Entrevista | Fabiana Damásio | diretora da Fiocruz Brasília

Impactos significativos da pandemia

Pesquisadora destaca pontos prejudiciais da pandemia e a luta para transmitir informações cientificamente comprovadas

Paulo Martins*
postado em 01/04/2022 00:01
 (crédito:  Ed Alves/CB)
(crédito: Ed Alves/CB)

Diretora da filial do Distrito Federal de um dos institutos mais envolvidos no combate direto à pandemia, Fabiana Damásio destacou as desigualdades trazidas pela pandemia da covid-19 em entrevista concedida à jornalista Carmem Souza, na edição de ontem do CB.Saúde — parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília. "Vejo a necessidade de seguirmos desenvolvendo uma série de atividades a médio e longo prazo, porque os impactos foram muito significativos", comenta.

Como a pandemia intensificou as desigualdades?

Desde o primeiro momento da pandemia, as desigualdades sociais históricas presentes no Brasil foram agravadas em função da necessidade de a enfrentarmos coletivamente. Hoje, dois anos depois, temos 20 milhões de brasileiros em situação de fome e metade da população em situação de insegurança alimentar. Há, ainda, informação que diz respeito ao desemprego e aponta que também há um aumento. A gente precisa buscar estratégias para garantir a equidade no acesso ao cuidado. No início da pandemia, muitas medidas foram adotadas para garantir isso. Foi necessário estruturar uma rede coletiva para seguir enfrentando todas essas dificuldades.

É evidente a quantidade de pessoas que estão na rua. Na realidade do DF, como lidar com esse fenômeno para que essas pessoas saiam da pandemia numa condição mais saudável?

Vejo a necessidade de seguirmos desenvolvendo uma série de atividades ainda, a médio e longo prazo, porque os impactos foram muito significativos. Olhando para a realidade do DF, existe uma série de esforços e a ação intersetorial foi o que contribuiu para promover o acolhimento à população em situação de rua. Vemos um aumento considerável de famílias que ficaram em situação de rua em função da perda do emprego e de não conseguir pagar suas contas e se organizar ali, na sua integralidade. Famílias inteiras estão presentes na rua. É importante que a gente cuide de estratégias dentro do sistema de saúde pública junto com o sistema de desenvolvimento social e com a sociedade civil. Vejo que será uma agenda permanente. Ainda estamos enfrentando a pandemia e precisamos estar com o olhar atento às suas consequências no DF.

Sobre as fake news: como elas afetaram a Fiocruz? Como fazem efeito na saúde mental das pessoas? Como relacionar a comunicação em saúde pensando em ameaças sanitárias e futuras pandemias?

Nos colocamos, desde o primeiro momento, vigilantes em relação à busca corretas do conhecimento científico e de dados, para seguir combatendo as fake news. Essa foi uma tarefa muito intensa durante a pandemia, porque precisava ser feita em tempo real, baseada nos dados e no conhecimento, para que pudesse chegar a toda população de forma fidedigna.

No campo da saúde mental, dependendo do tipo de informação, você pode sentir mais medo de adoecer e aquilo pode ser um efeito estressor. É fundamental ter atores no território para construir estratégias nesse sentido. Um exemplo foi a articulação com os comunicadores locais do DF para trocar informações, tirar dúvidas e pensar nas melhores estratégias.

Quais são as estratégias que a Fiocruz tem desenvolvido para melhorar a comunicação em saúde relacionado à pandemia?

Aqui no DF conseguimos lançar o Se Liga no Corona, para trocar estratégias de comunicação num podcast, disseminando informações com mais rapidez, em t empo real. Vimos que o podcast funcionou muito bem na divulgação da informação, então, adotamos outros caminhos, como em pequenos vídeos de um, dois minutos.

Essas informações têm se disseminado e promovido um interesse popular pela ciência: isso a longo prazo
pode ser interessante?

A ciência deu as respostas para garantir a produção de vacina e para seguirmos no desenvolvimento das estratégias não farmacológicas de proteção à saúde. Então, é uma questão de reconhecimento da importância da ciência, para seguirmos no desenvolvimento de práticas para promover a saúde.

Outro caminho que a
Fiocruz Brasília atuou foi
uma pesquisa mostrando
os impactos da covid na
saúde mental dos profissionais da saúde: a que resultados vocês chegaram?

Foi uma parceria. A gente trabalhou com a Fiocruz do Mato Grosso do Sul, com o público do Centro-Oeste, e fizemos um levantamento com 231 trabalhadores da saúde em que localizamos 63% deles com transtornos de ansiedade. Em dois anos, esses profissionais sofreram impactos significativos, com burnout e sofrimento psíquico. Uma outra pesquisa aponta que os trabalhadores invisíveis da saúde (auxiliares administrativos, recepcionistas, maqueiros e outras funções) apresentaram 80% de desgaste emocional.

Em uma crise como a que estamos enfrentando, a saúde mental precisa ser cuidada porque as consequências seguem acontecendo: medo de adoecer e da perda do emprego, trabalho remoto e a morte de entes ou amigos. O Conselho Federal de Psicologia, o Conselho Regional de Psicologia, a Secretaria de Saúde, a UnB e a Fiocruz, lançamos juntos os 365 Dias de Saúde Mental, exatamente para podermos colocar essa agenda permanentemente nas nossas reflexões.

*Estagiário sob a supervisão
de Layrce de Lima.

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