Caçando histórias

Correio Braziliense
postado em 16/04/2022 00:01
 (crédito: FaiaraAssis/Divulgacao)
(crédito: FaiaraAssis/Divulgacao)

Dia desses veio em minha mente a história de um escritor, digamos, excêntrico, que viveu os primeiros anos de Brasília. Judeu nascido na Polônia, o também engenheiro participou da construção da capital, integrante da equipe de Oscar Niemeyer. Faleceu no ano em que eu nasci, 1984, em Sobradinho.

"Samuel Rawet havia sido encontrado mais que morto, em estado de putrefação, aos 56 anos, a cabeça caída sobre um prato de sopa Knorr, o cheiro de carne podre manchando o ar e atraindo moscas", escreveu a jornalista Conceição Freitas, na edição do Correio de 29 de agosto de 2004, 20 anos após a morte desse ser que, às vezes, aparece em minha mente, mesmo não o tendo conhecido.

Ezio Flavio Bazzo escreveu, em Rapsódia a Samuel Rawet, que ele percorria as ruas de Brasília (ou seria de Sobradinho?) com uma gaiola na mão, no auge da loucura, dizendo que ia caçar ratos. Lembrei de Rawet porque o via em mim algumas vezes. Era como se eu andasse por ai com uma gaiola imaginária nas mãos. Só que eu não sabia exatamente o que caçar. Quer dizer, às vezes, sabia. Histórias alheias.

Cheguei do trabalho e dei uma rápida passada em casa para deixar uns papéis. Ainda no caminho, estranhei uma mendiga que andava importunando todo mundo da região. Diminui o passo para não passar ao lado dela, já sabendo de seu histórico de confusão. Ela encrencava com qualquer um, na hora que ela resolvesse ser oportuna. Por fim, a mulher acabou atravessando a rua e desviou de mim.

Após passar rapidamente em casa, desci até o bar. No caminho, encontro novamente a mendiga. Estava revirando uma lata de lixo. De vez em quando, parava e começava a discutir com a lixeira. Deixei para lá e segui meu rumo.

Gosto do boteco, pessoas de todos os tipos. Velhos que bebem para esquecer ou relembrar, comemorar ou lamentar. Ou o porteiro de um prédio, que acaba de entrar no bar do Lazarone. Estava um pouco cambaleante, vestindo uma camisa branca que parecia ser o uniforme de trabalho. Timidamente, ele tirou um vale transporte do bolso, chamou Lazarone e mostrou o pequeno pedaço de papel, suplicando uma dose de pinga, que lhe foi servida, talvez por pena. Bebeu em um só trago e foi embora.

Um cara da mesa ao lado começou a rir da cena. Contou que também havia sido porteiro e foi demitido por trabalhar bêbado. Deve ser uma profissão com altos índices de alcoolismo, mas que proporciona tempo de sobra para ler ou escrever, e nos intervalos entornar umas, pensei.

Após alguns minutos, a mendiga apareceu por lá. As conversas cessaram e todos ouviram ela pedir uma pinga no copo descartável. Agiu mecanicamente, virou a dose, pagou com uma nota de dez, provavelmente de algum aposentado que a deixou cair no chão ao sair da lotérica da rua, e foi embora. As conversas se restabeleceram instantaneamente. Papos aleatórios. Futebol, fulano que foi morto na 19, Mariazinha que voltou buchuda para o Maranhão...

Enquanto que o porteiro bebeu para afastar o tédio de várias horas sentado em uma cadeira, o cronista bebia para as palavras fluírem e ouvir os outros na surdina, geralmente gente que ninguém quer escutar. A mendiga tomou umas para esconder a fome e suportar tudo. Cada um com seus motivos na democracia etílica do boteco. Ao menos não saí de gaiola vazia. Sempre prendo uns causos estranhos nela.

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