PANDEMIA

Total de trabalhadores que entraram para a informalidade no DF subiu 23% em 2021

O número de pessoas que recorrem a atividades sem carteira assinada aumenta com a pandemia do novo coronavírus. Conheça histórias de microempreendedores individuais que se reinventaram para sustentar a família

Renata Nagashima
postado em 28/09/2021 06:00
Nilzete Batista vende dindins na rua e afirma que negócio fez sucesso -  (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
Nilzete Batista vende dindins na rua e afirma que negócio fez sucesso - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Com a crise provocada pela pandemia, os brasilienses precisaram se reinventar para garantir o sustento da família. O mercado informal foi uma das principais saídas encontradas. Em 2021, de acordo com o Governo do Distrito Federal (GDF), o número de pessoas que passaram a trabalhar informalmente cresceu 23% em relação ao ano passado. Em 2021, o aumento no número de inscritos como Microempreendedor Individual (MEI) foi de 40.369, enquanto que, em 2020, foi de 33.278.

Vale qualquer negócio, da venda de guloseimas nos transportes públicos, de marmitas na rua a acessórios de celular. Em fevereiro deste ano, Nilzete Batista do Santos, 51 anos, foi demitida da empresa onde trabalhava como cuidadora de idosos, e a renda do marido, o taxista Hugo da Silva Santos Cruz, 64, não era suficiente para arcar com todas as despesas de casa. “Tem semanas que faço uma corrida só”, lamenta Hugo. Para contornar o problema, Nilzete uniu o útil ao agradável. Apaixonada por doces, ela teve a ideia de fazer dindim. “Peguei uma caixa de isopor pequenininha, enchi de dindim e fui para rua, ver no que dava, e acabou fazendo sucesso”, disse.

No Setor Comercial Sul, Nilzete estaciona o carrinho com o isopor e aguarda os clientes que compram o geladinho por R$ 2. O produto é gourmet, garante ela, ao explicar que é feito com ingredientes e sabores que fogem aos tradicionais. Ela conquistou a clientela e, em apenas duas semanas do novo negócio, teve que aumentar o tamanho do isopor. Satisfeita, diz que o trabalho informal, além de uma renda melhor, trouxe mais qualidade de vida. “É menos estressante, eu fico embaixo da árvore, converso com as pessoas. Faço o que gosto, que é mexer com doces. No meu antigo trabalho exigia muito, não só esforço físico, mas mental também.”

A história de Tainara Alves do Santos, 33, é parecida. Mas diferentemente do caso da Nilzete, o trabalho informal entrou na vida da família há 12 anos, quando a mãe dela sofreu um acidente de trabalho e ficou com uma deficiência na mão, a impossibilitando de trabalhar. “Minha mãe entrou em depressão, não conseguia mais ninguém que a quisesse contratar, por causa da mão dela”, conta. O único jeito seria começar um negócio por conta própria, foi quando Tainara sugeriu que começassem a fazer marmitas para vender.

O negócio cresceu rápido e, muito mais do que a renda da família, as marmitas trouxeram um novo sentido para a vida da família. “Minha mãe saiu da depressão e passamos a trabalhar juntas. O sustento da família vem desse trabalho. Crio meus dois filhos e faço faculdade com a renda das marmitas”, afirma Tainara.

Despesas

Maria das Graças Silva, 69, sempre foi comerciante, mas trocou a loja que tinha, na Feira dos Goianos, em Taguatinga Norte,por um espaço nas ruas, onde estende um lençol e vende sua mercadoria. “É muita despesa com aluguel e cobrança para todo lado. Vendendo pouco, não tinha como cobrir com as despesas e ter algum lucro. Faço o que posso para continuar ganhando meu dinheirinho”, conta a dona de uma barraca de chapéus.

Presidente do Conselho Regional de Economia, César Bergo explica que não foi apenas a pandemia que o mercado informal cresceu, sem carteira assinada. Segundo ele, a reforma trabalhista está fazendo com que muitas pessoas sem trabalho fixo busquem as atividades informais. Mas mesmo nessas atividades é importante muito estudo e avaliação da área em que a pessoa quer atuar. “A concorrência aumenta cada vez mais. O trabalhador informal tem que avaliar muito bem onde é melhor atuar, porque muitas vezes a oferta é maior que a procura. É necessário fazer planejamento, procurar sempre capacitação, quanto de investimento será necessário e se realmente vale a pena”. Bergo acrescenta que a tendência é de que nos próximos meses, com festas natalinas e décimo-terceiro salário, o mercado informal melhore.

Desemprego

De acordo com a última Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), divulgada em julho, se comparados os meses de 2020 e 2021, a taxa de desemprego total no DF teve diminuição de 2,9 pontos percentuais, passando de 21,6% para 18,7%. No entanto, 308 mil brasilienses estão sem trabalho.

Em nota, o GDF afirmou que entre as ações para beneficiar esse setor, está a não cobrança da taxa de registro para abertura de empresas, nem taxa de fechamento na Junta Comercial do DF (Jucis-DF), desburocratizando o procedimento. “O empresário fica livre para se readequar a outros modelos de empreendimento. O GDF também faz esforços para implantação do Balcão Único, acelerando o procedimento para licenciamento e liberando a viabilidade e licenciamento para empreendimentos de baixo risco”, destaca o texto.

Para saber mais

Agilidade

Tainara Alves cuida de dois filhos e faz faculdade com renda obtida por meio da venda de marmitas -  (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
crédito: Ed Alves/CB/D.A Press

Abertura de Microempreendedor Individual (MEI) deve ser feita pelo portal do empreendedor (gov.br/empresas-e-negocios). O MEI é um modelo simplificado de empresa criado para tirar do mercado informal trabalhadores autônomos, utilizado por quem trabalha por conta própria em atividades não regulamentadas por entidades de classe. Quando se torna MEI, o trabalhador autônomo ganha um registro no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e é enquadrado num modelo simplificado do Simples Nacional.

Se declarando MEI, o trabalhador informal tem acesso a créditos de forma mais fácil e com taxas especiais em alguns bancos. Geralmente, esses percentuais são menores justamente para incentivar o microempreendedor, facilitando o acesso ao crédito. Além disso, o MEI tem direitos e benefícios previdenciários, como aposentadoria por idade ou por invalidez, auxílio-doença, salário-maternidade e pensão por morte para a família. Para ter acesso a esses direitos, a contribuição do MEI é de apenas 5% do salário mínimo.

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