Crônica

Crônica da Cidade: Sonhos que precisam ser retomados

"Fôlego, coragem e vontade de desbravar, nós tínhamos. Mas veio a pandemia e, com ela, o atropelo brusco do sonho"

Ana Dubeux
postado em 15/11/2021 00:01 / atualizado em 15/11/2021 09:30
 (crédito:  Alfredo Duraes/EM)
(crédito: Alfredo Duraes/EM)

Duas amigas e eu estávamos de malas, cuias, corpo e mente prontos para fazer o Caminho de Santiago. Escolhemos o trecho de Lisboa, a partir da Igreja da Sé até a praça do Obradoiro, em Santiago de Compostela, na Espanha, uma distância de aproximadamente 625 quilômetros.

Fôlego, coragem e vontade de desbravar, nós tínhamos. Mas veio a pandemia e, com ela, o atropelo brusco do sonho. Quase dois anos depois, cá estamos, Marta, Carlinda e eu, retomando os treinos, voltando a assistir a documentários, reorganizando a rotina para favorecer as intenções. Santiago não saiu das nossas cabeças, mesmo depois de tantos infortúnios e tristezas acumuladas nos últimos tempos.

Na verdade, as feridas expostas pelo vírus letal nos aproximaram ainda mais de uma ideia. "Para ver o que você nunca viu, é preciso andar por onde você nunca andou". Sobreviver a uma pandemia, de certa forma, ajuda a encontrar forças para recomeçar do zero — seja para refazer sonhos, repatriar sentimentos e vontades que pareciam ter ido embora; seja para dar fôlego novo aos negócios, aos planos profissionais, à vida amorosa e familiar.

Sorte minha e das minhas amigas que Brasília e Recife são duas cidades que nos convidam diariamente a fazer longas caminhadas. Carlinda faz os treinos na areia da praia, já a bancada brasiliense bate pernas ao longo das vastas pistas da capital da República. Marta faz corridinhas diárias ao redor da Octogonal e do Sudoeste. Eu andei a Asa Norte inteira e, agora, meu novo hobby é ir de casa para o trabalho a pé.

O lado bom disso é também conhecer o melhor da cidade e identificar mazelas pelas quais nem sempre o poder público se interessa. Sim, aqui e ali, temos calçadas detonadas, pontos de ônibus abandonados, lixo… Coisas que assustam e causam indignação, sobretudo na região próxima ao parque Burle Marx, nos fundos do galpão do Detran, onde se formou uma grande invasão. Governantes deveriam também caminhar pela cidade. Mas isso é assunto para outra crônica.

Caminhar traz a vida prática para dentro da CPU da mente. Organiza as pastas e os arquivos internos, joga fora o lixo mental e olha a vida com mais atenção, capacidade crítica e generosidade. Em algum momento, estarei exercitando as pernas e também os olhares por um novo caminho, cheio de surpresas. Não quero mesmo saber o que nos espera — a vida é instante e ver como ela se apresenta em cada circunstância é o melhor dos mundos.  

 

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