Cotidiano

A inquietude em mim

A inquietude da alma humana é um fio invisível concetando pessoas de modo absolutamente encantador!

Adriana Bernardes
postado em 28/03/2022 00:01 / atualizado em 28/03/2022 11:45
 (crédito: Arquivo Pessoal)
(crédito: Arquivo Pessoal)

Nos últimos dois anos, a inquietude em mim tem sido algo visceral e reveladora. Comecei um blog escrevendo sobre o cotidiano e poesias. Logo eu, amante do texto objetivo, vivo a divagar por lá.

Depois, num fim de semana de tédio, comecei a desenhar com as crianças. Gostei tanto que larguei o papel e o lápis e me perdi entre telas, tintas e pincéis.

Comecei a pintar, principalmente, campos de lavanda, meu refúgio imaginário do medo e das incertezas geradas pela pandemia de covid-19.

Mas não era o bastante! A inquietude em mim exigia mais. Então, enchi as janelas do apartamento (10 centímetros de parapeito entre o vidro e a tela de proteção) de plantas. No pedaço que me cabe neste "latifúndio", colhi pimentas, cheiro verde, açafrão e tomate cereja.

Plantei lavandas, suculentas, cactos e, até, bougainville. Como eu pude viver ali tanto tempo sem o verde como companhia?". Não faço ideia! 

Fim do ano passado, botei na cabeça que pintaria os cabelos de azuis.Tentei uma solução caseira que resultou em paredes do banheiro e mãos coloridas, mas, e os fios? Eles continuaram negros como sempre foram.

Mas onde está escrito que sou mulher de desistir facilmente? Um dia de janeiro deste ano pensei: É hoje! Passei quatro horas num salão descolorindo os fios e, finalmente, tingindo-os de azuis.

Era para ser temporário, brincadeira adolescente tardia. Gostei tanto, mas tanto, que estão coloridos até hoje e não faço planos para voltar a ser morena. Agora sou blue num delicioso rompante de pandemia!

Voltando à inquietude que me transformou na louca das plantas, já era hábito eu comprar uma flor sempre que a rotina ficava difícil. A volta presencial à redação, recheada de inseguranças, fez brotar vasos ao redor de mim. No momento, são 11. 

Em janeiro, saí de férias por 30 dias. Quando voltei, os passos entre o estacionamento e a redação eram acompanhados de um incômodo chato. Como estariam minhas plantas? Foi então que tive a surpresa mais encantadora dos últimos tempos.

—Dona Adriana, não vi mais a senhora por aqui, então, pedi pro Zezim cuidar das plantas da senhora, ouvi da dona Elizabete, o anjo que ajuda a manter a redação em ordem. Quanta gratidão senti! Fiquei ali, parada alguns segundos, só contemplando.

O Zezim, não conhecia de nome. Só de ver pela janela, fazendo o jardim e me dando de presente o frescor do cheiro de grama cortada. Passei mais de mês tentando encontrá-lo para agradecer. E faltaram palavras para expressar o quanto o zelo dele me encheu de felicidade. 

E as singelezas da vida me presentearam de novo. Semana passada, tagarelando com Cilene sobre as inquietudes pandêmicas, falei das minhas incursões na pintura e da paixão por lavandas. Dias depois, fui surpreendida por ela com um delicado arranjo de lavandas. 

A inquietude da alma humana é mesmo um trem (com licença, conversa de mineiro sem um "trem" no meio da frase não faz o menor sentido) poderoso demais! Um fio invisível conectando as pessoas de modo absolutamente arrebatador!

 

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