Crônica da Cidade

A saga de Clementina

Rodrigo Craveiro
postado em 21/11/2021 00:01

Clementina segurou a cruz até onde pôde. Doze filhos. O marido a abandonou por um rabo de saia de 18 anos, após ela parir o caçula. Soube, depois, que ele embuchou a jovem três vezes, antes de esquecê-la e trocá-la por outro rabo de saia. O sol inclemente do sertão de Pernambuco passou a ser a metáfora da vida de Clementina: esturricada no sofrimento, repleta de suor e com o coração de sulcos abertos por tantas lágrimas. Ainda assim, manteve-se de pé. Era forte demais para vergar. Era mulher de pele e coração curtidos no sertão, de mãos calejadas pela enxada e de rosto marcado pelos sulcos do tempo. Pelo menos pensava ser forte. Até que veio a miserável...

A fome foi quem verteu o peso da cruz. Clementina amava cada uma das crianças como se fizessem parte de si mesma. Foi de seu ventre que surgiram, foi de seu seio esquelético e murcho que sorveram vida. Foi de sua própria alma que fizeram sombra frondosa. Foi de seu sorriso sofrido e desdentado que encontraram um rumo e um sentido. Acharam a coragem. Foi da existência dos pequenos que fez sua própria existência.

Veio a fome, essa bicha ingrata, silenciosa, sorrateira. Clementina e os pequenos mudaram-se para Brasília. Armaram tenda num lote perto do Palácio do Planalto. A fome veio e começou levar todos os 12 filhos, um a um. Com pressa. Sem dizer nada. Sem mostrar o mínimo de compaixão. Nordestina, de força e de fé, Clementina tentou de tudo. Até matou cobra, calango e rato para alimentar os pequenos. Não adiantou. Quando sepultou o primeiro, percebeu que tinha sido enterrada junto.

Tão perto das benesses e das pompas do poder, e distante anos-luz delas. Perto dali, engravatados arrotavam caviar e olhavam para gente como ela com desprezo. Desiludida, Clementina decidiu voltar para Pernambuco. Sem Quinho, enterrado em meio aos arbustos, aos olhos do Planalto, quase às margens da água farta do Paranoá, em meio aos monumentos grandiosos da capital.

De volta para casa, Clementina tornou-se sertão. Perdeu tudo o que tinha. Mariozinho, Tonico, Joaninha, Jacó, todos os pequenos foram desistindo de viver. O vazio do estômago também esvaziou-lhes os dias que viriam. Ao pé da cova de Quinzinho, o caçula, Clementina, enfim, entregou os pontos. Clamou aos céus, pediu clemência. Chorou. Urro de mãe. Forte, intenso, visceral. Uniu as mãos, trêmulas, em sinal de prece. Virou árvore da caatinga. Seca, feia, triste. Fincou suas raízes solo adentro. Embalaram os corpos dos 11 filhos restantes. Foi então que Clementina brotou flor.

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