Marianne Peretti  

Severino Francisco
postado em 03/05/2022 00:01

Com três ou quatro riscos, Oscar Niemeyer criou obras geniais, majestosamente simples. Mas, além disso, ele teve o mérito de convidar artistas de grande talento para colaborar na integração arte e arquitetura, que transformou Brasília em referência nacional e internacional.

Em alguns casos, essa integração se plasmou de uma maneira tão indivisível que os nomes dos artistas se apagaram. Fica a impressão de que tudo é criação de Niemeyer. Artistas como os escultores Alfredo Cheschiatti, Burle Marx e Maria Martins já eram reconhecidos. No entanto, existem também aqueles que foram forjados a partir da experiência de Brasília.

É o caso de Athos Bulcão e de Marianne Peretti, que nos deixou na semana passada, aos 94 anos. Se Athos inventou uma nova linguagem do azulejo, essa francesa muito pernambucana inventou uma linguagem do vitral para a arquitetura moderna, uma linguagem para filtrar a luz tropical.

Véronique David, especialista em vitrais e pesquisadora do Centro André Chastel da Universidade Sorbonne (Paris), situa Marianne ao lado de Henri Matisse e Marc Chagall na lista dos mais importantes vitralistas do século 20. Nem sempre nos damos conta, mas as obras de Peretti estão espalhadas pela cidade: na Catedral Metropolitana, na câmara mortuária do Memorial JK, no Panteão da Pátria, no STJ e no Teatro Nacional.

Suas esculturas-totens fundem árvores e pássaros, figuras e abstrações, a concretude e o movimento. Sempre procura a depuração da forma até atingir o essencial. Elas estão impregnadas de um sentido do sagrado. O ponto comum é a herança da experiência de Brasília: a sabedoria para harmonizar, valorizar, iluminar, arejar ou sacralizar os espaços na arquitetura.

Na Catedral Metropolitana de Brasília, obra-prima da arquitetura moderna, ela criou um vitral que é uma espécie de abóbada cósmica para filtrar a luminosidade tropical do céu de Brasília. Imagino que seja difícil a um fiel se concentrar no eventual sermão de um padre que fale do púlpito, à altura do corpo. Ali, nosso olhar está sempre dirigido para o alto. Para ser ouvido, o pregador precisaria falar do ponto em que voam os anjos de Cheschiatti.

A obra divide opiniões dos arquitetos. Alguns entendem a versão anterior ao vitral de Peretti, marcada pela transparência, permitia uma interação mais rica entre o prédio-escultura de Niemeyer e a esfera celeste de Brasília. Eu tendo a concordar, mas, de qualquer maneira, acho belíssimo o vitral de Peretti. Ela inventou um outro céu para a catedral.

No STJ, a escultura de Peretti mostra uma mão com um olho; no Teatro Nacional, a escultura de um pássaro, símbolo da liberdade, é vazada pelo voo; no Memorial JK, um vitral carregado de figuras simbólicas coroa a câmara mortuária. O Painel Araguaia, esquecido durante muito tempo nos depósitos da Câmara dos Deputados, é atravessado de luminiscências. A gente sai das obras que têm a intervenção de Marianne Peretti com a sensação de transparência, de leveza, de ritmo, de luminosidade e de voo.

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