sabem como é complicado coordenar isso. E tem muita coisa para consertar, principalmente essa grande confusão de agendamento. Mesmo que você não tenha agendamento, como várias cidades não têm, podemos ordenar que a vacinação seja por ordem alfabética, por idade, por gênero. Podemos criar vários mecanismos para facilitar o acesso da população e evitar que pessoas fiquem horas na fila. Tanto agora quanto no início, vários idosos ficaram na fila para vacinar. Esses são os grandes pontos chave, porque, no DF, há grandes grupos prioritários.

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