Crônica da cidade

Crônica da Cidade — Primos: com eles, vamos longe

"Ao longo da vida, fui com meus primos para lugares além do imaginado. Das concretudes e brincadeiras da vida de criança, mantive com alguns laços estreitos, um vínculo especial só permitido aos primos que se amam de longe, acompanhando, a uma distância próxima, a vida uns dos outros"

Ana Dubeux
postado em 08/11/2021 10:08 / atualizado em 08/11/2021 16:47
 (crédito: Arquivo pessoal/ Divulgação)
(crédito: Arquivo pessoal/ Divulgação)

Nos últimos meses, naveguei com Tamara Klink, filha de Amyr Klink e da minha prima Marina. Conduzida por suas palavras poéticas, eu e tantas pessoas pelo Brasil e o mundo, fomos levados a um mundo de mar e céu, sem fronteiras entre a emoção e um certo temor compartilhado.

Desde que Marina me disse: "Ela está indo...", fui junto. E foi uma viagem gloriosa, em que compartilhei os perrengues, a solidão, os momentos extremos de emoção. Tamara Klink tornou-se a brasileira mais jovem a cruzar o Atlântico sozinha em um veleiro.

A bordo do seu pequeno Sardinha, de 26 pés, a jovem velejadora saiu da costa da França para um trajeto de 4.200 milhas rumo ao Brasil. Por 17 dias, enfrentou o trecho mais difícil: a travessia entre Cabo Verde, na costa da África, e o Recife. O projeto vai render dois livros, mas antes disso já proporcionou tantos sentimentos em muitos que acompanharam a jornada solitária dela pelo Instagram @tamaraklink.

Até abraçar seus parentes e amigos, Tamara dividiu a solidão, os imprevistos, os medos e os sentimentos bons. Em uma das postagens, disse: "Hoje não sinto falta de nada ou ninguém. Deixo os pés mergulhados na água e assisto as algas castanhas, os peixes-pássaro, o sopro constante dos alísios. O protetor solar derrete na pele, o sol deixa as marcas das formas das roupas que eu visto. O nariz aponta para Recife. Os sonhos me transportam pro destino. Sonho com farinha de tapioca no meio das baterias e ferramentas, com amigos de infância, com as chuvas tropicais que criam lagoas no meio das cidades."

Foram muitos textos assim. Lindos, poéticos, emoção na ponta dos dedos, na voz. Marina, também uma aventureira, tratou de compartilhar. E com ela também fui... Pensei nas preocupações de mãe e nas mães que soltam as amarras dos filhos para viver, com eles, seus sonhos. Pensava aqui comigo: "Prima, que coragem!".

Ao longo da vida, fui com meus primos para lugares além do imaginado. Das concretudes e brincadeiras da vida de criança, mantive com alguns laços estreitos, um vínculo especial só permitido aos primos que se amam de longe, acompanhando, a uma distância próxima, a vida uns dos outros.

Acompanhar Marina e Tamara me deu um respiro bom depois da morte recente de duas primas tão queridas, as irmãs Iva e Yara. Iva era luz pura, a enfermeira que cuidou do meu pai por 10 meses na UTI, solidária, agregadora, amiga. Foi amparo de minha mãe e de meus irmãos por muitas luas, em lindos dias de sol e de chuva. Fala mansa, riso aberto, abraço forte… Tenho tantas histórias guardadas sobre elas e outros primos.

Primos são a rede de proteção da infância e, sem cobranças, quando nos dissolvemos Brasil afora pelas circunstâncias da vida, ficamos com aquele afeto formado por memórias que não se perdem. Com Marina, vivi a travessia de sua filha. Torci e me emocionei. Uma linda viagem que não acaba com a chegada do Sardinha em terra firme.

Ainda quero viajar muito com elas e com os outros primos, compartilhando notícias aqui e ali sobre as nossas famílias e sobre as andanças que a vida nos proporciona. Conviver não exige a presença constante. Não é só olho no olho e mão na mão. É coração no coração; pensamento no outro; memória que não se apaga.

 

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