MEIO AMBIENTE

Seca, calor e ação humana colocam cerrado em risco: confira o que não fazer

Baixa umidade relativa do ar e altas temperaturas aumentam chances de propagação das chamas pela vegetação, mas ação do homem é necessária para dar início às queimadas. Na Chapada dos Veadeiros, incêndio florestal chega ao 10º dia nesta terça-feira (21/9)

Durante o período de estiagem, o resplandecente céu de Brasília ganha seus contrastes. Em algumas tardes, presenteia a população com belos pores do Sol; mas, ao longo do dia, fica marcado por uma névoa seca e densa, que divide espaço com poucas nuvens. O cenário é comum, principalmente, nos meses de agosto e setembro, quando as baixas umidades e as temperaturas elevadas castigam os moradores do Distrito Federal.

Além de acender alertas para a saúde, o tempo causa outra preocupação: o risco de incêndios florestais. Quando o horizonte é de calor e seca, há mais chances de surgirem focos de queimadas no cerrado. Só neste ano, o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) registrou 3.749 ocorrências desse tipo, que destruíram 14,6 mil hectares de vegetação — área equivalente a 20,5 mil campos de futebol.

Nos primeiros oito meses deste ano, o total ficou abaixo do verificado no mesmo período do ano passado: 9,45 mil hectares, contra 9,78 mil, em 2020, segundo o CBMDF. Ainda assim, para quem lida com o problema diariamente, a sensação de incômodo persiste. No início do mês, um incêndio florestal destruiu quase 10% da Floresta Nacional de Brasília (Flona). As chamas atingiram 806 hectares de uma área total de 9 mil, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A queimada durou dois dias.

De 1° de setembro até essa segunda-feira (20/9), houve 679 incêndios florestais na região da capital federal. Nesse período, eles atingiram uma área total de 5,17 mil hectares — correspondentes a 7,2 mil campos de futebol. No Park Way, por exemplo, algumas das queimadas têm afetado a fauna e a flora da região. Lá, a limpeza de lotes com uso de fogo tem expulsado famílias de capivaras e macacos das matas, devido à queima da vegetação natural. Com a mudança de direção dos ventos, o problema ainda oferece riscos para os moradores.

Arquivo pessoal - Queimadas. Park Way. Incêndios florestais. Chamas. Fogo causado pela ação humana.
Arquivo pessoal - Queimadas. Park Way. Incêndios florestais. Chamas. Fogo causado pela ação humana.
Arquivo pessoal - Queimadas. Park Way. Incêndios florestais. Chamas. Fogo causado pela ação humana.
Arquivo pessoal - Queimadas. Park Way. Incêndios florestais. Chamas. Fogo causado pela ação humana.
Arquivo pessoal - Queimadas. Park Way. Incêndios florestais. Chamas. Fogo causado pela ação humana.
Arquivo pessoal - Queimadas. Park Way. Incêndios florestais. Chamas. Fogo causado pela ação humana.

Também neste mês, regiões turísticas como Pirenópolis (GO), além do Parque Nacional de Brasília e da Estação Ecológica de Águas Emendadas, sofreram com queimadas intensas. Contudo, sozinhas, as altas temperaturas e a secura não são capazes de dar início às chamas, na maioria dos casos. “O combustível (para os incêndios florestais) é a vegetação seca nesta época, mas, sem o homem, não teríamos incêndios, mesmo com tanto calor e baixa umidade. O fogo precisa do ser humano”, explica Isabel Figueiredo, do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).

A especialista reforça que a situação climática do DF neste período do ano cria condições favoráveis para que as chamas, uma vez acesas, tomem grandes proporções. “Todo fogo na seca é de origem humana, pois não existe combustão espontânea. As condições de temperatura e umidade, com a adição de ventos fortes, comuns no Cerrado nestes meses, fazem com que o fogo se propague rápido sobre a vegetação, já muito seca”, observa Isabel.

Cuidados necessários

  • Não use fogo para limpar terrenos, lixo ou resto de podas de árvores;
  • Após fumar, sempre apague o cigarro por completo e descarte-o em local adequado;
  • Evite acender fogueiras ou levar itens capazes de produzir calor para áreas com vegetação;
  • Ao identificar um incêndio, procure um local seguro, distante do fogo e da fumaça. Em seguida, ligue para o 193 e indique o local exato do foco, se possível, com pontos de referência.

Saiba Mais

Nove dias em chamas

A região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, entrou no nono dia de queimadas nessa segunda-feira (20/9). Equipes do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO) e do Distrito Federal (CBMDF) trabalham no combate às chamas desde 12 de setembro, com brigadistas voluntários e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Coordenador da força-tarefa, o capitão da corporação de Goiás, Luiz Antônio Dias Araújo, afirmou que o grupo tenta debelar cinco focos ativos, concentrados na região da Área de Preservação Ambiental (APA) Pouso Alto.

Dos cinco, dois oferecem mais risco ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, na região que compreende a vila de São Jorge e o município de Alto Paraíso. Um dos focos está no extremo norte da área, na APA Pouso Alto. O segundo fica entre Ponte de Pedra, em Cavalcante, e a Fazenda Cascata, em Teresina de Goiás. “Há diversas frentes de combatentes nos dois pontos. Os outros três locais concentram serviços de monitoramento e vigilância, para garantir que não haja reignição (dos incêndios) e para que possamos declará-los extintos”, detalhou Luiz Antônio, em vídeo divulgado pela assessoria da corporação.

Até domingo (19/9), a área destruída pelas chamas somava 14 mil hectares, equivalentes a 19,6 mil campos de futebol. Também em vídeo, Bárbara Buttini, da Delegacia de Polícia de Alto Paraíso, destacou a falta de cuidado como causa do fogo. “É uma tragédia. O incêndio tem afetado flora, fauna, turismo, agropecuária, lavouras e, principalmente, moradores. Alguns focos são criminosos. Não por atos intencionais, mas por negligência na conduta de alguns”, criticou.

Além disso, ela considera não haver só um culpado pelas chamas: “Vejo todos empenhados em buscar um responsável, porque é mais fácil escolher um criminoso em vez de perceber que a culpa é de todos nós. Cabe tanto ao poder público quanto à população tomar cuidado durante as atividades de turismo e no controle de dejetos, bem como investir em recursos e pessoas para controle e mapeamento dos focos”, pontuou a delegada.

*Estagiária sob supervisão de Jéssica Eufrásio