CIDADANIA

Empreendedorismo e solidariedade negra são focos de coletivos do DF

Projetos na capital têm dado suporte para integrantes da comunidade preta abrirem o próprio negócio. Iniciativas de empoderamento estimulam atuação profissional e fazem crescer a economia criativa do DF

Cibele Moreira
postado em 31/10/2021 06:00
Cecília e Rosimar fazem parte de coletivos que promovem a autoestima -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press)
Cecília e Rosimar fazem parte de coletivos que promovem a autoestima - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press)

Uma rede que conecta e fortalece negócios de pessoas pretas. Essa é a premissa do coletivo AfroEmpreendedor, criado em 2015 pelo brasiliense Diogo Reis, 30 anos. O morador de Brazlândia percebeu na própria dificuldade de abrir uma empresa a oportunidade de ajudar outras pessoas que, assim como ele, tem a vontade de empreender. A proposta ganhou força, e atualmente conta com participantes do mundo inteiro que se apoiam e fomentam a produção feita pela população negra.

Diego ressalta que o início do negócio próprio não é fácil. "Eu quebrei de diversas formas. Do jeito em que você tem que fechar a empresa e fica com um saldo positivo. Da alternativa de encerrar as atividades, vender tudo, para conseguir pagar as dívidas. E também no pior cenário que, mesmo vendendo tudo, ainda fica contas para pagar", pontua. "Todo esse processo é um caminho árduo. Tem que ter resiliência e persistência", finaliza o empreendedor que, em agosto de 2019, fundou o Banco Afro — a primeira instituição financeira com a identidade da população negra — criada para atender a demanda da comunidade.

As duas propostas vão contra a um sistema presente na realidade atual. "A sociedade é racista, ela quer manter a comunidade negra na parte braçal. O meu intuito é mudar isso. Dar a oportunidade para que as pessoas pretas possam ter independência e ter condições de abrir um negócio próprio", afirma Diego. "Se eu ajudo o meu irmão e ele consegue passar isso para a frente, vira uma roda que funciona por si só", destaca.

Com o AfroEmpreendedor, Diego Reis consolidou uma comunidade, que além de fomentar a produção dos participantes também dá suporte com programas de consultoria e oficinas para quem está iniciando no empreendedorismo. "Meu propósito é mostrar para as pessoas, por meio das consultorias, onde elas estão errando e apontar o melhor caminho para realizar o sonho de abrir um negócio", destaca.

Ações

E dentro do Banco Afro, essa população encontra um apoio e aporte para dar o passo inicial. "Eu sei o quão difícil é para uma pessoa negra conseguir um crédito em uma instituição bancária. Eu passei por isso. Eu tinha uma loja de tecnologia com um sócio, na época a gente precisava de um crédito para ampliar a empresa. Fiquei um ano tentando junto com o banco e não consegui. O meu sócio, que é uma pessoa branca, vendo a dificuldade foi tentar também. E no dia seguinte, o crédito estava liberado", relata.

Assim como o coletivo AfroEmpreendedor, o Banco Afro também tem uma vertente social com programas de capacitação para a população em vulnerabilidade social. O Pintar o Bem, em parceria com uma marca de tintas, promoveu durante a pandemia oficinas com técnicas de pintura, com o intuito de propiciar um novo ofício. A ação beneficiou 2 mil pessoas com o auxílio de R$ 600 para que elas pudessem ter condições de iniciar no ramo. O mesmo ocorreu com o projeto Marcenaria do Bem, que ensinou 4 mil pessoas com trabalhos manuais em madeira.

O banco busca ainda ressaltar o pequeno negócio, com uma vitrine virtual para movimentar a economia local, além de ter as operações financeiras com conta digital e oferta de maquininhas de cartão. Atualmente, a instituição tem mais de 50 mil correntistas e a expectativa para o ano de 2022 é crescer ainda mais.

Recorte social

De acordo com um estudo da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan-DF), 56,1% da população brasileira é negra. Os dados são referentes a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "Em números absolutos, o Brasil é o segundo país do mundo com a maior população afrodescendente, com quase 118 milhões de negros, atrás apenas da Nigéria", aponta o documento.

Na capital, o quantitativo de pessoas declaradas negras e pardas é ainda um pouco maior, com 57,6% (1.659.947), segundo o levantamento feito em 2018. A maior parte da comunidade negra reside em regiões periféricas do Distrito Federal. O estudo ainda aponta que 31,7% dos homens negros das regiões de baixa renda trabalham por conta própria. A análise confirma o que a Codeplan destacou em 2016, na pesquisa sobre o perfil do afroempreendedor no Distrito Federal. O empreendedor por necessidade.

Comunidade empoderada

Onze mulheres negras do Distrito Federal decidiram se unir com um propósito maior, fazer a diferença na vida de 26 famílias em vulnerabilidade social no Setor de Chácaras Lúcio Costa. O coletivo Mulheres Negras Baobás, criado em dezembro de 2020, tem desenvolvido um trabalho junto a comunidade local com a distribuição de cestas básicas e cestas verdes durante a pandemia, além de promover rodas de conversa e trocas de conhecimento com oficinas empreendedoras.

A professora aposentada e empreendedora Adelina Benedito, 52, levou para o projeto o programa 'Rainhas Coroadas' que busca o empoderamento feminino e a elevação da autoestima com turbantes. "A mulher é poderosa independente da cor de pele e textura do cabelo. Eu quero mostrar para elas (mulheres negras), que elas são lindas. Trazer esse resgate do autoamor", ressalta Adelina que também ensina as amarrações no tecido de malha para a criação dos turbantes. "A proposta é que elas aprendam e possam fazer e vender os acessórios como uma fonte de renda extra", destaca. Para aquelas que não têm condições de comprar os tecidos, Adelina faz a doação de sacolas com 30 peças para que elas possam revender. O programa 'Rainha Coroadas' iniciou em 2003, dentro de escolas públicas de Ceilândia. O objetivo era debater e ressaltar a beleza negra entre as alunas.

Parceira de profissão, a docente Rosimar Mauanda, 52, agrega o coletivo com ações voltadas para as crianças. Com oficina de confecção da boneca abayomi — boneca de pano negra feita com retalhos de tecido —, além de contação de história afro e empoderamento negro. "Eu fazia esse trabalho na Escola Classe 2 do Guará, com contação de história na biblioteca para alunos do Guará, Estrutural e Setor de Chácara Lúcio Costa. Agora estou dando continuidade dentro da comunidade", conta Rosimar que também é empreendedora com a marca Conexão África com a venda de acessórios e moda afro.

A servidora pública Cecília Luli, 60, atua com a frente política dentro do Mulheres Negras Baobás, promovendo rodas de conversa para debater o bem viver da população negra, o feminismo negro e as lutas contra o racismo. "O nosso trabalho não é de caridade, mas um ato político. A entrega de cesta básicas é uma necessidade, pois quem tem fome tem pressa. Mas temos desenvolvido ações de suporte para essas mulheres. Elas são guerreiras e sabem lutar com as dificuldades da comunidade. A nossa rede é uma troca", ressalta.

 

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