Obituário

Morre professora Lourdes Bandeira

Referência em estudos de gênero, a docente deixa contribuições inestimáveis sobre as relações desiguais a que mulheres são submetidas na sociedade patriarcal

Correio Braziliense
postado em 13/09/2021 22:48
 (crédito: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 25/4/16)
(crédito: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 25/4/16)

Brasília perdeu na noite de domingo uma das principais vozes de defesa das mulheres, a professora da Universidade de Brasília (UnB) Lourdes Maria Bandeira, 72 anos, por complicações de uma embolia pulmonar. Ela estava internada desde o dia 18 de agosto, quando passou mal em casa.

Docente no Departamento de Sociologia desde 2005 e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Mulher do Centro de Estudos Avançados Disciplinares (Nepem/Ceam/UnB), Lourdes era referência em temas como feminismo e violência contra a mulher.

Sob forte comoção de familiares e amigos, o corpo da professora foi velado e cremado na tarde de ontem no cemitério e crematório Jardim Metropolitano, em Valparaíso de Goiás. Leda Bandeira, irmã de Lourdes, contou, emocionada, que a professora era extremamente dedicada à vida acadêmica, aos alunos e à família. “Na vida, ela era uma referência de amor, dedicação e era ligada com a família. Dedicou a vida para o coletivo, formou diversos alunos nos seus 42 anos de profissão. É uma perda irreparável, nós conversávamos diariamente e trocávamos ideia. Ela era uma mulher engajada politicamente, muito bem formada. É uma dor que vai me acompanhar pela eternidade”, lamenta. Leda se orgulha ao falar do legado de Lourdes na academia e destaca que o trabalho da pesquisadora foi citado mais de 1,7 mil vezes em artigos acadêmicos no ano passado. Para Marcela Amaral, ex-aluna e orientanda, a professora marcou sua trajetória acadêmica e pessoal. As duas se conheceram em 2003, tornando-se amigas para além da academia. “Ela se tornou uma grande amiga e parceira de trabalho. Na minha leitura, ela tem um papel muito importante na trajetória de muitas pessoas, mas em especial de muitas mulheres. Ela tinha o dom de nos preparar para sermos mulheres fortes para enfrentar esses desafios. Acho que ficamos um pouco órfãs com a perda, ela sempre me deu colo”, destacou com a voz embargada. Outra ex-aluna e orientada, Marlene Teixeira conheceu a professora em 1993 e se emocionou ao comentar a trajetória feminista da professora na luta contra a violência à mulher e todos os aprendizados que teve ao longo dos anos. Marlene conta que a professora a incentivou a defender o doutorado mesmo com o filho recém-nascido no braços e amamentando. Viviane Resende, diretora do Ceam da UnB e colega de trabalho de Lourdes, destacou a importância acadêmica da pesquisadora e a falta que fará para os alunos. “Ela se dedicou muito à UnB. Não é à toa que se vê tantas homenagens a ela”, relata.

Trajetória

Nascida em Porto Alegre, Lourdes deixa três filhos e dois netos e a mãe, moradora de Porto Alegre (RS), com 96 anos. Lourdes Maria Bandeira concluiu a graduação no curso de Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1973. Logo após, obteve mestrado em Sociologia pela Universidade de Brasília-UnB no ano de 1978. A docente se tornou doutora em Antropologia pela Université René Descartes de Paris em 1984. Além disso, concluiu pós-Doutorado na área de Sociologia do Conflito na École des Hautes Études en Sciences Sociales também em Paris entre 2001 e 2002.

Atualmente, estava como membro do comitê editorial da Editora da Universidade de Brasília e desenvolvia projetos de pesquisa: Feminicídio no Brasil e Relações de cuidado e cuidadoras nas redes inter-institucionais de apoio às mulheres vítimas de violência. Atuou por uma década como Editora-chefe da Revista Sociedade e Estado. Em nota, a UnB lamentou com profundo pesar a perda da professora Lourdes e destacou a importância do papel da docente nas pesquisas realizadas ao longo da sua trajetória acadêmica.


Adeus a um pioneiro de Brasília

 (crédito: Arquivo Pessoal)
crédito: Arquivo Pessoal

Na tarde de ontem, faleceu um dos pioneiros de Brasília, Joiro Gomes da Silva, aos 90 anos. Segundo familiares, Joiro estava acompanhado da cuidadora quando veio a óbito. O velório será hoje entre as 14h e 16h no cemitério Campo da Boa Esperança, capela 10. O sepultamento está marcado para as 16h30.

Nascido em Recreio (MG), em 1931, Joiro foi Secretário de Administração do Distrito Federal. Poucos anos depois, em 1969, assumiu o principal cargo da Secretaria de Governo do DF, onde ficou até 1974. O pioneiro também trabalhou como diretor administrativo da Infraero entre os anos de 1976 e 1982. Joiro ocupou diversos outros cargos na administração da capital até se aposentar como Procurador do DF em 1987.

Morador do Lago Sul, antes de fixar raízes na capital federal, ele residiu no Rio de Janeiro, onde cursou a faculdade de Direito na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). O sobrinho Raul Saboia recorda que os dois tinham projetos e lamentou a perda do tio, destacando que ficará com as recordações dos bons momentos vividos. “Exemplo de profissional competente e dedicado. Recentemente estávamos complementando mais um sonho, com a revitalização dos espaços físicos, lançamento de livro e vídeos, visando registrar para as novas gerações a continuidade e a importância do serviço solidário. Infelizmente, com seu falecimento, as homenagens serão eternizadas nos corações e nos projetos que cultivou ao longo de sua vida”, ressalta Raul que busca conforto junto à família com fé em Deus.

Joiro era casado com Maria Paula Frassinetti Gomes da Silva desde 1963. O casal não teve filhos biológicos. No entanto, nos últimos 15 anos, o casal se dedicava a cuidar de jovens carentes. Atualmente, quatro jovens moravam com eles, todos estudando com o apoio do casal. Raul destaca a admiração pelo tio por sua atuação cidadã e solidária na alfabetização de crianças carentes no Rotary Brasília e, nos últimos 25 anos, junto à Fundação Senhor Pires, em Independência (CE).

Durante vários anos, Joiro se dedicou a dar palestras e aulas para universitários e funcionários. Viajado, o mineiro conheceu todos os estados do Brasil, com exceção do território de Fernando de Noronha. Além disso, viajou para mais de 27 países ao longo da vida.


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