Crônica da cidade

A aventura do bacurau

Correio Braziliense
postado em 27/03/2022 00:01

Um leitor gentil que acompanha os meus garranchos soprou: esqueça um pouco a política e fale dos passarinhos. É difícil, pois a política ameaça as matas e, por tabela, os bichos. No entanto, tentarei. O leitor me forneceu o link de um magnífico site de aves.

Voltarei ao site, mas, por enquanto, me lembrei de uma história que me foi contada por Tancredo Maia, integrante do grupo brasiliense Observaves, sobre o bacurau norte-americano migratório, que viaja de 8 a 10 mil km para o Brasil e, mais precisamente, para Brasília, quando começa o inverno nos EUA.

Seguramente, os bacuraus migram em bando dos EUA até o Brasil. Os biólogos já fizeram a experiência de colocar GPS nas aves. É impressionante como não se perdem. Não fazem um voo aleatório. Apreciam o calor, o verão e o clima tropical. Diferentemente do urubu ou do gavião, que são planadores, pegam onda de vento e vão em frente, o bacurau bate asas o tempo todo, ensina Tancredo.

É preciso um preparo físico muito bom. Mesmo à noite, batem asas. Mas, ao mesmo tempo, param para descansar e fazem a viagem por etapas. Descem os Estados Unidos juntos, atravessam a América Central e, quando chegam à América do Sul costumam se dispersar. Uma parte sobe para a Amazônia e o Pantanal; a outra toma o rumo do Brasil Central e uma terceira tem como destino a costa marítima.

Por isso, é possível encontrar a mesma espécie de bacurau norte-americano em Brasília, no Acre ou na Bahia. No verão, encontram farta alimentação nos trópicos. Os bacuraus são bichos noturnos; durante o dia, eles descansam nas árvores. Tancredo e o grupo Observaves chegaram a registrar, ao longo de quatro anos, que um bacurau norte-americano ocupou a mesma árvore no Parque da Cidade.

À noite, depois das 18h, o bacurau sai para se alimentar de insetos. A migração não é uma aventura improvisada. Existe uma rota que eles fazem todos os anos. Da primeira vez, Tancredo observou um, mas, em seguida, o número de migrantes foi aumentando no Parque da Cidade. Devem ter chamado a família e os vizinhos.

Têm alimentação, o lugar é agradável, ninguém perturba. Isso é legal para fazer uma rota. Incorporam esse programa de viagem para enfrentar as mudanças de estação do ano. Quando o frio assola nos Estados Unidos, eles migram para os países tropicais. Passam a informação de geração para geração. No Brasil existem umas seis espécies de bacuraus: "Eles vem visitar os primos", brinca Tancredo.

Acontece algo semelhante com a ave batizada de Príncipe, que vem da Argentina e também pode ser vista nos parques da cidade. Com a sua plumagem vermelha e a máscara negra, ele é impressionantemente belo e gracioso. Mas, diferentemente, do bacurau, tem hábitos diurnos. É muito fácil de ser visto. Dá um salto, pega o inseto em voo fulminante e volta ao mesmo lugar, sem jamais perder a realeza.

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