Um mistério brasiliense

Correio Braziliense
postado em 24/11/2021 00:01

Quando você chegou por aqui? Sou de uma época em que a pessoa usava essa frase como ponto de partida para uma conversa. A maioria havia chegado de algum lugar, e o tempo de casa era uma espécie de credencial para excelentes histórias. O pioneirismo era, para mim, e continua sendo uma fascinante vantagem, que nos faz viajar pelo tempo e imaginar Brasília pouco a pouco, sendo construída e reconstruída. A cada década, os nomes dos restaurantes na ponta da língua, as quadras que iam crescendo, as cidades surgindo ao redor daquele avião de concreto a rasgar o cerrado.

Brasília é um grande portal de histórias, contadas por sua gente e por muitos arquivos privados e públicos. Temos o privilégio, aqui no Correio, de guardar um dos mais valiosos acervos sobre a capital criada por Juscelino Kubitschek. O fato de o jornal ter nascido no mesmo dia da inauguração da capital reforça a responsabilidade de ser uma espécie de guardião de causos, contos, nomes e trajetórias. Somos, fomos e seremos testemunhas de muitos "tempos" de Brasília. Cumprimos, todos os dias, nosso dever e nossa paixão de levar toda essa narrativa ao público leitor, qualquer que seja o meio.

Eu já tenho mais tempo de vida em Brasília do que em Recife, onde nasci. Com filhos e neta brasilienses, já guardo um baú de memórias afetivas que não contam só a trajetória da minha família em solo candango. Narram uma cidade em movimento. Fotos já amareladas, páginas de jornal destacadas, fitas cassetes guardadas... Você também deve ter muita coisa em sua caixinha de afetos.

Cada um de nós é um biógrafo de Brasília. Trabalhar em um lugar que permite e favorece esse compartilhamento de informações, contribuir para a disseminação de conteúdo histórico e a guarda de um arquivo tão importante para a cidade, é, para mim, um privilégio. O Correio é, antes de tudo e acima de tudo, um depositário fiel dos 61 anos da capital brasileira.

Não faltam exemplos para confirmar a intimidade deste veículo com a cidade. Passaram por esta Redação personalidades e profissionais que, com seu talento extraordinário, brindaram as páginas deste diário com temas relevantes para a capital federal. Falo de gente como Glauber Rocha, por exemplo, que compartilhava sua genialidade nas artes cinematográficas com jornalistas e editores do Correio, além da classe artística da capital nos anos 1970. Posso citar ainda Gilberto Dimenstein, repórter que descobriu muito jovem a excepcional habilidade de desbravar o que ficou conhecido como jornalismo investigativo. Mais recentemente, recordo de minha grande amiga Valéria Velasco, jornalista brilhante e mãe que entrou para a história brasiliense por levantar uma bandeira atual em 2021: a violência e a intolerância.

Como repórter deste jornal, tive a oportunidade de testemunhar momentos importantes para o Correio e para Brasília. O coração fica mais apertado e feliz quando lembro de memoráveis conversas - seja com o gravador ligado, seja desligado — com personalidades como Maurício Correa, Ozanan Coelho, Aloyzio Campos da Paz, Oscar Niemeyer.

Por alguma razão que ainda desconheço, meu destino está ligado a Brasília. Construí minha vida nesta cidade e espero continuar a fazê-lo por muitos anos. E, por outra razão ainda misteriosa para mim, minha vida permanece ligada a este irmão de Brasília chamado Correio. Esse mistério brasiliense é que alimenta minha paixão por esta cidade, por este jornal.

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