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O adeus a Marianne Peretti

Amigos e parentes se reuniram ontem para se despedirem da artista plástica idealizadora dos vitrais da Catedral. Família fez questão que corpo fosse velado em Brasília, onde estão suas obras mais marcantes

Edis Henrique Peres
postado em 01/05/2022 00:01
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A Catedral Metropolitana, cartão postal de Brasília, atrai os olhares, por fora, pela arquitetura projetada por Oscar Niemeyer, e ao adentrar o espaço, o delicado e poético trabalho realizado com os vitrais transporta os visitantes em uma imersão de tons azul, verde e branco. Marianne Peretti, idealizadora do projeto, também é responsável por outros vitrais da capital federal, como os do Panteão da Pátria e do Memorial JK, mas confessava que seu trabalho predileto era o da Catedral. A artista plástica morreu na última segunda-feira, aos 94 anos, em Recife. O trabalho dedicado ao modernismo e à ousadia da arquitetura com curvas e concreto concedeu a ela reconhecimento internacional e o título de reinventora da arte do vitral.

Na manhã de hoje, na Igreja Rainha da Paz será celebrado a missa do 7º dia, às 10h; e às 18h, outra celebração será realizada na Catedral de Brasília. O corpo da artista foi velado ontem, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, sob forte comoção e com a presença de amigos, familiares e artistas. Isabela Peretti, filha de Marianne, destacou à reportagem que a escolha de trazer o corpo da mãe para ser velado na capital Federal foi algo natural. "As obras mais importantes dela estão em Brasília e ela gostava muito da cidade. Trabalhou muitos anos aqui. A Catedral era a obra de arte que ela mais gostava e que também deu mais trabalho. A capital era onde tinha os amigos que a ajudaram. Por isso, acho importante que ela esteja homenageada aqui", salientou. Após o velório, o corpo de Marianne foi levado para ser cremado em Valparaíso de Goiás.

Na última visita à capital, no fim de 2021, a artista plástica quis rever sua obra. "Não contamos a ninguém que ela viria porque queria que fosse algo mais íntimo, pessoal de mãe e filha, sem muita gente atrás. Era para ela ter esse momento de revisitar o que produziu. Levei ela ao Congresso e umas três vezes na Catedral. Ela disse: 'meus vitrais são bons. Eu fiz um bom trabalho'", lembrou Isabela.

Filho de um amigo de Marianne, Diogo Santos, 43 anos e arquiteto, destacou: "cresci brincando enquanto ela trabalhava na Catedral. Chamava ela de tia. Meu pai, Nilo Roberto Aragão, inclusive esteve com ela no último aniversário. Os dois eram amigos de longa data, há mais de 50 anos", contou. Para o arquiteto, a morte da artista plástica é uma perda pessoal e para a própria arte. "A Marianne gostava muito do verde de Brasília e essa notícia da perda dela tem para mim o abalo sentimental, pois a conheço desde criança, mas também a perda que sinto de estar indo embora uma grande artista. Ela trabalhou na criação de Brasília e foi responsável pela modernização dos vitrais, que eram utilizados antes nas igrejas renascentistas e góticas. A Marianne fez uma mudança muito grande na visão do uso do vitral para o mundo inteiro. Ela é reconhecida por isso. Inclusive, ela quebrava um pouco o brutalismo do concreto de Brasília com as curvas de sua obra", apontou.

Eternizada através da obra

Secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, esteve presente na cerimônia como representante do Governo do Distrito Federal. O chefe da pasta destacou que "Marianne é uma parte importante de Brasília". "Ela ser velada aqui, por iniciativa da filha dela, é uma honra para a nossa cidade e uma forma da gente poder se despedir. Brasília poderá para sempre reverenciar as obras que ela deixou eternizadas através de sua sensibilidade", afirmou.

Na análise de Silvestre Gorgulho, 74 anos, jornalista e ex-secretário de Cultura do DF, a sensibilidade ímpar é o diferencial da artista. "Ela se deitava no chão da Catedral para olhar como estava se formando o desenho dos vitrais. Ela tinha uma conexão com o céu de Brasília que é uma coisa única e fantástica. Ela é a única mulher que compõe os artistas construtores de Brasília e tinha essa sensibilidade feminina em toda a sua obra", detalhou.

Silvestre salientou que Oscar Niemeyer pedia para que suas obras "tivessem a luminosidade e a sensibilidade do trabalho da Marianne". "Ela conheceu Niemeyer de forma inusitada, quando viu em uma revista o Mondadori (projetado por Niemeyer), que ficava em Milão. Marianne decidiu que precisava conhecer aquele prédio. Então ela foi até o prédio e ficou admirando. Depois voltou a Paris e pegou um avião para o Rio de Janeiro para se apresentar ao arquiteto que tinha desenhado o lugar. Ela se apresentou a Niemeyer e conta que ficou encantada. Depois, Niemeyer a manda para Brasília, e assim os dois começam a trabalhar juntos", comenta Silvestre.

História

Marianne nasceu em Paris, filha de mãe francesa e pai pernambucano. Ela cresceu e estudou na França. Chegou ao Brasil em 1956, aos 29 anos. Em 1959, ganhou um prêmio pelo desenho da capa do livro na 5ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Pouco depois, conheceu, no Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer, com quem viria a colaborar pelo resto da vida.

  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Isabelle Peretti (filha de Marianne)
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Isabelle Peretti (filha de Marianne) Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Silvestre Gorgulho, jornalista.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Silvestre Gorgulho, jornalista. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Mariane Peretti.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Mariane Peretti. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Uma homenagem foi realizada no Campo da Esperança, antes do corpo seguir para cremação. Hoje tem missa na Rainha da Paz
    Uma homenagem foi realizada no Campo da Esperança, antes do corpo seguir para cremação. Hoje tem missa na Rainha da Paz Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Silvestre Gorgulho, jornalista.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Silvestre Gorgulho, jornalista. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti.
    30/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Cemitério Campo da Esperança na Asa Sul. Velório de Marianne Peretti. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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