Crônica da Cidade

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Correiopor Severino Francisco Braziliense
postado em 11/10/2021 00:35

Salvos pela ciência

Essa guerra de vacinas me fez lembrar de várias histórias, que se entrelaçaram. Meu pai, um sertanejo visceralmente pernambucano, não vivia longe de um sítio, uma chácara ou uma quase-chácara na cidade.
Certa vez, foi picado por uma jararaca, mas tomou soro antiofídico e não teve sequelas. Em um gesto de gratidão, capturava cobras venenosas em Goiás e doava ao Instituto Butantan, em São Paulo, para a preparação de soro antiofídico. As vacinas visam estimular a produção de anticorpos de defesa do corpo, enquanto os soros inoculam anticorpos previamente produzidos, prontos para a cura.
Meu pai lia revistas de ciência para fazer versos, visando a publicação de almanaques que vendia. Pastor presbiteriano, era imbuído de profunda fé religiosa, mas isso não criava nenhuma incompatibilidade com as luzes da ciência.
O mesmo ocorria com o meu sogro, o agrônomo Guarany Cabral de Lavor, que professava a doutrina espírita. Foi chefe do Departamento de Erradicação e Podas da Novacap. Tratava as plantas com tamanho desvelo que ganhou dos colegas de repartição o apelido de “pai das árvores”.
Se os netos ameaçassem matar as cobras do sítio em que morava, próximo a Cristalina, a sua voz atroava: “Peraí, seus bestalhões, vocês matam as cobras e depois os ratos farão a festa, a área ficará infestada de roedores.”
A fama de protetor dos animais chegou até o Ibama, que costumava despejar em seu sítio uma verdadeira Arca de Noé de bichos apreendidos: iguanas, jacarés, papagaios, tucanos, canarinhos, carcarás e cobras.
Durante mais de 30 anos, viajou pelo Brasil inteiro como topógrafo do IBGE e chegou a alguns lugares inóspitos pela primeira vez, como se fosse um bandeirante. Nunca havia sido picado por cobra.
Certo dia, o doutor Guarany foi até o rio, que passava a cerca de 30 metros do quintal.
Sempre trajava uma camiseta finíssima, calça de algodão cru e sandálias havaianas, como se fosse um São Francisco sertanejo. De repente, quando pisou em uma pedra, sentiu uma pontada no pé.
Logo, percebeu que tinha sido picado por uma jararaca. Matou a cobra, colocou em um vidro e correu para a sede do sítio. A sorte é que ligou para o filho, Ubiratan, o Birão, que morava próximo e estava em casa. Prontamente, Bira levou o doutor Guarany para um hospital de Luziânia, onde tomou soro antiofídico, a última dose que restava na instituição.
Ele se salvou e jamais ficou ressentido com a jararaca. Considerava que havia invadido o território da cobra, ela apenas se defendeu. Eu fico pensando qual seria a reação de certas excelências negacionistas se fossem picadas por uma jararaca. Misturar política com questões de saúde é um crime. Será que recusariam o soro antiofídico e prefeririam morrer sob a alegação de que é produzido pelo estado de um adversário político?

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