Crônica

Crônica da Cidade: Não troco meu "oxente" pelo "uai" de ninguém

"Muitos confundem essa pernambucanidade, esse bairrismo sadio, com mania de grandeza e, portanto, estranham o fato de sermos os únicos aqui a colocar nos carros adesivos da bandeira do nosso estado"

Ana Dubeux
postado em 03/11/2021 10:38
 (crédito: Allan Torres/PCR)
(crédito: Allan Torres/PCR)

Li com grande espanto e profunda incredulidade uma pesquisa que aponta o sotaque pernambucano como o quinto mais atraente do país. Quinto? Não pode ser sério. Tem coisa aí… Pensei em sugerir recontagem dos votos, mas um amigo do Recife me fez desistir. Deixa quieto, vão dizer que é mania de grandeza.

Sabe por quê? Vou repetir o que já disse aqui: piadinha que circula há anos na Internet acusa os pernambucanos de serem os mais megalomaníacos dos brasileiros e estarem no topo de um tal de IGPM (Índice Geral de Pouca Modéstia).

Apesar dos riscos, ignorarei os conselhos do pai do ex-secretário da Receita Federal Everardo Maciel, seu Luiz, que recomendava aos filhos omitirem o fato de serem pernambucanos para não humilhar os colegas. Sei o quanto me custará a revelação, mas não há como negar, sim, eu também sou pernambucana — sem falsa modéstia.

Nunca fomos muitos aqui em Brasília. Somos mais de 41 mil. Ultrapassamos paulistas, gaúchos, paranaenses, capixabas, acrianos, paraenses. Perdemos para mineiros, baianos, maranhenses, cariocas, cearenses e goianos. Mas isso é irrelevante. O curioso mesmo é que fomos os primeiros. Os primeiros, sim, o pioneiro número um do DF era um pernambucano. Brasília, que hoje se orgulha de ter a população nativa maior do que a de forasteiros, no princípio, era genuinamente pernambucana. E a região Nordeste é a que possui o maior número de migrantes por aqui.

Os nascidos aqui representam, segundo o IBGE, 56% da população. E tudo começou com um Zé de Caruaru. Modéstias às favas, é demais, não? Muitos confundem essa pernambucanidade, esse bairrismo sadio, com mania de grandeza e, portanto, estranham o fato de sermos os únicos aqui a colocar nos carros adesivos da bandeira do nosso estado e a pôr no celular o hino de Pernambuco, Imortal, Imortal.

Não é verdade que superlativamos tudo. Não é culpa nossa se muitas criações do estado estejam no Livro dos Recordes. O Galo da Madrugada é o maior bloco de carnaval do mundo: conduz 1,5 milhão de pessoas às ruas. A Paixão de Cristo de Nova Jerusalém é o maior teatro ao ar livre do planeta, e o São João de Caruaru — está no Guinness Book — é o maior do universo. O Diário de Pernambuco é o mais antigo jornal em circulação da América Latina.

Motivos não nos faltam, talvez nos falte certa dose de humildade, mas nem o pernambucano consegue ser perfeito.

A nossa extensa lista de vantagens não terminou: a maior avenida do país, a Caxangá, fica no Recife. O Santa Cruz, meu glorioso time, fez o primeiro artilheiro nordestino do Campeonato Brasileiro, Ramon, nos idos de 1973. Estudo da Fundação Getulio Vargas — que aponta as características econômicas de cada região, mostra que somos os mais eficientes no comércio (influência dos holandeses?). Ah, a primeira sinagoga da América Latina fica no Recife.

Vá lá: somos os primeiros também em campeonatos que não orgulham ninguém. Recife lidera a taxa de desigualdade social no país e abriga o maior polígono de maconha do mundo.

A primeira emissora de rádio da América Latina, a rádio Jornal do Commercio, tinha como slogan: "Pernambuco falando para o mundo". E já que estamos falando de sotaque, recorro ao meu imortal conterrâneo nordestino Ariano Suassuna: "Não troco o meu "oxente" pelo "ok" de ninguém!"

De onde vem isso, minha gente? Seu Luiz tinha mesmo razão. Melhor deixar quieto. Ah, ia quase me esquecendo: o primeiro operário a chegar à Presidência também é pernambucano. Sim, aquele tal do espetáculo do crescimento.

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