Desfecho /

Vinte horas depois, criminosos são presos

O jornalista da Globo Gabriel Luiz foi vítima de uma tentativa de latrocínio na noite da última quinta-feira. Ele foi atacado a golpes de faca por dois bandidos. Depois de quatro cirurgias, seu estado de saúde é estável

Ana Maria Campos
Edis Henrique Peres
Júlia Eleutério
Ana Maria Pol
postado em 16/04/2022 00:10
 (crédito:  Reprodução/Redes Sociais)
(crédito: Reprodução/Redes Sociais)

Cerca de 20 horas depois da tentativa de latrocínio contra o jornalista Gabriel Luiz, a Polícia Civil do Distrito Federal identificou e capturou os dois autores do crime. Um deles, menor de idade, foi apreendido no Sudoeste, e José Felipe Leite Tunholi, 19 anos, foi preso no Cruzeiro Velho. Autoridades e  entidades de representação de jornalistas manifestaram apoio ao repórter e à sua família. O servidor público Wilton Luiz Araújo, pai de Gabriel, declarou ao
Correio que está aliviado com a prisão dos suspeitos e, principalmente, com a evolução do quadro clínico de seu único filho.

Editor do DFTV, Gabriel Luiz foi atacado por dois indivíduos no fim da noite da última quinta-feira, próximo ao condomínio onde mora. Foram 10 facadas, desferidas no pescoço, abdômen e na perna esquerda. O adolescente de 17 anos, envolvido no ataque, foi apreendido no fim da tarde de ontem, por volta das 17h30, e encaminhado à Delegacia da Criança e Adolescente (DCA 1) da Asa Norte. O maior, de 19, foi preso um pouco depois, por volta das 19h30, quando chegou à 3ª DP (Cruzeiro Velho) cercado por policiais para prestar depoimento.

Em entrevista coletiva, o delegado-chefe adjunto da unidade, Douglas Fernandes, afirmou que foi tentativa de latrocínio. Ele revelou que os criminosos usaram Rohypnol, medicamento para tratar distúrbios do sono, e decidiram depois "sair para roubar". O delegado plantonista, Petter Fischer, informou que Gabriel saiu para fazer um lanche e, ao retornar para casa, passou a ser seguido pelos envolvidos, quando apressou o passo.

Fischer contou ainda que o menor de idade desferiu um golpe mata-leão na vítima, momento em que o maior passou a esfaqueá-la durante luta. "Enquanto um estava dando as facadas, o outro conseguiu subtrair a carteira e o celular", disse. Ainda segundo ele, durante os depoimentos, ambos afirmaram que não conheciam o jornalista. "Foi uma vítima em potencial, escolhida enquanto criminosos estavam andando", afirmou o delegado.

 Tunholi relatou em seu depoimento que, após a agressão, jogou o celular na rua temendo que o aparelho fosse rastreado. "A carteira foi localizada com os documentos, alguns cartões, e R$ 20, mas ele confessou que subtraiu a quantia de R$ 200", disse Fernandes.

Falso roubo

Fischer informou que o menor foi apreendido de forma curiosa. De acordo com o delegado, o jovem "inventou" que foi roubado por um indivíduo que usava uma faca, também no Sudoeste. Ele estava na casa de um amigo, na região, e foi à 3ª DP com a mãe desse colega para registrar uma falsa ocorrência. A história levantou suspeitas entre os policiais envolvidos na investigação do jornalista. "Ele demonstrou muitas contradições no seu depoimento", disse Fischer.

Durante conversas com policiais civis da unidade, o rapaz apontou incoerências e terminou confessando a participação no crime. "Inicialmente, ele estava negando. Disse que nem sabia deste crime mas, posteriormente, afirmou que havia, sim, participado e que teria sido motivação patrimonial", afirmou o policial.

Alívio

O servidor público Wilton Luiz Araújo, pai de Gabriel, declarou ao Correio que está aliviado com a prisão dos suspeitos e, principalmente, com a evolução do quadro clínico de seu único filho. "Estamos bem aliviados. Satisfeitos com a ação da Polícia Civil, que atuou com rapidez e prendeu os dois bandidos. A polícia desempenhou muito bem sua função, com muita eficácia", disse, ponderando não acreditar que a repercussão do crime teria motivado este empenho da corporação. "Não creio que houve mudança de postura da polícia por conta da repercussão do caso", completou.

Wilton informou que não teve contato com os suspeitos presos ontem, e afirmou que, naturalmente, seguindo orientação do delegado que chefia o caso, não poderia fornecer maiores detalhes sobre as investigações. Ele deixava o hospital onde o filho está internado por volta das 21h10, quando falou com a reportagem. Disse que visitou o filho, mas não tiveram oportunidade de conversar, por conta da intubação e da sedação. "Estamos ainda mais aliviados porque o tratamento está dando certo. Se Deus quiser, ele estará conosco em breve."

O caso 

Na noite do crime, Gabriel Luiz foi amparado pelo porteiro e vizinhos do condomínio, até a chegada dos bombeiros. Quando a ambulância dos Bombeiros chegou ao local, Gabriel estava deitado sob a marquise, ainda consciente, enquanto vizinhos tentavam conter o sangramento com torniquetes e curativos improvisados.

De acordo com a corporação, devido à proximidade do grupamento do Sudoeste e o local do atendimento, os militares chegaram rápido, reduzindo consideravelmente a perda de sangue da vítima. Os órgãos mais atingidos pelas perfurações foram o diafragma e o pulmão. Houve ainda lesões no fígado, estômago, pâncreas e a mão esquerda. Gabriel foi encaminhado para o Hospital de Base em estado grave, onde chegou a receber a visita do pai.

Naquela unidade, o jornalista passou por cirurgias durante toda a madrugada para conter a perda de sangue e as hemorragias no órgão internos. Após as intervenções, ele foi transferido para o Hospital Brasília, no Lago Sul. Funcionários que participaram dessa transferência relataram que foi necessário reduzir a sedação, o suficiente para ele acordar, conversar com a equipe e perguntar sobre os ferimentos. Gabriel também pediu para escrever um bilhete, onde perguntou sobre o horário, pois estava de plantão e também desenhou um coração em agradecimento ao esforço da médica.

Insegurança

Na manhã de ontem, a reportagem esteve no prédio onde Gabriel Luiz mora. O extenso rastro de sangue ainda manchava a calçada. Vídeos do circuito de segurança mostram o jornalista correndo cerca de 10 metros e, depois de esfaqueado, foi amparado pelo porteiro, que acionou o Corpo de Bombeiros.

De acordo com o porteiro, que não quis se identificar, o local costuma ser seguro, embora moradores da região afirmem o contrário. "A gente, que trabalha à noite, fica receoso porque a maioria dos crimes acontece nesse horário. Mas nunca ali. Inclusive, o bloco fica próximo de lojas, então sempre fico de olho na rua, para ver se alguém pode entrar, mas nunca aconteceu nada", disse.

Uma moradora da quadra, que também pediu para não ser identificada, foi mais uma a afirmar que a região costuma ser tranquila e bem policiada. "É estranho esse tipo de coisa acontecer. Eu não estava em casa na hora do crime, mas fiquei bem assustada hoje com a notícia", disse, afirmando que sempre costuma andar à noite pelo local utilizando o celular.

Wesley Crisóstomo de Jesus, síndico do edifício onde Gabriel mora, disse que trabalha há 14 anos no local, e que os registros de crimes costumam estar relacionados a furtos de pneus ou de veículos. "O que acontece é mais roubo de pneus durante o dia, no estacionamento da frente. Mas esse tipo de crime, que envolve assalto, foi a primeira vez", afirmou, completando que  a segurança do condomínio é feita 24 horas por dia. "Os porteiros e a empresa que presta serviço de segurança ao prédio são sempre bem orientados em relação a essas ocorrências, seja para o dia ou para a noite. É um bairro muito tranquilo."

Manifestações

Autoridades e entidades de representação de jornalistas no país manifestaram apoio ao repórter Gabriel Luiz e à sua família. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, por meio de nota oficial, registrou que desde que soube da notícia estarrecedora, está acompanhando a situação do jornalista.

"Ao mesmo tempo em que torço por sua plena recuperação, quero agradecer o empenho da equipe do Corpo de Bombeiros do DF, que prontamente atendeu a ocorrência; aos servidores do Hospital de Base/Iges DF, pela dedicação no atendimento diante da situação tão delicada; e à Secretaria de Segurança Pública, que em questão de horas localizou os suspeitos pelo crime. À família de Gabriel Luiz, empenho toda minha solidariedade neste momento", declarou o chefe do Executivo do DF.

O presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco, foi mais um a manifestar apoio, por meio de sua conta no Twitter. "Minha solidariedade ao repórter da TV Globo Gabriel Luiz, de 28 anos, esfaqueado na noite passada, em Brasília. Na torcida pela sua pronta recuperação. Espero que o crime seja investigado com rigor e que os responsáveis sejam punidos", registrou.

Entidades de imprensa também se manifestaram em repúdio ao ataque sofrido pelo jornalista, entre elas a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), todas elas prestando apoio aos familiares e exigindo das autoridades que os fatos sejam investigados com rapidez e que os responsáveis sejam devidamente punidos.

Participaram da cobertura

Pedro Ibarra, Pedro Marra e

Jáder Rezende

  •  15/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Sudoeste, predio onde mora o Gabriel Luiz, repórter da Rede Globo que foi esfaqueado.
    15/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Sudoeste, predio onde mora o Gabriel Luiz, repórter da Rede Globo que foi esfaqueado. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  2022 Crédito: Reprodução/Camera de Segurança. Vídeo mostra ataque a jornalista Gabriel Luiz em Brasília
    2022 Crédito: Reprodução/Camera de Segurança. Vídeo mostra ataque a jornalista Gabriel Luiz em Brasília Foto: Reprodução/Camera de Segurança
  • pri-1604-ataque-jornalista
    pri-1604-ataque-jornalista Foto: pri-1604-ataque-jornalista
  • Faca utilizada no crime contra o jornalista da Globo
    Faca utilizada no crime contra o jornalista da Globo Foto: Material cedido ao Correio

Repercussão

O caso do jornalista Gabriel Luiz gerou grande repercussão entre entidades ligadas ao jornalismo, governo e figuras públicas. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) pediu celeridade ao processo e atentou para a escalada da violência contra jornalistas no país. "É preciso uma averiguação criteriosa da motivação do crime, para que seja esclarecido se está vinculado ao exercício profissional”, afirmou a entidade, por meio de nota.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) usou as redes sociais para pedir seriedade na investigação. “Esperamos que o caso seja investigado com rigor. Toda nossa solidariedade ao colega e estamos na torcida para que ele se recupere o mais breve possível”, publicou.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também demonstrou preocupação com a motivação do crime. "Não se sabe ainda se o crime — gravado por câmeras de vídeo — tem relação com a atividade profissional de Gabriel, mas ele se insere num quadro inaceitável de hostilidade a jornalistas e de crescimento da violência no país, estimulado pelo governo federal. A ABI exige que as autoridades policiais investiguem com empenho a tentativa de homicídio e a esclareçam o mais rapidamente possível", exigiu a ABI.

A Universidade de Brasília (UnB), onde o jornalista é formado, a Secretaria de Saúde do DF e a seccional do DF da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/DF) também repudiaram o ocorrido. Em notas oficiais pediram investigações rápidas, confirmações do que realmente motivou o caso e desejaram breve recuperação ao repórter.

A Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF) e o Senador Humberto Costa (PT-PE), presidente da Comissão dos Direitos Humanos (CDH) do Senado, também lamentaram o caso e afirmaram que acompanharão de perto as investigações para averiguar as motivações do crime.

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