ENTREVISTA

"É importante entendermos qual o papel da máscara", afirma infectologista

Ao CB.Saúde, o médico Leandro Machado explicou que a porcentagem não vacinada da população pode prejudicar o combate à pandemia e enfatizou a importância da máscara para proteger a população

Samara Schwingel
postado em 05/11/2021 06:00
Leandro Machado, médico infectologista -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Leandro Machado, médico infectologista - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Após 10 meses do início da campanha de imunização contra a covid-19 no Distrito Federal, 55,94% da população de cerca de 3 milhões ainda não se vacinaram. Em entrevista ao CB.Saúde — programa do Correio Braziliense em parceria com a TV Brasília —, o infectologista Leandro Machado afirmou que essa parcela pode ser prejudicial no combate à pandemia. Além de beneficiarem a circulação do vírus, essas pessoas podem facilitar o surgimento de uma nova variante.

“A grande questão da covid-19 não é a pessoa ficar infectada em casa, com febre baixa e tomando seu remédio. É ela precisar de um atendimento hospitalar. Se eu tenho uma grande porcentagem da população que não foi vacinada e eu tenho um vírus circulando ainda, vou ter uma porcentagem da população com o risco de apresentar forma grave da doença e precisar de internação, oxigênio, intubação e sedação”, disse à jornalista Carmen Souza.

Leandro também defendeu o uso de máscaras e explicou que ainda não é o momento de pensar em desobrigar o item em locais fechados. “Se eu diminuo o número de pessoas com máscaras e o distanciamento social, eu vou ter novas pessoas se infectando, mesmo sendo vacinadas. Com isso, aumenta a chance de variantes", comentou o infectologista. Ele afirmou que a liberação em ambientes abertos precisa do bom senso das pessoas. "O importante é a gente conscientizar a população sobre o quê a não utilização de máscara pode gerar, tanto para ela quanto para outras pessoas", acrescentou. 

Chegamos em novembro com uma coincidência de fatores: retorno das aulas 100% presenciais, flexibilização quanto ao uso de máscara e distanciamento reduzido em bares. Como o senhor avalia esse novembro cheio de novas regras?

Cheio de novidades. Sobre a escola, é importante a gente entender que não teve nenhum estudo que mostrou que as aulas estavam relacionadas ao aumento de infecção, nem na Europa, nem nos Estados Unidos. Poderíamos ter voltado antes, mas com medidas de prevenção. A flexibilização para o fim do uso de máscaras é uma lei que a gente não consegue fiscalizar. Então, quem usa vai continuar usando com lei ou sem lei; e quem não usa vai continuar não usando. O importante é a gente conscientizar a população sobre o quê a não utilização de máscara pode gerar, tanto para ela quanto para outras pessoas. Nós sabemos que a vacina não impede a infecção, ela diminui o número de casos graves. Então, se eu diminuo o número de pessoas com máscaras e o distanciamento social, vou ter novas pessoas se infectando, mesmo vacinadas, e com isso aumento as chances de ter variantes. Então, é importante a gente entender qual é o papel da máscara.

Enquanto alguns países começam a repensar as regras de distanciamento, de uso de máscaras, a gente flexibilizou o uso para ambiente externo, e o GDF já fala sobre uma discussão de não obrigatoriedade de máscaras em ambientes fechados. Dá pra começar a pensar nisso aqui no Brasil?

Acho que ainda não. A gente precisa de um grande número de pessoas já vacinadas com a segunda dose e a dose de reforço para isso. Mas como eu falei, é uma lei que a gente não consegue fiscalizar, e acho que mesmo se falasse hoje "Não é obrigatório usar máscara", as pessoas continuariam usando máscara pela sensação de proteção que elas têm com a máscara.

A Alemanha, essa semana, disse que está vivendo uma epidemia de não vacinados, inclusive com os hospitais chegando ao limite de capacidade por conta dessa população. Essa também é uma realidade brasileira. Como os não vacinados interferem na pandemia?

A gente tem que entender que a grande questão da covid-19 não é a pessoa ficar infectada em casa, com febre baixa e tomando seu remédio. É ela precisar de um atendimento hospitalar. Se eu tenho uma grande porcentagem da população que não foi vacinada, e eu tenho um vírus circulando ainda, vou ter uma porcentagem da população com o risco de apresentar forma grave da doença e precisar de internação, oxigênio, intubação e sedação. Então, a gente superlota novamente o sistema de saúde por conta de pessoas que optaram por não se vacinar. A pessoa tem que entender que, se ela optar por não se vacinar, essa decisão vai impactar na vida de outras pessoas. É uma decisão pessoal, é uma questão filosófica se é ou não, mas é uma decisão que acarreta outras pessoas também. O que temos hoje de pessoas internadas em estado grave são pessoas não vacinadas. Então, hoje o serviço de saúde ainda demanda por conta de pessoas não vacinadas, por isso é importante vacinar todo mundo.

Isso serve também para quem não completou o regime vacinal?

Sim, a gente só considera uma pessoa vacinada se ela completar o regime vacinal. Então, é importante se vacinar. As pessoas dizem que não vão se vacinar por conta dos efeitos colaterais, mas convivemos com efeito colateral desde o início das vacinas. Quem está assistindo e tem filho pode comparar quando leva o filho ao pediatra e ele diz que a vacina pode deixar uma dor no braço ou febre. Então, esse efeito colateral sempre existiu. O efeito benéfico que é a proteção é muito maior do que o efeito colateral.

E sobre a possibilidade dessa proteção ter que ser reforçada regularmente. Isso vai acontecer com a vacina da covid-19, a aplicação periódica e regular?

Provavelmente, a gente percebeu que para os casos leves a proteção cai com seis meses. Então, provavelmente a gente vai vacinar de forma periódica similar à H1N1, e qual vai ser esse período a gente não sabe ainda. A covid-19 vai fazer parte da nossa vida assim como a dengue e a H1N1, porque não vamos atingir a imunidade de rebanho para conseguir erradicar a doença, porque a vacina não impede a infecção, ela diminui a chance de você se infectar, mas você continua se infectando e transmitindo para outras pessoas.

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