O Parque Sucupira

Correio Braziliense
postado em 20/03/2022 00:00 / atualizado em 20/03/2022 00:00

Recebi um precioso presente: um calendário de 2022 sobre o Parque das Sucupiras, no Sudoeste, elaborado pela Associação Parque Ecológico das Sucupiras. Bem sei que esse 2022 já avança para as águas de março fechando o verão. Mas isso não é o essencial; as datas são apenas um pretexto; é um calendário floral, silvestre e ecológico, apresentado em fotos e textos.

O Parque das Sucupiras é uma das últimas reservas do cerrado encravado dentro do Plano Piloto. Ela só existe graças à iniciativa, à luta, à resistência e à tenacidade da Associação de Amigos do Parque das Sucupiras. Foi o grupo que propôs a criação do Parque das Sucupiras em 2005, instituído por meio de decreto pelo então governador Joaquim Roriz.

Mas a ação dos Amigos do Parque não se encerrou com o ato de criação. Eles plantam, capinam, promovem mutirões de limpeza, combatem o fogo e se mobilizam para defender o espaço das ameaças da especulação imobiliária.

Faz toda a diferença para quem mora em um apartamento. É como se você tivesse uma reserva ecológica como quintal. É impressionante a riqueza floral e animal que se concentra naquela pequeno pedaço de cerrado intacto. O calendário propõe um passeio pelo parque.

Entrar naquele território é ser transportado para um outro tempo, espaço e estética. Lá, o visitante pode se deparar com a caliandra vermelha, solitária e altiva, incrustada no mato bravo. Ela parece concentrar a resistência, a singularidade e a beleza do cerrado. No ápice, ela esplende com tamanha fulguração que parece uma flor de fogo. Ana Miranda chama a caliandra de flor extraterrestre.

É possível apreciar, também, a um só tempo, as delicadas e agrestes inflorescências da rosa-do-campo.

Até as primeiras décadas da construção de Brasília, bastava dar alguns passos para encontrar os pequizeiros. Hoje, eles, praticamente, desapareceram das cercanias da cidade. Quando compro pequi na beira da estrada, pergunto a origem e os vendedores dizem que vem do cerrado de Minas.

No parque, ainda é possível topar com muitas espécies. Os bandos espalhafatosos do periquito-de-encontro gostam de frequentar os pequizeiros. Quem visita o parque costuma avistar a Curicaca, ave de grande porte, com o bico recurvado e longo, que utiliza para caçar insetos e invertebrados. Aves de rapina como o gavião-carijó circulam pela área e promovem o equilíbrio da fauna.

O pau-Brasil, o barbatimão, a quaresmeira, o jatobá, o jacarandá-do-cerrado e as sucupiras são algumas espécies cinquentenárias ou mesmo centenárias do parque. Como bem diz Fernando Lopes em uma das folhas do calendário: o Parque Ecológico das Sucupiras é um portal da natureza: "Em quais cidades ainda é possível vislumbrar o horizonte e sua natureza?"

Os governantes deveriam ser os primeiros a zelar pela preservação dos nossos parques; eles são os primeiros a ameaçar o patrimônio natural por meio de conluios em favor da especulação imobiliária. O viaduto da EPIG, em construção no Sudoeste, é, na verdade, um anel rodoviário, que afeta a escala bucólica de Lucio Costa.

Espero que, neste 2022, ano do centenário do modernismo, o Iphan, instituição criada por Mario de Andrade e Rodrigo de Melo Franco, cumpra a função institucional que lhe cabe de defender Brasília. Que peque pela ação, nunca pela omissão.

Esse calendário produzido pela Associação de Amigos do Parque das Sucupiras é um convite para que os brasilienses lutem pela preservação das unidades de cerrado que restam na cidade. Precisam ser protegidas, verdadeiramente, como territórios sagrados da cidadania.

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