Taguatinga /

Em defesa da Praça do DI

Moradores protestam contra a venda de parte do espaço público para uma empresa privada e questionam o descaso do poder público em relação a um referencial da cidade

Ailim Cabral
postado em 03/04/2022 00:01
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Com novos atos planejados e projetos de ocupação cultural, moradores de Taguatinga protestaram contra a venda de uma área da Praça do DI para uma empresa privada. A ação reuniu cerca de 50 pessoas e ocorreu na manhã de ontem.

Crianças, idosos e até mesmo animais de estimação participaram da manifestação em prol da proteção e manutenção do espaço de lazer e da área verde, que era de propriedade dos Correios, antes de ser vendida por meio de licitação.

Apesar do intuito da empresa compradora não ter sido divulgado, os moradores suspeitam da construção de um posto de gasolina. "É horrível pensar que vamos substituir árvores por carros e mais fonte de poluição, é uma atrocidade", protesta Leda Gonçalves, 57, uma das organizadoras do ato.

Além da venda e possível mudança de destinação da área, ela denuncia a falta de cuidado com o equipamento público. "Começaram uma reforma e nunca terminaram. Parece que querem afastar a população para, enfim, poder fazer dinheiro com nosso espaço".

Um dos primeiros a se manifestar no microfone, o estudante Felipe Rezende Oliveira, 28, compartilha a preocupação de Leda. Estudando sobre a Lei de Uso e Ocupação do Solo, ele acha estranho que uma empresa compre um terreno onde não pode construir.

"Parece que tudo é pensado. Primeiro deixam a área sem estrutura para a população se afastar e depois compram. Como se soubessem que o poder econômico passa por cima das leis e que vão conseguir mudar a destinação", denuncia.

Lucas afirma, ainda, que a comunidade não pode desistir e chama para a ocupação da praça, mesmo que ela esteja sucateada. "Vamos ocupar nosso espaço e continuar lutando, manifestando e indo atrás das leis e direitos. A luta não está perdida e não podemos desistir", acredita.

Encontro familiar

Juntos e segurando faixas, o aposentado José Luiz Ravena, 56, e a dona de casa Cícera Coelho, 37, levaram os filhos, Luíza, 5, e Benjamin Ravena, 3, para participar da ação e entender desde cedo a importância de lutar por seus direitos.

"Estão tirando nosso espaço de lazer, cultura, as árvores e a sombra debaixo da qual as crianças andam de bicicleta. E por quê? Em prol do dinheiro?", questiona José Luiz, que mora em Taguatinga há 55 anos.

O aposentando acrescenta ainda que a venda, feita de forma discreta, é um desrespeito à comunidade e aos filhos de todos os moradores da região. "É um lugar que agrega, tem produção cultural e era ocupado pelos nossos pioneiros e vamos lutar por ele", completa.

Nascida e criada em Taguatinga, a jornalista Tayara Martins, 39, tem a praça como cenário de sua infância e adolescência. Quando criança, brincava e andava de bicicleta, na adolescência se reunia com amigos para jogar conversa fora.

Chegando na manifestação de bicicleta, ela comenta que até hoje frequenta o espaço e ressalta a importância do lazer ao ar livre. "É um ponto de encontro e tem o aspecto afetivo, um carinho de quem cresceu aqui e, por isso, fiz questão de vir hoje", conta.

O estudante Lucas Carvalho Silva, 20, reclama do descaso do governo e da falta de incentivo. Morando em Taguatinga desde os 11 anos, lamenta que as crianças e jovens percam um lugar para interagir ao ar livre.

Para Lucas, o esquecimento da praça retrata o abandono da cultura e do lazer fora do Plano Piloto. "Se essa praça fosse na região central, a população ia lutar, e o governo não agiria com tanto descaso. Merecemos ter a mesma qualidade de vida", reclama.

Entenda o caso

A área alvo da polêmica fica em uma das extremidades da Praça do DI, tem cerca de 800m² e corresponde a um terço da Praça do DI. O espaço, localizado no Setor A Norte PCA CNA, em Taguatinga Norte, pertencia aos Correios e foi vendido por meio de licitação pública em 19 de janeiro de 2021, por R$ 2,3 milhões, conforme disposto na Escritura Pública de Compra e Venda.

O nome dos compradores não foi informado e a destinação da área será definida pelo atual proprietário do imóvel. No entanto, como a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) informou ao Correio, a Praça do DI é um equipamento público. Isto significa que a mudança de destinação do terreno, deve, antes, passar pela análise dos técnicos da pasta, assim como ser submetida a uma audiência pública para receber o aval da população.

É necessário um aval prévio do Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do DF (Conplan) antes que a proposta seja votada na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Até o momento, a empresa que comprou o lote não fez contato com a Seduh para formalizar a proposta de ocupação do espaço.

  • 2022-04-02 - Brasília - DF - Taguatinga, protestos na Praça do DI
    2022-04-02 - Brasília - DF - Taguatinga, protestos na Praça do DI Foto: Ailim Cabral/CB/D.A.Press
  • 02/04/2022 - Brasília - DF - Taguatinga, protestos na Praça do DI
    02/04/2022 - Brasília - DF - Taguatinga, protestos na Praça do DI Foto: Ailim Cabral/CB/D.A.Press
  • 02/04/2022 - Brasília - DF - Taguatinga, protestos na Praça do DI
    02/04/2022 - Brasília - DF - Taguatinga, protestos na Praça do DI Foto: Ailim CabralCB/D.A.Press
  •  02/04/2022. Cidades. Protesto da comunidade na Praça do DI, em Taguatinga. Na foto  Lucas Carvalho Silva.
    02/04/2022. Cidades. Protesto da comunidade na Praça do DI, em Taguatinga. Na foto Lucas Carvalho Silva. Foto: Ailim Cabral/CB
  •  02/04/2022. Cidades. Protesto da comunidade na Praça do DI, em Taguatinga. Na foto Tayara Martins.
    02/04/2022. Cidades. Protesto da comunidade na Praça do DI, em Taguatinga. Na foto Tayara Martins. Foto: Ailim Cabral/CB
  •  01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI.
    01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI.
    01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI.
    01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI.
    01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI.
    01/04/2022 Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Manifestação na praça do DI em Taguatinga contra a privatização da venda de terreno na praça do DI. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press

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