ENTREVISTA

"É preciso viver o luto", afirma psicóloga especialista em estudos sobre a morte

Diante de um país devastado por mais de 610 mil vidas perdidas devido à pandemia da covid-19, psicóloga da Secretaria de Saúde do Distrito Federal ressalta a importância do respeito à forma de cada pessoa lidar com o processo da despedida

Thays Martins
Ana Isabel Mansur
postado em 12/11/2021 06:00
 Flávia Nunes Fonseca, psicóloga especialista em tanatologia -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Flávia Nunes Fonseca, psicóloga especialista em tanatologia - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Um país enlutado por mais de 610 mil mortes em decorrência da covid-19 e pela precoce e trágica perda  da cantora Marília Mendonça, uma das vozes mais ouvidas do Brasil. Em um curto intervalo de tempo, a população precisou lidar com a morte, e de forma muito presente. Nessa quinta-feira (11/11), no programa CB.Saúde — parceria da TV Brasília com o Correio —, a psicóloga da Secretaria de Saúde do Distrito Federal Flávia  Nunes comentou por que o assunto ainda é tabu. Especialista em tanatologia, o estudo da morte, ela  explica que o ser humano precisa aprender a enfrentar o luto. No entanto, o tema é complexo, e o  processo não é simples. Leia os principais trechos da entrevista, concedida à jornalista Carmen Souza.

De que forma os óbitos em decorrência da covid-19, no Brasil e no mundo, impactam nossa relação com a morte?

A morte é um tema complexo, com várias dimensões. Não é só a questão biológica. O que acontece quando nosso corpo deixa de funcionar, o que define estarmos vivos ou não? Há questões sociais, culturais e psicológicas. Neste momento, com o contato frequente e constante com tantos óbitos, inevitavelmente precisamos entrar no assunto. Porém, ainda é um tabu muito grande. Há diversas reações possíveis: distanciamento, fuga, não querer falar sobre nem entender, preocupação de que essa realidade possa chegar e vir antes do que imaginávamos...

Há um tempo, as despedidas eram dentro de casa, e até crianças participavam. O que passou a ocorrer para que evitássemos falar sobre isso?

Vejo muito essa relação com o desenvolvimento da tecnologia, essa nossa busca incessante pela cura a todo custo. A morte passa a ser vista como um fracasso. Quanto mais conseguimos prolongar a vida e curar doenças — o que, de nenhuma forma, é negativo —, mais temos dificuldade de lidar com o fato de que, em algumas situações, a morte se torna inevitável. A sensação de fracasso e de que a morte não deveria acontecer porque é algo errado faz com que nos relacionemos com a questão do adoecimento e do óbito de forma diferente.

Como identificar que o luto começa a ficar disfuncional?

Precisamos, primeiro, despatologizar o luto. É um processo normal e natural. O problema é ser um campo fértil para muitos julgamentos em relação ao que é certo ou errado, ao que é esperado. Muito se fala do tempo também. A licença que as pessoas têm no trabalho quando entes próximos morrem é um período curto, e não esperamos que a pessoa não esteja mais em sofrimento depois do afastamento. E há alguns fatores para verificar se é o caso de um luto que caminha para complicações. O natural é ficar em um movimento pendular, com horas mais tristes e de pensar sobre o que aconteceu, mas há espaço para alegria e retomar as atividades. É preciso verificar se a pessoa caminha para uma reorganização (da vida), embora apresente alguma reação de sofrimento, ou se fica mais no polo da tristeza e do trabalho de luto.

O Brasil perdeu Marília Mendonça recentemente e teve uma mobilização social imensa. Por que isso acontece?

A perda de alguém famoso fala da nossa própria dor. Se sou mãe, por exemplo, eu me lembro de que posso vir a faltar, a morrer e deixar meu filho. A morte de uma pessoa conhecida nos comove e atinge porque envolve simbolismos em várias dimensões, lembrando-nos de nossa própria finitude. Não estamos acostumados, no dia a dia, a lembrar que somos seres finitos. A morte não respeita nem uma pessoa famosa, jovem, no auge da carreira. Vem muito um senso de injustiça: até o herói pode morrer sem previsão nem possibilidade de despedida, sem concluir o que gostaria. Isso nos remete à impermanência da nossa própria vida. Vivemos tempos muito difíceis. E vou lembrar de uma música da Marília: "Todo mundo vai sofrer". Não é defender a sofrência, mas normalizar. Então, que tenhamos possibilidade de acolher nossas dores e viver nosso luto da forma que deve ser. E que peçamos ajuda caso precisemos.

A restrição aos funerais na pandemia foi uma das queixas de quem perdeu alguém próximo. Esses rituais são importantes no processo de enlutamento?

Sim. Eles têm vários papéis nesse momento. Têm a função, para os enlutados, de reunir a rede de apoio para receber suporte e prestar homenagem a quem faleceu, demonstrando, dentro de um grupo social, a importância da pessoa. Com o impedimento desses rituais, da forma como tradicionalmente ocorrem, a pandemia demandou que usássemos da criatividade e da adaptação. Não era a forma como gostaríamos.

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