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Polêmica em mural de escola

Desenho de alunos em exposição alusiva ao Dia da Consciência Negra mostra policiais com símbolo nazista. Vice-diretora de escola militarizada da Estrutural virou alvo de protestos

Ana Isabel Mansur
postado em 27/11/2021 00:01
 (crédito:  Arquivo Pessoal)
(crédito: Arquivo Pessoal)

A vice-diretora do Centro Educacional 1 da Estrutural (CED 1), Luciana Pain, 40 anos, virou alvo de protestos após atividade especial, na última sexta-feira, alusiva à Consciência Negra. A escola, cuja gestão é compartilhada entre civis e militares, tornou-se o centro de uma polêmica entre docentes e policiais após uma exposição, disposta em um dos corredores do colégio. Entre as figuras expostas, estavam imagens que denunciavam atitudes racistas da Polícia Militar; em uma delas, um PM aparece com uma suástica. As ilustrações foram feitas por alunos.

De acordo com a vice-gestora, a direção militar da escola pediu que os itens fossem retirados, mas Luciana se recusou. Entre os painéis, há imagens que valorizam a cultura africana e tirinhas que abordam o preconceito racial. Segundo a vice-diretora, as ilustrações abordavam assuntos relacionados à negritude e não passaram por nenhum tipo de manipulação.

No entanto, os itens que retratavam policiais como racistas e com símbolos nazistas teriam desagradado a um militar atuante na unidade, que procurou o diretor-disciplinar da escola. "Ele (o diretor) me chamou e pediu que eu retirasse a imagem. Eu disse que não faria isso, e ele falou que teria que reportar aos superiores", contou Luciana, destacando que a intenção da mostra não era promover um ataque. "Não estamos contra a polícia. A polícia melhorou muito nosso trabalho dentro da escola, mas não podemos aceitar esse tipo de interferência. Vamos usar a questão como uma oportunidade para tratarmos o tema em sala de aula", comenta.

Retaliações

Depois do episódio, as imagens foram publicadas nas redes sociais e desagradaram a alguns representantes da categoria. Em nota, a Associação dos Oficiais da Polícia Militar do Distrito Federal (ASOF/PMDF) repudiou as imagens. "A exposição não traz um debate enriquecedor", criticou. Até o momento, tanto Luciana quanto os painéis seguem no CED 1.

Na terça-feira, o deputado federal Heitor Freire (PSL-CE) enviou ofício à secretária de Educação do DF, Hélvia Paranaguá, pedindo "punição exemplar" contra a vice-diretora e uma retratação formal perante a PMDF, além de classificar a atividade como "absurda." "Cumpre ressaltar que o ultraje perpetrado na exposição, ainda mais se tratando de uma escola cívico-militar, é claramente uma ação planejada por grupos que se utilizam de sua função pública para enviesar a juventude e causar a deturpação na nossa educação", defendeu o parlamentar.

Dois dias depois de enviar o ofício, o deputado foi à escola sem avisar e divulgou as cenas em redes sociais. No vídeo, Heitor Freire conversa com a vice-diretora, e o diálogo procede sem exaltação de ânimos. O deputado alegou que denunciaria a direção pedagógica da escola ao Ministério Público. Mais tarde, na tribuna da Câmara dos Deputados, o parlamentar comentou sobre o episódio, afirmando que Luciana havia sido "ofensiva."

Debate e diálogo

Em nota, a Secretaria de Educação informou que considera "preocupante o fato de um estudante ter a imagem das Forças de Segurança associada ao racismo ou ao nazismo e acha importante que o tema seja debatido durante o processo pedagógico." Já a Secretaria de Segurança Pública assegura que esta não é a realidade da Polícia Militar do Distrito Federal. As duas secretarias afirmam que vão aprofundar a parceria em prol da educação pública, ampliando os espaços de diálogo com estudantes, pais, professores e gestores.

A reportagem procurou a Polícia Militar do DF, mas, até o fechamento desta edição, não obteve respostas. O espaço segue aberto. O Correio não obteve confirmação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) acerca de suposta denúncia feita pelo deputado federal Heitor Freire.

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