Solidariedade

Agosto Dourado: como doar leite, ato de amor que salva vidas

Coordenadora das Políticas de Aleitamento Materno e Banco de Leite Humano do DF ressalta que toda mulher que estiver amamentando é uma doadora em potencial e um pote de leite materno é suficiente para alimentar até 10 bebês.

Mariana Fernandes
postado em 26/08/2021 14:09 / atualizado em 26/08/2021 14:09
 (crédito: Agência Saúde DF/Divulgação)
(crédito: Agência Saúde DF/Divulgação)

As doações de leite materno são responsáveis por salvar a vida de centenas de recém-nascidos em todo o Distrito Federal. De acordo com a Secretaria de Saúde local (SES/DF), o número de contribuições tem aumentado, mas a necessidade é sempre presente. A máxima é “quanto maior o volume coletado, maior será o número de bebês atendidos”, informa a pasta.

Os dados coletados pela secretaria até o momento apontam que, até junho deste ano, os bancos de leite receberam 9.272 litros de leite materno. No ano passado, de janeiro a dezembro, foram arrecadados 17.976 litros. Esta margem mostra que as doações estão crescendo, mesmo com todas as dificuldades impostas pela pandemia.

Ainda assim, Miriam Santos, coordenadora das Políticas de Aleitamento Materno e Banco de Leite Humano do DF, faz um apelo às mães que estejam amamentando, para que ajudem a aumentar os estoques no DF. “Estamos necessitando de doações, pois a demanda este ano está maior que os outros anos. As mulheres que estão em casa e amamentando seus filhos podem ser doadoras de leite humano e serem solidárias com as mulheres que estão nos hospitais acompanhando seus bebês internados nas unidades neonatais. Elas estarão trazendo esperança para estas mulheres e um acalento na vida delas”, enfatiza.

“Leite Humano é a alimentação padrão ouro para todas as crianças. Para a criança que está internada na Unidade Neonatal e, por motivos variados, as mães não podem alimentá-las, ou mesmo extrair todo leite materno que elas precisam, o uso de leite humano de banco de leite humano é fundamental. Este alimento fornece nutrientes que promove crescimento e desenvolvimento e fatores de proteção para o sistema imunológico”, ressalta.

Ainda segundo a coordenadora, toda mulher que estiver amamentando é uma doadora em potencial, além disso, um pote de leite materno é suficiente para alimentar até 10 bebês. “Neste Agosto Dourado agradecemos a solidariedades das mulheres do DF e Entorno por serem solidárias e salvarem muitas vidas”.

Saiba tudo sobre como doar leite materno

A médica Mariana Carvalho, que é pediatra geral na Secretaria de Saúde no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) e sócia da RF Pediatria, explica a importância do leite materno e incentiva as mães a fazerem doações. Confira abaixo as dicas completas:

Qual a importância do leite materno?

A primeira coisa que eu acho importante ressaltar é que as pessoas devem saber que o Agosto Dourado tem esse nome porque o leite materno é considerado um alimento completo e padrão-ouro. Costumamos afirmar que o leite materno é um alimento vivo, ele é produzido conforme as necessidades do bebê. Então, é um alimento completo em teor de água, gordura e proteína.

Além disso, dentro do leite materno existem fatores que auxiliam no crescimento da microbiota intestinal. Assim, é a mãe que seleciona que tipo de bactéria ela quer que cresça na barriguinha do bebê para que ele seja saudável e tenha uma imunidade melhor. Importante ressaltar também que a mãe passa anticorpos pelo leite materno.

Por que é tão importante doar?

A doação é importante porque existem pacientes que precisam ser alimentados com esse leite completo. Principalmente bebês prematuros que estão internados em uma Unidade de Tratamento Intensiva (UTI), por exemplo, e que por vezes nasceram antes da mãe entrar em trabalho de parto ou que tenha a descida do leite prejudicada de alguma forma por conta da prematuridade.

Por ser um alimento completo, com imunoglobulinas e anticorpos, é melhor que o bebê prematuro receba esse “leite vivo” do que um outro artificial. Por isso, as mães que puderem se solidarizar e doar para os bebês que não estão podendo ainda mamar no peito, é uma decisão maravilhosa.

É seguro receber a doação?

O processo de um banco de leite é muito rigoroso. A mãe deve higienizar a mão até os cotovelos, retirar todos os adornos, higienizar as mamas apenas com água e realizar a ordenha. Esse processo pode ser manual ou com a ajuda de uma bombinha elétrica.

O ideal é que esse leite seja colocado em um pote de vidro esterelizado com tampa de plástico ou em saquinhos específicos para guardar leite. Feito isso, a mãe pode levar esse leite até um banco de leite ou até mesmo solicitar que busquem em sua casa.

No banco, o leite passa por um processo de pasteurização e são testadas também a presença de algumas doenças. Se tiver alguma sujidade, fio de cabelo, um grãozinho de poeira qualquer, esse leite para doação é então descartado. Ou seja, é um processo muito seguro para garantir boas condições a quem vai receber e muito criterioso a quem doar.

Quais os benefícios para a mãe e para o bebê?

O leite materno é importante em tudo. Desde o vínculo que ele vai ter com a mãe e até para manter o bebê hidratado. É um alimento nutricionalmente completo. Estudos mostram inclusive que bebês que ingerem leite materno possuem mais pontos de quociente de inteligência (QI).

A imunidade também fica melhor e se desenvolve menos chance de ter otites, pneumonias, bronquiolite, diarreias e gastroenterite. A longo prazo, também o risco de diabetes é diminuído na criança, assim como as chances de câncer de mama na nutriz.

Devemos lembrar também que, amamentar na primeira hora, logo quando o bebê nasce, estimula a produção do leite a ser mais rápida e desenvolve menos risco de hemorragias.

Quem não pode doar?

-Se estiver doente
-Se estiver tomando algum remédio
-Se estiver infectada com vírus de doenças graves, como HIV
-Se tiver consumido drogas ou bebidas alcoólicas

Existe uma quantidade adequada para doar?

A quantidade é quanto a mãe quiser e/ou puder. Vale lembrar também que é possível ir juntando esse leite ao longo dos dias, já que a validade é de 15 dias a partir do primeiro dia que ele foi congelado.

Passo a passo para doação de leite materno
Passo a passo para doação de leite materno (foto: Amamenta Brasília/Divulgação)

Gesto de amor

Daniella Freire, de 31 anos, é mãe do pequeno Samuel, de apenas três meses, e amamentar e, por consequência, poder doar e ajudar outros bebês, sempre foi um sonho. Ela enfatiza que o processo de adaptação nesta etapa, nunca foi simples, porém, com muita dedicação e carinho, tornou-se gratificante.

Ela conta que o bebê nasceu em um hospital particular de Goiânia-GO e que não teve nenhum acompanhamento sobre amamentação no local. “Ninguém me orientou adequadamente e o meu filho já saiu da maternidade com uma mamadeira. Nem o colostro eu consegui dar. Mas eu não fiquei satisfeita. Assim que eu cheguei em casa com ele, comecei a buscar ajuda nesse sentido”, lembra.

Com a ajuda de uma amiga e enfermeira, o processo começou a evoluir. “Até febre eu tive por conta do leite acumulado. Eu não conseguia tirar, doía muito. Mas, a vontade de ver meu filho mamar era maior e eu não desisti”.

Daniella Freire, mãe do bebê Samuel
Daniella Freire, mãe do bebê Samuel (foto: Arquivo Pessoal)

A partir daí, foi orientada a procurar também o Banco de Leite Materno de Santa Maria-DF, onde encontrou profissionais com vasta experiência e pode, enfim, amamentar e ajudar outras pessoas. “É um processo lento mas, se você tiver força de vontade, você consegue. Eu não desisti. Eu passei por muitos problemas durante a gestação, inclusive um luto muito doloroso, e fui adiante. Busquei ajuda no banco de leite, quando o Samuel tinha pouquíssimos dias de vida, e não desisti porque meu sonho de amamentar era maior do que qualquer dor”.

Hoje, felizmente, ela amamenta Samuel tranquilamente. “É uma sensação muito gostosa. Não foi fácil no começo. A romantização do ato é uma falácia. Dói, corta e machuca. Mas depois vale a pena e tudo passa. Hoje apenas sinto felicidade de poder amamentar meu filho e ainda doar meu leite para outros bebês. Eu vivi na pele o quão difícil é amamentar. E saber que meu leite está indo para cuidar de outras crianças que estão em UTIs tem um valor ainda maior. Tão bom poder ajudar!”


Bancos de Leite no Distrito Federal

Para garantir o acesso ao alimento, especialmente para os bebês cujas mães têm dificuldade na produção, ou que estão internados em UTIs, existem os Bancos de Leite Humano. No Distrito Federal são dez em funcionamento, além de três postos de coleta de leite. Confira aqui o mapa completo e encontre o mais perto de você!

A Secretaria de Saúde do DF informa também que se você está amamentado e deseja se tornar uma doadora, basta entrar em contato pelo número 160, opção 4, ou pelo site Amamenta Brasília. Após o agendamento, uma equipe do Corpo de Bombeiros irá até a residência da doadora para fazer a retirada.

Conheça a rota de coleta realizada pelos Bombeiros Militares do DF clicando aqui.


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