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Os caminhos de paz nas escolas

O Correio ouviu professores, diretores e especialistas sobre como superar a rotina de violência e como é possível dar mais proteção aos estudantes. Ações integradas e preventivas são necessárias

Pedro MarraAna Isabel Mansur
postado em 27/03/2022 00:01 / atualizado em 27/03/2022 16:08
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

As situações de violência vividas em escolas do Distrito Federal nas últimas semanas acenderam um alerta nos gestores públicos e trouxeram à tona alguns questionamentos: é possível superar o cenário violento nos colégios? Qual caminho deve ser trilhado? Na busca por respostas, o Correio conversou com professores e diretores de escolas que conseguiram superar o contexto de violência e estabelecer a cultura de paz. Levantamento da Polícia Militar mostra que, só em 2022, o Batalhão Escolar atendeu 108 ocorrências de crimes ou atos infracionais relacionados a delitos praticados em colégios públicos do Distrito Federal.

Há sete anos, era comum testemunhar ocorrências no Centro de Ensino Fundamental 33 (CEF 33) de Ceilândia. Entre abril e maio de 2015, uma equipe do Batalhão Escolar chegou a ficar na escola por 25 dias. No início de junho do mesmo ano, em um domingo, o colégio foi arrombado, pichado e revirado. À época, a direção da escola acreditava que o ataque fosse uma represália de traficantes de drogas da região contra a permanência da PMDF dentro e fora da instituição de ensino. Dois dias depois do ocorrido, as aulas foram retomadas, com reforço no policiamento.

A violência não ficava apenas da porta para fora, e era possível presenciar brigas e discussões nos corredores do colégio. Alunos e professores eram alvo de agressões. Os gestores suspeitavam que um aluno de 13 anos, que teve desavenças com a coordenação, fosse um dos autores do ataque. O adolescente teria enfrentado os diretores dois meses antes e, em seguida, dito a um colega que havia escondido uma faca na escola para matar a diretora e o vice-diretor. A faca foi encontrada no lugar indicado.

Desde que chegaram no CEF 33, no ano letivo de 2020, os gêmeos José Pedro Lima Travassos e Tiago Felipe Lima Travassos, 13 anos, contam que tem algazarra nas aulas em alguns momentos. Até já viram brigas, mas dizem que a direção fica de olho. "A escola é rígida sobre essas coisas, porque se acontecer qualquer confusão, o diretor aparece e muita gente acaba sendo suspensa", conta Tiago.

Desde o começo do ano, três colegas foram suspensos durante três dias por causa de brigas. "A nossa educação vinda de casa foi evitar briga, tanto que nossos pais dizem que se virmos que está acontecendo perto, a gente se afasta, porque essas coisas nunca acabam bem", relata Tiago. José esclarece que nunca sofreu agressão no CEF 33, mas, na última sexta-feira (25/3),ouviu discussões."Estavam falando que iriam encontrar outra na porta da escola", relata.

Confiança

A mãe dos gêmeos, Maria Aparecida de Lima, 52, que mora com o marido, o servidor público Elizabeto Travassos, 58, diz que a casa deles fica perto do CEF 3 e que tem contato próximo com os diretores, em quem confiam por conta da disciplina. "Se ele vê algum aluno fazendo bagunça, nem deixa ficarem no corredor", explica. Quando os casos de briga ocorrem, Maria cita que o diretor e vice chamam os pais e o Conselho Tutelar da região. "No ano passado, na reunião que houve, avisaram dessa medida, para evitar omissão", detalha.

Diretor do CEF 33 há sete anos, Amadeu Romualdo da Silva Neto conta que precisou investir em propostas de ensino mais integrativas entre os estudantes do colégio. "Era uma escola mal falada, então criamos grupos, tudo que acontece, notificamos, temos uma comunicação muito efetiva entre os pais, em que comunicamos de imediato", esclarece o educador. Para ter atividades lúdicas, o gestor conta que oferece dois passeios por semestre. Também reforça o sentimento de pertencimento deles ao espaço pedagógico, como uma segunda casa. "Estamos sempre fazendo coisas para verem que a escola é deles", disse.

Colega de sala dos irmãos Travassos, Vitória Batista, 13, concorda com o pensamento do diretor Amadeu de propor conversas abertas com os alunos. "Acho que seria muito bom ter uma conversa frequente e sem barreiras com os alunos que incomodam para que recebam orientações".

A aluna acredita que seria importante haver uma revista na entrada do colégio para evitar que os estudantes entrem com objetos ou drogas. "Uma vez, uma pessoa da minha sala levou uma coisa ilícita", relembra.

O coordenador educacional do Centro de Ensino Fundamental 1 (CEF 01) de Planaltina — com 1,1 mil alunos — , Marcus Martins, 66, relata um momento de bullying sofrido por uma aluna, que foi amarrada com uma corda por três colegas durante o início de uma "brincadeira de amarrar" entre os alunos.

Segundo ele, a violência foi produzida pelo isolamento que deixou os alunos fragilizados e com medo, não diretamente pela brincadeira. "O descontrole da aluna que demostrava a violência do isolamento (social)", explica. No momento, um dos alunos a segurou por trás, a imobilizou, e os outros pegaram o braço dela. "Estavam brincando de amarrar, quando um menino a segurou por trás, e ela se sentiu extremamente apavorada", relata.

Em casos como esse, Marcus conta que a saída tem sido conversar com os pais e responsáveis para alertar sobre o comportamento dos estudantes, conforme foi feito no sábado (26/3). "Conversando com o grupo de professores, foi falado para os pais que os meninos estão muito mais violentos, com estopim curto, ansiedade e choro", recorda o educador.

 

  •  23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista.
    23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista. Foto: Carlos Vieira/CB
  •  23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista.
    23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista. Foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press
  •  23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista.
    23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista. Foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press
  •  23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Amadeu Romualdo, diretor.
    23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Amadeu Romualdo, diretor. Foto: Carlos Vieira/CB
  •  23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Amadeu Romualdo, diretor.
    23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Amadeu Romualdo, diretor. Foto: Carlos Vieira/CB
  •  23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Amadeu Romualdo, diretor.
    23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Amadeu Romualdo, diretor. Foto: Carlos Vieira/CB
  •  23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista.
    23/03/2022. Crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Paz nas escolas. CEF 33, Ceilândia. Na foto, Tiago Felipe Lima Travessos, Jose Pedro Lima Travessos (óculos) e Vitória Batista. Foto: Carlos Vieira/CB
  •  Os irmãos Tiago Felipe e Jose Pedro Lima Travessos com a colega de turma Vitória Batista contam como é a rotina escolar
    Os irmãos Tiago Felipe e Jose Pedro Lima Travessos com a colega de turma Vitória Batista contam como é a rotina escolar Foto: Carlos Vieira/CB
  • 2020 Credito Fe/UNB - Catarina de Almeida Santos - professora da UNB - professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e Pós-Doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. É Coordenadora do Comitê DF da Campanha Nacional pelo Direito a Educação.
    2020 Credito Fe/UNB - Catarina de Almeida Santos - professora da UNB - professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e Pós-Doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. É Coordenadora do Comitê DF da Campanha Nacional pelo Direito a Educação. Foto: Fe/UNB
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